Revista Mandala

A poesia do rompimento, a arte da reconstrução: Claudia Sehbe em Somos Instantes

A poeta gaúcha transforma em verso o ego, o amor, o agora e a liberdade de deixar de ser para se transformar.

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posso eu

todos os dias

morrer

e ressuscitar

por amor teu?

De uma destreza apoteótica e entre versos de suavidade nerval, a poesia de Claudia Sehbe imerge como folha verde e musgo úmido dos escombros de cidades sem nome e cheias de histórias. Essas cidades, na verdade, poderiam se chamar Nova Iorque e Rio de Janeiro: ambas foram lar e inspiração para Claudia, que escreve poesia desde criança, embora não soubesse, lá atrás, que já fazia isso.

Agora, em Somos Instantes, ela tem a oportunidade de expressar esclarecidamente o que chama de “um diálogo entre o íntimo e o universo, que tende a generosamente reconduzir-nos a nossa condição primordial como seres humanos: a liberdade”. Para a poeta, gaúcha, suave e determinada, poemas são vivências, anseios, sonhos.

Capa do livro Somos Instantes (Foto: divulgação)
Capa do livro Somos Instantes (Foto: divulgação)

“Há uma tentativa velada de liberação de um sofrimento”, ela diz, referindo-se ao poder de transformação de sua obra sobre si mesma e sobre quem encontrar a eventual felicidade de ser tocado por ela. “Uma busca. Uma Impermanência”.

Entre permanecer e deixar de estar, voar e fluir, entre entender as raízes, as pedras e o chão, mas também compreender o efeito do vento que transcorre entre seus versos, Claudia Sehbe traz uma série de poemas que seguem sem rumo e, ao mesmo tempo, decididos. Ao ler sua obra, uma informação fica muito clara: escrever é preciso.

“Escrever é a forma mais intensa da minha expressão e por isso, para mim, também a mais bela”, ela conta. Mas acrescenta que é, ainda e também, um “processo solitário e muitas vezes doloroso, que me possibilita estar intimamente ligada ao meu interno e às suas muitas variações”.

Claudia Sehbe é artista visual, é criadora, é poeta e é muitas coisas mais e além (Foto: acervo pessoal de Claudia Sehbe)
Claudia Sehbe é artista visual, é criadora, é poeta e é muitas coisas mais e além (Foto: acervo pessoal de Claudia Sehbe)

Arte que (trans/re)forma

breu

breu

breu

eu

faz tempo que eu não me vejo

Na época em que escreveu Somos Instantes, seu primeiro livro, Claudia estava na busca de liberdade. Liberdade interna, ela conta. Estava, como descreveu, procurando entender o poder do agora. Não é por acaso que os poemas nascem de paredes e pedaços. Não é acidente que a protagonista seja uma mulher e que fique em cada estrofe um gozo dela.

“O verdadeiro trabalho para mim é o que me modifica”, diz Claudia. “A obra vai se transformando quando você se expõe – e você também”.

A escrita me traz felicidade dentro do silêncio que necessito para conectar. Esse silêncio que experimento me possibilita viver melhor. Há ainda aqui o escutar a si, o escutar o mundo e o escutar as coisas que pedem para serem ‘escritas’”.

É nessa brincadeira de se conhecer que está o poder da arte como criação que transcende quem a criou. Na transformação de Claudia, o papel da arte foi fundamental. Ela conta que tem uma personalidade considerada “hiperativa, insaciável, bipolar”, mas que encontrou paz na poesia. “(A poesia) trouxe a mim mais autoconhecimento e liberdade”, ela conta.

Somos Instantes surgiu após uma exposição de arte da qual Claudia participou durante a ArtRio 2015, a Ocupação Mauá. "Essa exposição toda do meu trabalho ainda é nova e eu estou me permitindo senti-la e vive-lá", ela diz (Foto: reprodução)
Somos Instantes surgiu após uma exposição da qual Claudia participou durante a ArtRio 2015: a Ocupação Mauá. “Essa exposição toda do meu trabalho ainda é nova e eu estou me permitindo senti-la e vive-lá”, ela conta (Foto: reprodução)

A Arte permite sairmos do confortável, do tateável , do pensamento óbvio. Ela ensina a acreditarmos em nós mesmos, em fazermos as nossas  próprias conexões e acreditarmos nelas. Ela tem como seu apogeu a criatividade. Muito do ‘fazer arte’ está em você arriscar, acreditar na sua ideia, na sua maneira de pensar”.

Poesia do instante, da força e da absorção

ego na alma

é prego

ego

ego

cego

Intensidade como retrato da beleza. É nisso, sem tirar nem por, que Claudia Sehbe acredita, e é dessa crença que Somos Instantes nasceu, publicado pela editora Olhares ano passado.

“A poesia é uma poderosa ferramenta na transformação pessoal, uma vez que possibilita acessar espaços onde o raciocínio lógico ensinado na educação formal não tem poder de acesso”, a escritora afirma. A poesia, para ela, devolve o direito de imaginar e sonhar. De fato, é algo que abre as portas e as janelas, derruba as paredes e desmorona chãos e tetos, possibilitando que haja uma transformação a partir do renascimento.

Algo que trabalha a auto-estima e o autoconhecimento.

Claudia lembra a importância de diferenciar uma do outro, no entanto. “Autoconhecimento é a percepção que a pessoa tem de si, ao passo que auto-estima é a percepção de que ela tem seu próprio valor no mundo“, ela explica. “Recuperar este valor é essencial para conseguirmos formar uma sociedade mais capaz, com mais acesso a suas liberdades e naturezas, propiciando através de um fortalecimento interno a força precisa para mudar o que julgar-se necessário ao redor”.

"sentia seus pelos ascenderem como maré alta em noite seca calafrios agudos escorriam-lhe como linhas líquidas por dentre suas pernas lânguidas um choro gozo favas de borboleta"
“sentia seus pelos ascenderem como maré alta
em noite seca
calafrios agudos
escorriam-lhe
como linhas líquidas
por dentre suas pernas lânguidas
um choro
gozo
favas de borboleta”

No começo, Claudia não recebeu apoio das pessoas ao seu redor. Segundo ela, muitos ainda enxergam o poeta “como alguém muito distante, num pedestal imenso”, enquanto tudo o que ela queria era simplesmente poder escrever e viver dessa arte. Aqui e agora, porém, ela se apodera da poesia e a poesia se apodera dela.

“Hoje vejo um cenário bom para poesia que está buscando um espaço que vai além do papel: tribos e rituais de roda, festas, performances, leituras… Uma expressão de fato”.

A seguir, um trecho do poema Humano:

um coletivo de ilhas submersas
ondas galácticas
um universo
dezoito planetas despovoados
um abismo absoluto
aço
pedaço
felpa
gota d’água
grão de tudo

a saia a asa
a asa e o mandurim voam
o duplo salto é oco
o lavrador
agricultor
o agrônomo argentino
as maçãs
as maçãs argentinas
o cadarço
o passo
a bolha e o eu
o eu é uma bolha

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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