Revista Mandala

A escuta do sintoma

Em geral, quando a maior parte das pessoas se percebe com um sintoma, sua primeira reação é buscar uma forma de eliminá-lo. Reforçadas pela medicina moderna, com sua ênfase na doença e foco no combate ao sintoma, as pessoas nem imaginam que aquela disfunção que está ocorrendo em sua psique vem para lhe dizer algo. A mensagem é ignorada, os sintomas suprimidos, e suas causas e finalidades raramente se tornam conscientes.

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Por Isabela Corrêa – psicóloga especialista em Psicologia Analítica, Psicoterapia Corporal e EMDR. Também é instrutora de Kundalini Yoga. isabelasc@hotmail.com

Do ponto de vista da psicologia analítica, os sintomas psicológicos têm sua razão de ser e é importante que se faça uma escuta atenta com relação a eles. Eles tem uma causa, mas também uma finalidade. Para o psiquiatra Carl Gustav Jung, não somos nós que curamos os sintomas, mas eles que surgem para nos curar.

Em geral, quando a maior parte das pessoas se percebe com um sintoma, sua primeira reação é buscar uma forma de eliminá-lo. Reforçadas pela medicina moderna, com sua ênfase na doença e foco no combate ao sintoma, as pessoas nem imaginam que aquela disfunção que está ocorrendo em sua psique vem para lhe dizer algo. A mensagem é ignorada, os sintomas suprimidos, e suas causas e finalidades raramente se tornam conscientes.

Causas x conseqüências

Imagine que você está dirigindo seu carro e, de repente, acende uma luz no painel que você não sabe o que significa. Ao levar o carro ao mecânico, ele corta o fio que fez acender a luz e lhe devolve o veículo, sem sequer procurar saber o que causou o problema.

Tal é a forma que vem sendo tratada grande parte dos sintomas pela medicina moderna, principalmente os de ordem psicológica. Transtornos de ansiedade, depressão, síndrome do pânico e insônia são consequências, são as luzes acendendo no painel. O que acendeu aquela luz? Por que esse transtorno apareceu neste momento em minha vida? O que há de sintomático em minha forma de pensar, de me relacionar ou com meu estilo de vida? Quais seriam as causas disso estar acontecendo comigo?

Estas são perguntas essenciais que propõem uma reflexão, uma busca de sentido. É a atitude de alguém que faz uma escuta do sintoma como um aviso de que algo não está bem dentro de si e vai investiga-lo como uma expressão da vida, atuante e cheia de significado. Carl Gustav Jung, o psiquiatra fundador da psicologia analítica propõe uma abordagem bastante interessante com relação a este tema. Ele diz, em seu livro Civilização em Transição (2000):

“Não se deveria procurar saber como liquidar uma neurose, mas informar-se sobre o que ela significa, o que ela ensina, qual sua finalidade e sentido. Deveríamos aprender a ser-lhes gratos, caso contrário teremos um desencontro com ela e teremos perdido a oportunidade de conhecer quem somos. Uma neurose estará realmente “liquidada” quando tiver liquidado a falsa atitude do eu. Não é ela que é curada, mas ela que nos cura. A pessoa está doente e a doença é uma tentativa da natureza de curá-la.”

Para compreender essa inversão radical na forma de entender os sintomas proposta por Jung é preciso entender um pouco sobre o funcionamento psíquico.

Uma noção sobre dinâmica psíquica

Jung entendia a psique do ser humano como dotada de uma função autorreguladora, o que significa que ela própria busca se organizar para manter/atingir o desenvolvimento harmônico daquele ser humano. A partir da compreensão da dinâmica psíquica individual é que se poderia compreender os estados neuróticos ou psicóticos, pois a dinâmica psíquica de cada indivíduo é única, resultado da combinação de seus componentes consciente e inconscientes. Ou seja: toda análise está relacionada àquele indivíduo específico, que tem aquela história de vida, aquelas marcas emocionais, aqueles valores, passando por aquele estado, naquele momento de vida. Ao observar o sentido da neurose na psique e na vida de cada indivíduo, Jung percebeu que ela sempre apontava para um processo de amadurecimento, para o próximo passo a ser dado. É como se contido nesse sintoma estivesse uma parte não desenvolvida da personalidade, que agora é convocada e confrontada, e esse confronto torna-se fonte de desenvolvimento. Assim, o sintoma pode ser visto como uma tentativa natural de mudança, de cura, de reorientação.

