Revista Mandala

A prática de mindfulness realmente ajuda a aliviar o estresse e a ansiedade no trabalho?

Confira como a atenção plena nos escritórios pode ser transformadora para as empresas e para a saúde mental dos funcionários.

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Quem já experimentou o esgotamento mental decorrente do ambiente de trabalho sabe como é difícil manter o equilíbrio. No entanto, há sempre uma oportunidade de se fortalecer, evitando que situações como essas aconteçam – ou, caso aconteçam, cuidando para responder da melhor forma possível.

O espaço dos escritórios, departamentos, salas e conjuntos empresariais pode ser devastador para a mente e para o corpo por causa do estresse que provoca e do caos em que está submerso na maior parte do dia. E é onde muitos se descobrem submersos também.

Por isso, é preciso saber se desvincular desse contexto para conseguir lidar da forma mais saudável e plena com o cotidiano do trabalho. Algumas empresas de tecnologia estão investindo em criações que ajudem a evitar o esgotamento mental. A norte-americana Open Vessel, por exemplo, desenvolveu um casulo de meditação que pode ser utilizado para descansar, relaxar ou se concentrar dentro do escritório.

As luzes LED no interior do casulo ajudam na manutenção do humor e o usuário pode ouvir música ou meditar silenciosamente. A Open Vessel tem até playlists no Spotify (Imagem: reprodução/Open Vessel)

Mulheres trabalhadoras, meditai!

Muitas mulheres costumam ficar mais estressadas no trabalho e sofrem de maneira mais intensa com as situações relacionadas às suas atividades. Foi o que revelou um estudo realizado em Londres e encomendado pela agência de propriedades comerciais Savoy Stewart.

De acordo com os resultados obtidos pelo levantamento, a cada 100.000 trabalhadores e trabalhadoras em 2016 e 2017 surgiram 1.880 casos de estresse, ansiedade ou depressão por parte de mulheres, o que é 60% maior do que os casos masculinos (1.170 casos a cada 100.000 trabalhadores).

Uma das possíveis causas apontadas pelo estudo para que as mulheres estejam mais sensíveis a esse esgotamento mental é que elas, não raramente, precisam lidar com responsabilidades familiares acumuladas e ainda gerir suas carreiras. Por isso, a faixa etária com maior taxa de estresse relacionado ao ambiente de trabalho é entre 35 e 44 anos.

De acordo com Damien Desnos, instrutor de mindfulness pela MTi – Mindfulness Trainings international que trabalhou por quase 10 anos em empresas multinacionais, a atenção plena é uma ótima ferramenta de prevenção contra o esgotamento mental, em especial para quem já o experimentou antes e não quer ter uma “recaída”. “Estando à escuta do seu corpo, dos seus pensamentos, de suas emoções, o praticante aprende a ouvir os sinais do cansaço e a se apaziguar antes que seja tarde demais”, ele conta.

“Mindfulness é uma técnica bastante sensorial, ela é baseada no que sentimos aqui e agora. Em momento nenhum procuramos fugir da realidade imaginando coisas. A técnica toda se baseia em treinar a nossa mente para estar no momento presente e voltar ao momento presente caso se deixe levar por comportamentos automáticos”, explica o instrutor.

Desnos é natural de Bretanha, no interior da França, e diretor do ClaraMente, no Rio de Janeiro. Graduado em comércio exterior e mestre em negócios internacionais, ele utiliza sua experiência em grandes empresas para direcionar seu trabalho como instrutor de mindfulness também a quem sofre com a rotina maçante do mercado moderno. Inclusive, ele chama a atenção para os benefícios da prática da atenção plena no trabalho, pois ajuda na manutenção do foco, na sensação de presença, na expansão criativa e na tomada de decisões.

