Revista Mandala

A medicina integrativa sugere que você não precise se equilibrar sozinho

O médico integrativo Dr. Luiz Nicolodi fala sobre o autoconhecimento proporcionado pelo olhar integrado de corpo, mente e alma.

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Já pensou em unir o seu conhecimento ao de outra pessoa para construir algo bom para os dois? Se sim, você já pensou em medicina integrativa.

Pense, por exemplo, em dois agricultores com métodos diferentes de plantio. Um aproveita-se da terra, a analisa, a prepara; o outro foca na temperatura, na incidência de luz solar, nas estações do ano. Se os dois aplicarem suas técnicas juntos, sorte da plantação, não é? As chances de ela crescer saudável e bem cultivada, resistente às intempéries do chão e alinhada com o clima, só aumentam.

Isto é medicina integrativa: alinhamento. É quando os conhecimentos da medicina convencional se unem às sabedorias da medicina complementar, que traz uma série de tratamentos alternativos como acupuntura, meditação, fitoterapia e homeopatia.

pexels-photo-63911A partir da conexão entre essas duas formas de buscar a cura, encontrá-la se torna mais fácil. E não apenas encontrá-la, mas mantê-la por perto, entender a cura ao entender a doença, observar ambas e enxergar a si mesmo como uma formação que não é apenas corpo, mas também mente e alma.

Para falar sobre esse tema, conversamos com o médico de família Dr. Luiz Fernando Nicolodi, que tem a medicina integrativa como um método de trabalho. Ele fala sobre a importância de olhar igualmente para o corpo, para a mente e para alma. Quando trabalhados em conjunto, segundo o acupunturista e homeopata, eles revelam informações preciosas sobre a situação do paciente, em cuja consciência já habita a cura à espera de ser convidada a agir. Confira:

luizzzRevista Mandala: O que diferencia a medicina integrativa dos métodos e dos resultados obtidos apenas com a medicina convencional?

Luiz Nicolodi: Quando pensamos numa medicina integrativa, em primeiro lugar se trata de um olhar voltado para o sujeito e suas constelações de relações, percepções e crenças. Ou seja, estamos nos referindo a uma abordagem que escolhe falar da singularidade, percebe os obstáculos à cura e auxilia essa pessoa a encontrar novos horizontes na sua vida, na relação com seu corpo, na relação com seus pensamentos e emoções.

Isso tudo não descarta os avanços que a medicina convencional trouxe ao longo de décadas, que, aliás, são fundamentais e necessários para exercermos uma boa medicina. No entanto, precisamos superar a desumanização profunda que a medicina convencional gerou, centrando-se exclusivamente no diagnóstico de doenças e tratamentos padronizados. Perde-se aí a visão da singularidade, centra-se a se falar e discutir doenças, a própria doença é vista como um inimigo a ser derrotado, gerando, assim, um distanciamento enorme do sujeito de si mesmo. Ao desempoderar esse sujeito, o complexo médico-industrial farmacêutico se aproveita dessa fragilização, gera necessidades duvidosas (vê-se a indicação exagerada de exames, vê-se a hipermedicalização dos sintomas) que têm como principal alvo o lucro a qualquer custo.

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Precisamos superar a desumanização profunda que a medicina convencional gerou, centrando-se exclusivamente no diagnóstico de doenças e tratamentos padronizados.

E o que a diferencia de quando se trabalha apenas com a medicina alternativa?

As abordagens ditas alternativas, ao meu ver, contribuem para uma visão mais integral do sujeito. Porém, na maioria das vezes, adota uma postura antimédica que mais a fragiliza do que fortalece. Corre-se aí o risco de se tratar condições que precisariam de intervenções mais robustas como cirurgias e medicações alopáticas de uma forma irresponsável, agravando a condição clínica do paciente e desencorajando o paciente a procurar um médico e fazer uma melhor investigação.

A meu ver a medicina integrativa é mais equilibrada ao propor um olhar mais amplo para o processo singular, usando os recursos mais necessários, naquele momento, para cada paciente. Os resultados, na minha percepção, são absolutamente melhores. Ao se criar um campo de cura entre o paciente e o médico, existe vínculo, confiança e o paciente se sente empoderado dentro da sua condição, aprende a conversar com o sintoma, compreende a que propósito seu corpo e mente está manifestando sintomas, para onde se apontam as transformações necessárias.

herbal-tea-herbs-tee-mint-159203Qual o avanço, na sua opinião, que pode ser obtido na área da saúde ao se integrar técnicas hoje tidas como convencionais, e comprovadamente eficazes, com métodos que permeiam as tradições orais e comportamentais de muitos povos e sua sabedoria não necessariamente científica?