Em nosso desenvolvimento, todos devemos nos adaptar a exigências externas (família, profissão, sociedade) e também internas, ou seja, exigências relacionadas à nossa própria natureza. Quando negligenciamos qualquer uma dessas necessidades fundamentais, os sintomas podem aparecer.

Sem pretender esgotar ou explorar profundamente o assunto, vamos examinar uma situação típica onde fica exemplificada essa dinâmica: Para existirmos no mundo social, criamos uma espécie de “persona”, termo que vem do grego e significa “máscara”. Esta “máscara social” é o nosso modo de ser e agir no mundo, aquilo que nos permite relacionar com os outros e com as exigências sociais de forma adequada: são os papeis que desempenhamos, incluindo aspectos da forma como nos vemos e como queremos ser vistos pelos outros. Ela tem uma função importante, pois é graças a ela que nos adaptamos externamente. Entretanto, ela não corresponde à nossa própria individualidade, a quem somos verdadeiramente. O que acontece frequentemente é que esse funcionamento pode se tornar inadequado e pode se tornar uma prisão: quando inconscientemente nos identificamos excessivamente com a máscara ou quando passamos a funcionar exclusivamente a partir das exigências do mundo externo, a partir do que os outros querem de nós. Quando funcionamos desta forma, em função de agradar o outro ou de manter aparências, perdemos algo de fundamental: não mais conectados à fonte interna, ao inconsciente, ou à aquilo que muitos chamam de alma, experimentamos um esvaziamento daquela qualidade vital que dá sentido às coisas, que preenche de vida e traz ânimo à existência. Nos sentimos incapazes de sermos nós mesmos. Mas como esse processo se dá sem que percebamos, de forma inconsciente, o sintoma muitas vezes aparece apontando esse vazio, essa falta de conexão consigo mesmo, podendo se manifestar através da depressão, da angústia, da insônia.

A atitude da consciência periodicamente tem que ser revista, reformulada. Cada etapa da nossa vida é composta de tarefas diferentes de desenvolvimento, e muitas vezes os sintomas aparecem justamente nestes difíceis momentos de transição, onde algo tem que morrer para dar lugar ao novo.

Assim, o sintoma vem e nos força a fazer uma parada: olhar para nossa vida e avaliar como nossa existência está se desenvolvendo nas diversas dimensões: social, familiar, anímica, profissional etc.

Ocorre muitas vezes uma reformulação de valores que norteiam a nossa vida. O sintoma vem nos curar pois nossa atitude é inadequada perante às exigências da vida, perante às necessidades da alma. No caso citado, o sintoma veio curar a pessoa doente de uma vida sem sentido, sem significado, da prisão que é se nortear unicamente a partir da necessidade de corresponder ao desejo do outro. Muitas vezes, quando consegue-se ampliar a visão e forjar uma personalidade mais ampla, a neurose desaparece. Em muitos momentos a angústia se torna uma força propulsora para dar a virada. O sintoma muitas vezes não deixa saída, ele impõe. Mas… e quando calamos tais sintomas  com medicamentos?

a escuta do sintoma

Um olhar sobre a medicalização

Há diversos posicionamentos a respeito deste tema, e em última instância, a particularidade de cada caso define se é necessário medicar ou não. Por vezes, o sofrimento da pessoa é tão grande, tão incapacitante, que medicar é absolutamente necessário. Serve exatamente como uma muleta: quando quebramos o pé e precisamos de ajuda para caminhar novamente, ela é necessária e caso não esteja presente a tal muleta, a situação pode piorar. Há outros exemplos, como alguns casos de bipolaridade e de depressão, cujas causas também são de ordem bioquímica: há uma disfunção da química no cérebro. Mas há milhares de casos de depressão que vêm sendo medicalizados desnecessariamente e, ao fazê-lo, se impede a possibilidade de um fortalecimento para que a cura efetiva possa se dar.

Leandro Tavares, doutor em Psicologia, em sua pesquisa com pacientes deprimidos, constatou: “O contato diário com diversos casos intitulados de “depressão” e as conseqüentes realizações de psicoterapias com estes pacientes nos levaram a considerar o fato de que, possivelmente, a maioria destes casos diz respeito a momentos de altos e baixos comuns à existência humana de uma forma geral, não necessariamente correspondendo a uma psicopatologia (…) ou ainda, muitas vezes, nem se trata de sentimentos excessivamente penosos ou depressivos, mas, sobretudo, de sentimentos de angústia, também intrínsecos à própria condição de seres desejantes que somos” (A Depressão como “Mal-Estar” Contemporâneo – medicalização e (ex)–sistência do sujeito depressivo, 2010).

