Revista Mandala

Abate humanitário: a dicotomia soberba de uma indústria indecente

As dúvidas sobre a prática dessa técnica e o descaso que vem com ela só são tão intensos e evidentes porque não é o ser humano está na mira. Pelo menos é o que se pensa.

Compartilhar

Você tem sido tratado com atenção. Ganha muita comida, está rodeado de amigos e, às vezes, até da família. De repente, você se dá conta de que está num caminhão. Um passeio, que delícia! Só as grades apertadas que deixam a viagem um pouco desconfortável, mas tudo bem, com sorte você está sonolento e dorme a maior parte do tempo. Em poucas horas se descobre num corredor. Que lugar é esse? Ninguém sabe dizer. E antes ter a oportunidade de saber, você, o primeiro da fila, é cuidadosamente encaminhado a um lugar onde vai fechar os olhos para nunca mais abri-los. Você está morrendo.

Segundo a indústria pecuária, isso pode ser feito com sensibilidade. É coerente para você?

Trata-se do abate humanitário, uma “técnica” de algumas empresas brasileiras que garantem o bem estar dos animais antes e durante o abate. Mas se você achou a experiência relatada acima assustadora, saiba que ela é para os que têm muita sorte. Na verdade, é possível que nem aconteça. Mesmo que deixando de lado a natureza ética do abate humanitário, seria ele aplicado corretamente?  

Teoria x prática: O desafio de se falar em ética e fiscalização no mercado brasileiro de carne

De acordo com uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (IBOPE) em 2012, 92% da população do Brasil consome carne. Em um país populoso como o nosso, a demanda é enorme, sem falar nos fins de exportação. Por isso, estamos diante de um mercado poderoso e disseminado, grandes empresas com milhares de funcionários encarregados de fazer o pernil e a alcatra chegarem ao prato do consumidor. E até isso acontecer, existe um processo longo e sujo. Criação, tratamento, transporte, abate e distribuição. Ainda que deixando de lado o fato de que os animais serão mortos em algum momento desse percurso, qual a real chance de ele ser realizado de forma humanitária?

Em um artigo publicado no blog Holocausto Animal, o abate humanitário é desconstruído e desmistificado. Técnicas como debicagem e afogamento em câmaras de gás, que não deveriam se encaixar nesse tipo de abate, são ainda utilizadas por muitas empresas. De acordo com o mesmo site, a Aurora, uma das maiores fornecedoras de carne do país, seria uma delas.

Eis um desafio de ordens governamentais. Ao ver de Vania Nunes, técnica e médica veterinária no Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal (FNPDA), precisa-se de uma legislação específica e comprometida. “Nos últimos meses, três acidentes com animais sendo transportados ou levados ao abate chocaram o Brasil. Primeiro, 110 porcas ficaram presas, sem nenhum auxílio por muitas horas, dentro de um caminhão que tombou no Rodoanel. Depois, cerca de cinco mil bois agonizaram e a maioria morreu afogado num porto do Pará. E, ainda no interior paulista, um boi que escapou de um frigorífico da JBS foi perseguido e morto a tiros”, conta Nunes. “acidentes como esses provam a total falta de preparo, controle ou existência de plano de contingenciamento, que deveria ser estabelecido por lei no Brasil, mas não é”.

meat-640716_960_720

Como aponta a veterinária, vivemos em uma sociedade que não vai parar facilmente nem da noite para o dia de consumir carne. Muitos sequer estão cientes do processo de abate e do sofrimento que o envolve independente da forma como é feito. “Precisamos de uma legislação que garanta padrões mandatórios e satisfatórios de bem-estar animal e abate ‘humanitário’ desde o manejo na fazenda, durante o transporte e com a existência obrigatória de um plano de contingência em casos de acidente”, ela afirma.

Para o FNPDA, “definitivamente não existe produção e abate de animais sem sofrimento. No entanto, também somos favoráveis a adoção de práticas que diminuam o sofrimento dos animais criados para consumo enquanto o consumo ainda existir”, conta Nunes. “Estamos falando de dezenas, centenas de milhões de animais e nós simplesmente não podemos ignorar o sofrimento deles, enquanto buscamos conscientizar a sociedade da necessidade da mudança desse hábito por inúmeros argumentos reais sobre todos os impactos deste consumo da proteína animal, desnecessária para alimentação e qualidade de vida humana”.

Viver sem consumir carne é possível

Muitas pessoas têm receio sobre o vegetarianismo por acreditarem que uma dieta sem proteína animal pode colocar a saúde em risco. No entanto, como informa Astrid Pfeiffer, nutricionista e conselheira da Sociedade Vegetariana Brasileira, é perfeitamente possível viver bem sem consumir carne. “A alimentação vegetariana equilibrada oferece todos os nutrientes para o nosso organismo e apenas os veganos devem suplementar com a vitamina B12”, conta a autora do livro premiado A cozinha vegetariana de Astrid Pfeiffer. “Temos muitas opções e variedades gostosas e saudáveis”.

Além disso, várias pessoas atestam por experiência própria os benefícios da dieta vegetariana. Amanda Sereno, estudante, relata que o consumo de carne está ausente de sua vida desde a pré-adolescência, quando parou para refletir sobre as ações da indústria de abate e o sofrimento dos animais. “Comecei a ter pensamentos conflitantes sobre a origem dos produtos que consumia. Além disso, desde muito pequena tenho uma relação de respeito e afeto com os animais”, ela relata. “Foi quando comecei a vincular o pedaço de carne no meu prato ao boi, ao porco e à galinha que os questionamentos surgiram”.

Afinal, como nos sentiríamos se fôssemos o alimento de um ser que julga a si mesmo “superior”? Nunes lembra que não somos os únicos no planeta que sentem dor. “Os animais são seres sencientes e mais que isso, possuem graus de consciência determinados por uma história de evolução biológica de séculos. Entre esses animais, estão incluídos todos aqueles que são usados pela sociedade mundial, em diferentes culturas, como alimento”, ela conta. “Essas informações não são dados aleatórios definidos e apresentados apenas por defensores dos animais, mas informações cientificas de respeitados pesquisadores que têm levado a mudanças das políticas mundiais”.

Se fosse com você, com sua família, com seus amigos, o assunto certamente alcançaria outro nível de debate. As dúvidas sobre a prática dessa técnica e o descaso que vem com ela só são tão intensos e evidentes porque não é o ser humano está na mira. Pelo menos é o que se pensa.

Vale lembrar do fotógrafo brasileiro que produziu um ensaio onde simulou humanos na fila de abate. A Revista Mandala falou sobre o trabalho aqui.

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

Comentar

Assine nossa news!

Copy Protected by Chetan's WP-Copyprotect.