Isso vem acontecendo aos poucos no próprio Brasil. Já há alguns anos o Ministério da Saúde vem lançando publicações que orientam o uso de fitoterápicos na rede pública. Existe um incentivo maior para implementação de práticas integrativas, como homeopatia e acupuntura, no SUS. Ou seja, não se abandona a necessidade de fazer a investigação clínica, com exames e tratamentos bem indicados. Porém a própria clínica é exercida dentro de parâmetros baseados em evidência (usando a tecnologia de forma racional e baseadas em metanálises e estudos feitos em grandes populações, e a própria prescrição médica é construída no real benefício em se tomar determinados medicamentos).

Assim, uma tendência importante e louvável é o que chamamos de slow medicine, prescrever apenas quando realmente benéfico, investigar apenas se realmente for ajudar o paciente. Os resultados de excessos de intervenções médicas e de efeitos colaterais da hipermedicalização são alarmantes. Nota-se que uma das principais causas de mortes em países como EUA é a iatrogenia (intervenção médica que traz prejuízo á saúde).

cairn-fog-mystical-background-158607Também é preciso perguntar por qual motivo os fitoterápicos não são escolhidos para serem estudados pela grande indústria de medicamentos. Certamente, as razões econômicas e o risco de a população poder ficar mais independente das medicações tradicionais é uma preocupação, o que traria menos lucro. Da mesma forma precisamos entender porque acontecem ataques agressivos contra a própria homeopatia (sabe-se que remédios homeopáticos são muito mais baratos e os resultados do tratamento mais duradouros) – economicamente isso não é interessante para a grande Indústria Farmacêutica.

A busca maior da Alma é o senso de pertencimento, amor e conexão por tudo que nos rodeia. Fazer essa transformação junto com o paciente é um processo, uma Obra.

Qual a importância de se observar toda a estrutura de uma pessoa, conectando manifestações do corpo com as da mente e vice-versa? Como analisá-la “por inteiro”, olhando também para os detalhes e não apenas para a dor, pode ajudá-la a se recuperar melhor?

Eu diria que é fundamental. Se olhamos o sintoma na periferia, criamos aversão ao mesmo e buscamos tratamentos supressivos, como os realizados pela medicina convencional isolada, corremos o risco de agravar o adoecimento geral do organismo, perdemos a oportunidade de aprender com o sintoma, abrimos mão de ampliar nossa visão da vida e das nossas relações. Ficamos menos conscientes de nós mesmos. Tratar dessa forma só tem sentido quando precisamos ganhar tempo para entender melhor o que está acontecendo, o que está apontando todo esse processo, e que tipo de compensação esse sintoma está querendo nos mostrar. Porém, o tratamento mais pleno e profundo surge quando geramos as transformações necessárias que nossa Alma aponta. No final das contas, a busca maior da Alma é o senso de pertencimento, amor e conexão por tudo que nos rodeia.
Fazer essa transformação junto com o paciente é um processo, uma Obra. Irá depender do campo de cura que se forma entre médico e paciente. Depende do que o destino lhes reserva.

pexels-photo (1)Medicina está diretamente relacionada com bem-estar, seja a longo ou curto prazo. Dessa forma, a palavra “cura” possui um significado muito forte no sentido de proporcionar condições favoráveis a esse bem-estar tão desejado. Na sua opinião, o que a cura representa, qual seu poder? Como você enxerga a busca por cura, em especial no tempo contemporâneo?

Encaremos a cura como um estado de mente e corpo não necessariamente desprovido de sintomas. A forma como reagimos aos sintomas é o estado ou não de Cura. O sintoma pode estar lá, porém o que fazemos com ele diz o tanto de Cura que temos dentro de nós. Acolhemos o sintoma, conversamos com ele, entendemos como ele aparece e o que aponta, isso a meu ver é uma pessoa que tem um potencial de cura enorme dentro de si, inclusive podendo curar outras pessoas. No lado oposto brigue com o sintoma, critique, julgue, se vitimize, se recrimine, olhe para ele como uma praga ou uma erva daninha, deve ser arrancado, não me pertence, é algo estranho! Nessa situação o sintoma só ganha força e toma conta de todo nosso organismo, se espalha como um câncer para todas as partes e para nossa mente, em outras palavras, se fortalece.

O sintoma pode estar lá, porém o que fazemos com ele diz o tanto de Cura temos dentro de nós.

Carl Gustav Jung (psicoterapeuta fundador da psicologia analítica) falava que o domínio dos complexos aumenta na proporção da nossa inconsciência. Quanto menos olharmos para nosso interior e para nossas constelações de relações, mais fragilizados ficaremos e a Cura estará mais distante. Olhe, medite, contemple, descanse no entendimento de tudo que surge na sua experiência. Busque a integração de todas suas partes através do Amor, essa é a Cura mais profunda. Não há sintoma que resista, não há doença que o domine. No final, todos morreremos, porém o que importa é a trajetória e de que maneira passaremos nossa morte.

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Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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