Frequentemente, o mal estar de tais pacientes não cessa com a medicação e então eles são encaminhados à psicoterapia, que comprovadamente apresenta resultados mais lentos, porém mais duráveis que o tratamento medicamentoso. A medicação sozinha não atua nas causas destes sintomas e quando ela é retirada a pessoa tende a regredir para o estado perturbado anterior, já a psicoterapia busca fortalecer a própria estrutura psicológica para que a pessoa possa se reestruturar e posteriormente suportar firme a retirada da medicação. A psicoterapia visa, por meio da relação entre o terapeuta e o paciente, abrir uma possibilidade de reorientação a partir da escuta das suas queixas, dos seus sintomas, das suas demandas, da sua dinâmica psíquica. Ao aprofundar o entendimento a respeito daquilo que gera conflitos e desequilíbrio, favorece que um novo significado, novos valores e atitudes sejam elaborados. O terapeuta entende que todo o psiquismo se organiza na direção de seu processo de individuação, ou seja, na direção de que a pessoa se torne verdadeiramente quem ela realmente é. E assim a escuta analítica favorece que o cliente acesse a verdade acerca da sua existência. Para Jung, em A vida simbólica (1990) a “verdade é aquilo que nos ajuda a viver – a viver adequadamente.”

Um olhar sobre nossa cultura

Infelizmente, nossa cultura não propicia de fato uma filosofia de vida e nem um olhar maduro sobre a existência. Pelo contrário, ela é infantilizante, superprotetora, superficial. Trata-se de uma cultura caracterizada pelo excesso, pelo consumismo, pela falta de limites, pelo fácil, pelo instantâneo, pelo extremo individualismo e pela falta de valores norteadores das ações dos indivíduos. As relações interpessoais contemporâneas vêm sendo mediadas pelas imagens e necessidades supérfluas que geram indivíduos cuja visão de mundo supervaloriza a aparência e o aparecer na cena social se torna uma questão de existência. A partir desse cenário acabamos por forjar uma falsificação da vida social gerando multidões de solitários deprimidos pelo esvaziamento daquilo que traz  verdadeiramente sentido para a vida.  A Organização Mundial de Saúde estimou que em 2012 já se somavam 350 milhões de pessoas com depressão e que em 2030 essa será a doença mais comum do mundo.

A verdade é que dedicamos muito pouca atenção à nossa essência, à nossa psique. E assim o ser humano adota modos de viver e de se relacionar com o mundo e consigo mesmo que são insatisfatórios do ponto de vista da alma. Não trazem um crescimento pessoal consistente, nem relacionamentos interpessoais saudáveis, nem um viver criativo. Quanto mais o homem corre atrás de falsos bens e quanto mais é insensível a tudo que é essencial, mais conflituoso, frustrado e desunido consigo mesmo fica, que é a condição neurótica por excelência.

Frente a uma cultura alienante, massificante, não resta outra alternativa que não a de dar-se conta deste tiranismo coletivo que vivemos, nos tornar conscientes de forma a não sermos arrastados pela massificação apregoada pela nossa cultura. De qualquer forma  – tal qual um pêndulo que chega a um extremo de um lado, fatalmente deverá retornar para o outro lado – ao passar pelos sintomas, pelos estados depressivos, de pânico etc, deveremos fazer o caminho de retorno a nós mesmos de forma que possamos reconhecer as feridas emocionais que carregamos, integrar aspectos infantis, refletir e resgatar a alma e um olhar mais atento à forma com que conduzimos nossa existência.

Vejo a questão cultural da mesma forma: ao chegarmos ao extremo de uma cultura alienante, deveremos fazer o caminho de retorno, que é o que já se observa em diversos movimentos sociais contemporâneos, apontando para um novo paradigma, mais holístico, mais integrativo, onde a valorização do ser humano, o respeito pela terra, a ênfase na importância das relações interpessoais, o retorno ao simples, ao belo, ao essencial estão presentes. Assim, fazer uma escuta dos sintomas da nossa própria cultura é importante para que  possamos permitir uma diferenciação dela e de alguma forma contribuir com um olhar e modo de ser no mundo mais conectado com aquilo que os gregos chamavam de eudaimonia: o cultivo da verdadeira alegria.

Colaborador

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