Revista Mandala
© Ensee.

A realidade precisa de você?

Um breve ensaio sobre “Quando vier a primavera”, de Fernando Pessoa, ilustrado pela arte floral de Mi-Kyung Choi.

Compartilhar

As ilustrações que acompanharão você na leitura deste artigo são da artista coreana Mi-Kyung Choi, também conhecida como Ensee.

Como você lida com a impermanência? A realidade, se desdobrando ininterruptamente, não está ao seu redor. Mais do que composição, estado ou coisa, o que é, quando é, se revela na sutileza do fluxo, na primitividade da interpretação e na inconstância do olhar.

© Ensee.

O poema “Quando vier a primavera” foi escrito por Alberto Caeiro, um dos heterônimos do renomado poeta português Fernando Pessoa. De uma sensibilidade histórica, Pessoa foi também astrólogo e inventor, com um conhecimento da sutileza da vida que se refletia em seus versos.

Diante do chocante encontro com o Nada, os versos de Pessoa convidam para a percepção do Tudo.

Quando Vier a Primavera

 

Quando vier a Primavera, 

Se eu já estiver morto,

As flores florirão da mesma maneira

E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.

A realidade não precisa de mim.

 

Sinto uma alegria enorme

Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

 

Se soubesse que amanhã morria

E a Primavera era depois de amanhã,

Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.

Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?

Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;

E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.

Por isso, se morrer agora, morro contente,

Porque tudo é real e tudo está certo.

 

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.

Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.

Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.

O que for, quando for, é que será o que é.

 

— Alberto Caeiro em Poemas Inconjuntos

Afinal, a realidade como ela é, quando ela é, o que ela é… Nada disso depende do que pensamos que somos. O “eu” tem um papel ínfimo na história da História, por isso o “nós” é protagonista eterno desde o primeiro instante. Quando “eu” se vai, o que fica simplesmente fica. Os mares continuam a gerar ondas e cada animal está em seu lugar quando quer que seja.

© Ensee.

A primavera está se encaminhando.

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

Comentar

Assine nossa news!

Copy Protected by Chetan's WP-Copyprotect.