De dentro para fora: impacto do mindfulness nas empresas

Damien recomenda o uso da “âncora”, algo que nos mantém na prática. Geralmente, a respiração é uma poderosa âncora, pois evitamos retornar ao piloto automático quando prestamos atenção no fluxo contínuo de ar que entra e sai do nosso corpo.

“Mindfulness pode ser usado na prática cotidiana, nas situações que nos surgem todos os dias”, Desnos observa. Ele dá o exemplo de uma pessoa prestes a subir em um palco para palestrar a um grande grupo. Como lidar com a pressão, que vai aumentando? De acordo com o instrutor, os pensamentos automáticos atrapalham a calma porque dominam a mente, que busca uma saída para a ansiedade, para a tremedeira, para o suor frio. “Dá para usar o mecanismo da âncora neste momento, trazendo sua mente e sua atenção de volta para o aqui e o agora”, ele afirma.

Apesar de simples, isso não quer dizer que ter atenção plena no trabalho seja fácil. “Exige treinamento, práticas formais de mindfulness, tais como meditação, por exemplo, para depois poder aplicar esse mecanismo no cotidiano, no dia-a-dia, nesses momentos de pressão”, recomenda Desnos. Ele conta, ainda, que uma empresa pode ser impactada em pelo menos quatro níveis quando seus funcionários começam a praticar mindfulness:

Uma questão de postura

E o impacto de passar tanto tempo sentado em um escritório, você sabe qual é? Um estudo conduzido pela pesquisadora Teneale McGuckin na James Cook University (Austrália) revelou que quase três quartos das pessoas que trabalham em departamentos, escritórios, salas e recepções têm consciência do quanto a sua saúde pode estar sendo prejudicada pelas horas que passam na cadeira.

A ideia da equipe envolvida na pesquisa é que as empresas considerem incluir alertas para indicar que a pessoa deve se levantar periodicamente, ou até mesmo algum programa que faça o computador parar de funcionar por alguns instantes. Além disso, eles sugeriram que fossem criadas mesas mais altas, para ser possível trabalhar de pé de vez em quando, mas tudo de acordo com as necessidades e preferências de cada empregado ou ambiente.

De acordo com Desnos, a postura deve ser observada constantemente, inclusive porque ela pode estar refletindo o comportamento que temos na vida como um todo. Essa e outras dicas são sugeridas pelo instrutor para serem incluídas no cotidiano do trabalho como pequenas tarefas informais de bem-estar, ou seja, exercícios que não demandam um tempo significativo ou que podem ser feitos em paralelo às suas atividades normais. Confira as três mais importantes:

  • Verificação da postura: tome consciência de sua postura várias vezes por dia. Pergunte-se como está sua postura neste momento e como você se sente estando assim. Feche os olhos, sinta seu corpo. Pode ajustá-lo várias vezes por dia, de acordo com o que sentir que for necessário. Não vai lembrar? Cole um post-it com a palavra POSTURA na tela do computador.
  • Meditação de um minuto: quando você liga seu computador, precisa aguardar um momento até que ele inicie, certo? Aproveite para fechar seus olhos. Respire tranquilamente, preste atenção aos movimentos naturais que surgem no nariz, no peito, na barriga… Caso surja algo, perceba o que é e traga de volta a sua mente para a sua respiração.
  • Almoço com atenção plena: mesmo que tenha que comer no escritório ou na mesa de trabalho, a sugestão de Desnos é que você tire uma pausa desse contexto. Escolha um lugar em que não será interrompido e coma com atenção, experimentando os sabores do alimento na boca, os sons, as texturas, como a comida se move enquanto você a mastiga… Sinta seus aspectos sensoriais.

Além disso, Desnos aconselha que seja criada uma rotina de meditação. Basta eleger um momento, seja qual for, em que você se permite não fazer nada, observando suas sensações corporais, acolhendo os pensamentos e as emoções. Não tem tempo? Cinco minutos é o suficiente, ele afirma. Não tem cinco minutos? Então medite mais ainda, ele adverte.

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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