Revista Mandala

A inclusão do amor na bandeira do Brasil

Campanha propõe incluir a palavra “amor” na bandeira nacional.

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O filósofo Auguste Comte inspirou o lema da bandeira brasileira com a frase “amor por princípio, ordem por base, progresso por fim”, entretanto, o amor ficou de fora. Agora, um resgate histórico é a proposta da campanha Inclua Amor na Bandeira, que pretende completar o projeto que surgiu com a República, no final do século XIX.

Desde a Proclamação da República, quando militares e intelectuais positivistas propunham inserir todas as qualidades inspiradas por Comte na bandeira nacional, até agora, o amor tenta ser resgatado para ocupar o seu lugar ao lado da ordem e do progresso. Entre as iniciativas mais recentes, a campanha Inclua Amor na Bandeira, coordenada pelo sociólogo Carlos Alberto Emediato, representa aqueles que acreditam na inclusão do amor como uma qualidade a ser firmada na identidade nacional. Em entrevista à Revista Mandala, Emediato, que também é doutor em Política da Educação pela Universidade de Stanford e coordenador da Rede Global de Educação para a Paz, fala sobre o que realmente pode mudar com a inscrição Amor Ordem Progresso.

Revista Mandala – Além das reivindicadões durante o movimento que levou à República, quais foram as iniciativas para a inclusão da palavra amor na bandeira do Brasil?

Carlos Emediato – Ao longo destes quase 126 anos, muitos se pronunciaram reclamando da exclusão do amor na bandeira. Noel Rosa fez uma música, o diretor de teatro José Celso Martinez criou uma cena dentro da peça Canudos mostrando o corte do amor na bandeira, o publicitário Carlito Maia sempre dizia que o Brasil só ia ter jeito quando incluísse o amor na bandeira, o músico Jards Macalé compôs um CD dedicado a Amor Ordem Progresso. Na área parlamentar, onde a mudança precisa ser aprovada, houve a iniciativa do Senador Darcy Ribeiro escrevendo uma longa justificativa para a inclusão do amor na bandeira, o projeto de lei PL2179 de 2003 do Deputado Chico Alencar – PSOL-RJ, e o pronunciamento do senador Eduardo Suplicy em apoio a esta Campanha e ao Projeto do Deputado Chico Alencar.

Revista Mandala – Qual a relação do projeto Inclua Amor na Bandeira com os princípios positivistas?

Na verdade, quase todos os nomes citados não são ou foram adeptos e seguidores do positivismo. O resgate histórico a ser feito é tarefa da Nação Brasileira como um todo e de cada cidadão. A afirmação da qualidade fundante do amor é parte de todas as grandes tradições de sabedoria. Para muitos, o amor é qualidade que nos constitui e fonte de onde emerge o universo. Na nossa experiência cotidiana, independente de crenças e sistemas filosóficos, sabemos do poder do amor como força que integra e transforma. Há um resgate histórico a ser feito e uma afirmação: queremos que o Amor por Princípio faça parte da nossa identidade nacional.  

projeto Inclua Amor na Bandeira

Revista Mandala – O que poderia mudar, de fato, para os brasileiros, com a inclusão da palavra amor?

Há a dimensão simbólica que é muito importante. Os símbolos consolidam nas formas, cores e também nas palavras, qualidades da mente coletiva do grupo que os utiliza como expressão. A bandeira nacional da forma atual é o símbolo maior que nos representa, a todos e cada um.

Não se trata de mudar a bandeira, mas de completar o que ficou faltando da proposta original.

Esta dimensão simbólica já é muito importante em si mesma. Mas a campanha é fundamentalmente uma campanha de Educação Pública em que todos estão convidados, instigados, convocados a sentir, pensar, imaginar, desejar como seria nossa convivência e nossa sociedade incorporando-se amor na bandeira, amor no Brasil. É uma campanha para se ativar o princípio do amor como força transformadora e criativa. O amor se manifesta em soluções práticas. Pergunte a uma mãe como ela cuida amorosamente de suas crianças. É muito trabalho a fazer: alimentar, vestir, ensinar, acolher, ser um bom exemplo. Há situações sociais, ambientais, humanas que simplesmente não podem mais existir no século XXI : a desnutrição, água contaminada – uma das maiores causas de doenças – desmatamento, desrespeito a direitos humanos básicos, falta de saneamento, alto analfabetismo dentre outros. Temos o conhecimento, a tecnologia, a criatividade os recursos necessários para resolve-las. Uma Campanha que pode nos ajudar a exercitar este Amor prático e a Co-Criação de solução efetivas nos parece não somente oportuna mais necessária neste momento que vive o Brasil.        

