Revista Mandala

Arteterapia – Olhando no espelho

A terapia através das artes plásticas se propõe a auxiliar o ser em suas dificuldades de ordem psicomotora, cognitiva, emocional, de comunicação interpessoal e intrapessoal.

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A terapia através das artes plásticas se propõe a auxiliar o ser em suas dificuldades de ordem psicomotora, cognitiva, emocional, de comunicação interpessoal e intrapessoal

Por Talita Nozaki – arteterapeuta – arteterapianoatelier.blogspot.com

Tudo o que fazemos e como reagimos às situações reflete como estamos no momento. Mesmo aquele desenho que a gente rabisca enquanto fala ao telefone – principalmente o com fio, quando você tem que ficar parado no lugar enquanto fala… Lembra disso? – mesmo esse simples rabisco nos diz muito sobre o nosso momento. A maneira como comemos, andamos, tomamos banho, entre outras coisas, vão traduzindo como vai nosso mundo interno. E isso fica ainda mais evidente quando usamos das artes plásticas como ferramenta acompanhados de um arteterapeuta.

Assim, tanto fora como dentro, a arteterapia é um processo que serve de espelho, onde refletimos nosso interior. No entanto, nossa mente é tão maravilhosa que apresenta mecanismos de defesa que nos faz enxergar somente o que podemos processar no momento. É o famoso “estava na ponta do nariz e não vi”… E neste momento da terapia, cabe à sensibilidade e à sabedoria do terapeuta nos questionar a ponto de encontrarmos a resposta por nós mesmos, ou apenas a ponto de sabermos que aquilo existe dentro de nós, como um primeiro passo.

Artes plásticas como terapia? Sim, isso é possível. Pois nossas mãos transformam os materiais, independentemente de conhecermos bem a técnica. Mãos como extensão da mente, do corpo, do espírito. Não é preciso ser artista para se aventurar na arteterapia. O mais importante do processo é observar o que nós conseguimos expressar, como nos sentimos durante o ato criativo e os pensamentos que vieram.

E este ato criador nos traz vida à medida que colocamos conteúdos para fora de forma tão concreta, que muitas vezes não caberiam em palavras. Com isso, a consciência se expande e passamos a saber um pouco mais de nós. Ao observar a obra concluída, é como se ficássemos de fora, como uma terceira pessoa. Isso facilita emocionalmente encarar a questão. Traz um distanciamento que permite muitas fichas caírem. E é incrível observar como temos as respostas dentro de nós mesmos!

A proposta de cada encontro é direcionada ao que a pessoa deseja trabalhar em si, aos possíveis conflitos por quais estejam passando, ou dores que estejam sentindo. Cada técnica tem uma função, cada material tem algo a nos ensinar. A dureza das pedras, o calor do fogo, a linha que tece uma história, o algodão que mostra sua maciez, a água fluida que não tem controle, o barro que se molda ao calor das mãos, a mandala com seu centro e seu equilíbrio. Cada dia, uma experiência. O início do trabalho geralmente é uma sensibilização, que pode ser uma música e sua letra, uma história, contos de fada, um vídeo, imagens, danças, movimentos bioenergéticos, visualizações guiadas, entre tantas outras possibilidades.

E depois da criação, de expandir a consciência, de ter a catarse, vem o alívio e o encontro caminha para o encerramento, em que as reflexões vêm como uma maneira de colocar os pés no chão novamente e voltar para o cotidiano, mas agora com algo a mais. É claro que cada profissional tem sua maneira de trabalhar, mas basicamente o processo passa por esta direção.

Quem dá o ritmo da terapia é a capacidade que a pessoa tem de se entregar. Além da coragem de se ver, da vontade de se transformar, e da afinidade com o profissional. A mesma técnica, que uns levam um encontro para fazer, outros levam três. É tudo muito pessoal e único. O tempo do tratamento também é relativo: depende de como cada um responde. Algumas vezes crescemos pelo amor, mas na maioria das vezes, esse crescimento vem pela dor. E cada ser humano tem seu tempo para sentir, processar, amenizar, aprender a lidar, aceitar, reequilibrar e…. evoluir.

Encontro a encontro, o processo da arteterapia provoca mudanças, até mesmo no caso em que palavras não são tão usadas, como acontece com pessoas mais reservadas, ou com as crianças pequenas. Dessa forma, esta terapia pode ser feita por crianças, adolescentes, adultos e idosos, individualmente ou em grupo, por pessoas com deficiência mental ou física, com as devidas adaptações.

Utilizei a terceira pessoa para descrever o tratamento da arteterapia, pois também já passei por ele. Nada melhor do que estar no lugar do paciente/cliente para viver o processo criativo e compreender a profundidade dele. Tanto em mim como nas pessoas que atendi, pude observar mudanças profundas. Mudanças que impulsionam o profissional a continuar em frente, mesmo diante do pouco conhecimento que a população tem sobre esta ferramenta transformadora.

Recentemente, no Brasil, a arteterapia foi reconhecida como profissão no Código Brasileiro de Ocupações (CBO). Mas ela vem sendo desenvolvida desde 1876, quando psiquiatras e criminalistas, entre eles, Max Simon, começaram a usar a arte como diagnóstico de doenças mentais. Ou ainda, se pensarmos em termos de arte como recurso humano de expressão, podemos nos remeter ao tempo das cavernas.

Colaborador

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