Revista Mandala

Aprovação do casamento homoafetivo na Alemanha e a importância da semana do Orgulho LGBTQ+

Nesta sexta-feira, o Parlamento alemão aprovou plenos direitos no casamento homoafetivo. Mas ainda há muito pela frente e estamos trabalhando nisso.

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Essa foi uma semana especial. Para quem está inserido no movimento LGBTQ+, foram dias de aproveitar a visibilidade que o tema ganhou na mídia para divulgar campanhas e reflexões sobre direitos iguais à comunidade de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transsexuais, transgêrenos, queers e outras orientações de sexualidade e gênero.

E nessa sexta-feira o plenário do Parlamento alemão finalmente aprovou a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Esse tipo de união é permitido na Alemanha desde 2001, mas sem os mesmos direitos que os casais heterossexuais (como o de adotar) e sem igualdade jurídica plena.

Ter o direito de constituir uma família sem estar à margem da lei significa muito para quem sofre com a repressão diária.

Ainda é pouco, só mais um país em um mundo inteiro, um mundo que ainda sofre com o preconceito e onde a hipocrisia se acumula igual poeira nas frestas políticas. Afinal, países também europeus como a Grécia, a Áustria e a Itália ainda não permitem que casais de pessoas do mesmo sexo adotem crianças, por exemplo. A pergunta é: por quê?

Em Istambul, capital da Turquia, é o terceiro ano consecutivo em que a Parada do Orgulho LGBTQ+ é proibida. O Brasil, por sua vez, apesar de relativamente aberto sobre essas questões, é o país que mais mata travestis e transexuais no mundo de acordo com estatísticas de 2016, sem falar que uma pessoa LGBTQ+ morre a cada 25 horas por aqui e duas a cada dez empresas brasileiras se recusam a contratar homossexuais assumidos.

Então, de fato, o débito ainda é muito grande. Mas ter o direito de constituir uma família sem estar à margem da lei significa muito para quem sofre com a repressão diária. Muitos, em muitos lugares, ainda precisam se esconder de si mesmos ou dos outros, muitos ainda têm medo (mesmo nos poucos países onde a homofobia é crime ou passível de punição legal). Amar alguém do mesmo sexo ainda condena muitos à morte em países da África e do Oriente Médio, por exemplo.

Estamos concentrados, nos deixem trabalhar. Estamos ocupados construindo um mundo onde o direito de ser não seja uma esmola.

Por isso, cada passo é uma marcha. É pouco, mas é algo. E algo é muito quando você sente que todos ao seu redor estão julgando você por amar, quando a opressão sufoca, quando o direito de existir se torna a necessidade de resistir. Ser expulso de casa dói, ser visto como algo ruim dói. Ser julgado, punido ou impedido de algo por amar quem você ama dói.

E essa semana a comunidade LGBTQ+ não foi às ruas para falar que sente dor. Pelo contrário: é na dor que a força e a beleza se expandem ao nível máximo da sua potência renovadora. Estamos concentrados, nos deixem trabalhar. Estamos ocupados construindo um mundo onde o direito de ser não seja uma esmola, onde o respeito não seja um presente por causa de uma semana especial.

Todo dia é dia de sobreviver. Ideal seria se semanas do Orgulho LGBTQ+ não fossem necessárias e eu não tivesse que escrever esse tipo de matéria.

“LGB o quê?”: Entenda a sigla

 

Muita água já correu nesse rio. No começo do movimento (e até pouco tempo atrás) a sigla GLS era usada para denominar a comunidade de gays, lésbicas e simpatizantes. Mas, vamos lá, tem gente demais nesse mundo para nos dividirmos apenas em heterossexuais, assexuais e homossexuais.

Na verdade, seria melhor se pudéssemos não nos dividir. No entanto, o ser humano é uma espécie catalogante e costuma respeitar aquilo que catalogou. Muitas pessoas questionam a complexidade do uso de siglas e termos, e eles podem, de fato, ser tão excludentes quanto libertários. Por isso é preciso ter cuidado. O nosso hábito de nos apegar a identidades e conceitos é uma armadilha.

Ao mesmo tempo, é preciso olhar para a questão sob uma ótica prática: a criação de nomes traz a possibilidade de formação de grupos mais estreitos e isso ajuda a definir melhor as necessidades de seus integrantes. Então, trata-se de uniões em prol de causas que outras pessoas não entendem, de dores que outras pessoas não sentem, de necessidades que outras pessoas não têm.

Dito isso, restringir a comunidade LGBTQ+ em gays, lésbicas e simpatizantes é limitante. De qualquer forma, lembre-se: não somos nomes, letras ou símbolos. Você não necessariamente precisa pertencer a um lugar só, ou pertencer a algum lugar afinal. O mundo é mudança, a vida é fluxo e o destino é o amor.

A Revista Mandala apoia o movimento LGBTQ+ e se prontifica, cada vez mais, a contribuir para a construção de um mundo mais bonito. Nós agradecemos a todas as pessoas LGBTQ+ que doaram seu talento e sua presença durante toda a história da humanidade até hoje.

 

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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