Revista Mandala

As descobertas de Yoshinori Ohsumi podem mudar a forma como se tratam as doenças

Ele acaba de ser condecorado com o Prêmio Nobel de Medicina. A pesquisa que ele desenvolveu? Pode salvar sua vida.

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Na semana passada, a Fundação Nobel divulgou os vencedores do prêmio internacional, que são escolhidos anualmente em vista de suas pesquisas e descobertas nos campos científico e cultural. O primeiro vencedor foi o japonês Yoshinori Ohsumi, de 71 anos, que identificou os genes responsáveis pela reciclagem das células a partir de sua pesquisa em autofagia e recebeu o prêmio na área da Medicina.

Aqui no Brasil, passamos por dois momentos especiais. O primeiro é o Outubro Rosa, um mês de campanha em prol da conscientização sobre o diagnóstico do câncer de mama; e o segundo é a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, que começa hoje e é desenvolvida por institutos tecnológicos e federais de todo o país como forma de incentivo à pesquisa e aos projetos científicos. Por isso, as descobertas de Yoshinori Ohsumi são tão oportunas: elas revelaram possíveis soluções no combate ao câncer e envolveram uma série de ações e anos de pesquisa.

Veja a seguir por que elas são importantes para a saúde e como podem mudar a vida de muitas pessoas daqui para a frente.

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nobelO texto abaixo é uma tradução de 2016 Nobel Prize Winner Yoshinori Ohsumi’s Discoveries Could Change How We Treat Disease, escrito por Anna Almendrala e publicado originalmente no site The Huffington Post.

 

O cientista japonês Yoshinori Ohsumi, 71, ganhou o Prêmio Nobel na segunda-feira por sua pesquisa no campo da autofagia – um processo de reciclagem metabólica na qual as células se alimentam de partes de si mesmas para sobreviverem e se manterem saudáveis.

Seu trabalho inicial começou em 1992, com foco nos genes por trás do processo de autofagia em células de levedo. Autofagia, no entanto, tem relação com várias doenças humanas, incluindo câncer, doenças neurodegenerativas, doenças infecciosas e diabetes. Agora, medicamentos que podem direcionar o processo estão no primeiro estágio de testes, com ensaios clínicos em seres humanos, o que pode basicamente mudar tudo, desde a maneira como tratamos demências à forma como erradicamos tumores cancerosos.

A autofagia é um acontecimento normal da vida útil de uma célula. As células individuais podem “comer” partes de si mesmas, especialmente as antigas ou danificadas, e reciclar o material para ajudar a manter-se saudável. Pense nisso como a reciclagem: por expelir os danos ou pela morte das partes danificadas dentro da célula, ela tem um novo recurso a partir do qual consegue se reparar e manter-se em funcionamento.

A autofagia ajuda a solucionar danos regulares e desgastes nas células, mas também desempenha um papel maior, de combate a infecções bacterianas ou virais até a diferenciação em células no desenvolvimento embrionário. Como observa o site do Prêmio Nobel, um processo de autofagia disfuncional também tem sido associada à diabetes Tipo 2 e outras doenças genéticas. Em particular, ela pode desempenhar um papel importante em dois tipos distintos de doenças que são difíceis de tratar e cuja origem é ainda misteriosa: câncer e doenças neurodegenerativas.

Como autofagia afeta doenças cerebrais

Quando a autofagia começa a desacelerar ou para de funcionar corretamente, a célula já não pode destruir as suas proteínas anormais, estruturas celulares velhas e germes invasores. Atualmente, não está claro se um processo de autofagia disfuncional leva à doença, ou se a doença tem alguma outra causa que leva à interrupção da autofagia. O distúrbio neurodegenerativo do Mal de Parkinson é um bom exemplo: ele é caracterizada pela presença de corpos de Lewy – pacotes anormais de proteína, espalhados por todo o cérebro.