Revista Mandala – O projeto “Inclua Amor na Bandeira” foi lançado durante o III Festival Mundial da Paz, em 7 de setembro de 2012. O que acontecia nos bastidores da campanha antes do lançamento?

O primeiro sinal foi dado quando Jorge Carcavallo falava em um Seminário sobre Mídias Digitais, na FAAP. Ao perguntar por que o Brasil que é um país tão acolhedor não incluiu a palavra amor na sua bandeira, centenas de jovens pararam de digitar em seus laptops, tablets e smartphones para aplaudir. Alguma coisa ali indicava que esta ideia encontrava ressonância, pelo menos no meio dos jovens conectados. Conversamos sobre a possibilidade de apresentar a proposta no Seminário “Amor, Inclusão, Paz” dentro do Festival, organizado pela UNIPAZ – que por confluências não programadas foi transferido para o Círculo Militar de São Paulo. Ao apresentarmos a ideia de uma campanha, Taunay Daniel, que participava da sessão, sugeriu que o próprio Festival se manifestasse formalmente a favor da inclusão do amor na bandeira, o que, contando com a mobilização e a manifestação favorável de representantes de outras organizações se concretizou na sessão de encerramento do festival. No dia 12 de Dezembro de 2012, o site incluaamornabandeira.org foi publicado para recolher assinaturas e comentários.  

Revista Mandala – Quais os trâmites necessários para que o projeto seja votado?

Quanto ao Congresso, sabendo que colocar o amor na bandeira é um desejo de uma parcela significativa da sociedade, eles encontrarão as formas adequadas para seguir com os trâmites parlamentares necessários. Antes disto, a tarefa é nossa! Precisa acontecer uma declaração clara de vontade individual e coletiva. Uma indicação de que queremos que mudanças inadiáveis se processem na sociedade brasileira. Afirmar para a sociedade brasileira, e que o resto do mundo ouça, que integrar o Amor como princípio no nosso cotidiano é profundamente transformador, nos liberta de uma visão curta e de interesses que não se coadunam com as necessidades básicas e as aspirações dos brasileiros.

O amor por princípio pode nos reconciliar com o que há de mais poderoso em cada um e com a vocação de um país capaz de acolher, cuidar e de se recriar diante dos desafios, desenvolvendo novas formas de convivência e de organização social.  

Carlos Emediato
Carlos Alberto Emediato é sociólogo e coordena a campanha ‘Inclua Amor na Bandeira’

Revista Mandala – Como os brasileiros podem colaborar com a campanha?

Esta Campanha é um convite à co-criação, a um exercício de cidadania prática e criativa. Cada brasileiro pode expressar de sua forma como apoia o amor na bandeira, amor no Brasil. Temos depoimentos de líderes de organizações de Cultura de Paz, performances de artistas, trabalhos criativos e divulgação na imprensa e internet. Para o dia sete de setembro, estamos preparando um evento em São Paulo com oficinas que lidam com as questões do desmatamento, com a poluição da água, tecendo bandeiras com Amor em telas de juta, performances, bandas e depoimentos. Gostaríamos que outras manifestações acontecessem no Brasil. Quem sabe um banner da campanha no Cristo Redendor e no Pão de Açúcar. Quem sabe aí no Paraná um banner exposto nas Cataratas, também na Amazônia, em pontos de visitação da floresta. Ou seja, onde as pessoas se reúnem ou lugares que representam o Brasil. Mas, há também professores estudando a questão histórica em sala de aula e deixando a questão para reflexão, assim como poemas sendo escritos. São muitos jeitos, cada um pode criar o seu em apoio à campanha, inclusive entrar no site, votar e deixar seu comentário.

A seguir, o pronunciamento do senador Eduardo Suplicy em 19 de dezembro de 2015


Saiba mais sobre o projeto Inclua Amor na Banderia, no Facebook

Maiana Antunes

Fundadora, jornalista e editora da Revista Mandala.

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