Os cientistas ligaram processos de autofagia disfuncionais ao acúmulo de corpos de Lewy. Jay Debnath, professor de patologia da Universidade da Califórnia, em San Francisco, que está usando as descobertas de Ohsumi para desenvolver tratamentos contra o câncer de mama, explicou que a doença poderia estar acontecendo porque as células do cérebro pararam de “comer” as proteínas anormais.

Do mesma forma, as placas amilóides, um outro tipo de proteína prejudicial, podem também acumular-se quando o processo de autofagia é interrompido. Os investigadores suspeitam que placas amilóides são causadoras do Mal de Alzheimer.

Fazendo com que o processo de autofagia volte a acontecer em pessoas com doenças neurodegenerativas, é possível retardar ou parar a acumulação destes crescimentos de proteínas nocivas ao cérebro.

Debnath diz que a segmentação da autofagia com o objetivo de melhorar seu funcionamento pode-se tratar doenças neurodegenerativas, como o Mal de Parkinson ou de Alzheimer.

Como autofagia, na verdade, ajuda as células cancerígenas a crescerem

Um processo de autofagia em mau funcionamento pode estar ligado à doença, mas os pesquisadores também estão estudando se o oposto pode ser verdade – ou seja, quando a autofagia é muito eficiente, ela poderia ajudar as células cancerígenas a crescerem e se espalharem. A autofagia acontecendo de forma acelerada permite que as células tumorais cresçam e se regenerem mais rápido que o normal. Encontrar terapias que podem retardar ou deter este processo pode ser fundamental para ajudar os tratamentos de câncer tradicionais como a quimioterapia, que mata células cancerígenas de forma mais eficaz.

“Em células cancerígenas, um dos pensamentos é que você quer transformar o processo de fora para dentro, para fazer com que as células cancerígenas se tornem muito mais suscetíveis a morrer durante a quimioterapia ou outros tipos de terapia”, explicou Debnath.

Ele tem estudado o processo de autofagia em células do câncer desde 2005. O que ele está tentando ver é se é possível retardar ou parar o processo de autofagia em células cancerígenas para que se conduzam terapias de câncer mais eficazes, e também está estudando os efeitos potencialmente prejudiciais de se interromper por completo a autofagia nas células saudáveis.

Especificamente, Debnath está investigando se, interrompendo o processo de autofagia, é possível deter a progressão do câncer da mama.

Vários ensaios clínicos em fase inicial estão procurando saber se terapias para retardar ou parar o processo de autofagia podem otimizar os tratamentos de quimioterapia ou radioterapia e fazê-los matar células cancerígenas com mais eficiência. Impedindo os esforços das células cancerígenas de se renovarem e se regenerarem, consequentemente as terapias de câncer tradicionais têm mais chances de destruí-las.

Por outro lado, terapias de reativação do processo de autofagia podem ajudar as células a limpar as proteínas tóxicas que estão inibindo sua função. Por exemplo, na fase 1, as pessoas com Mal de Parkinson e demência com corpos de Lewy que receberam uma dose pequena, diária, de um medicamento para leucemia aprovado pela FDA que promove a autofagia, experimentam evolução das habilidades motoras e melhor cognição ao longo de seis meses.

As descobertas de Ohsumi no campo da autofagia iluminam um caminho nos estudos do processo celular que os cientistas haviam percorrido há décadas, mas não compreenderam no que diz respeito à sua importância para a saúde fisiológica e seu potencial para o tratamento de certas doenças. Depois de receber a notícia de sua vitória no Prêmio Nobel em Tóquio, na segunda de manhã, Ohsumi convidou cientistas mais jovens a se juntar a ele em sua busca para continuar aprendendo mais sobre a autofagia, informa a AP.

“Não há limite para a ciência. Quando eu encontro uma resposta para uma pergunta, outra pergunta vem à tona. Eu nunca cheguei a pensar que havia resolvido todas as questões “, disse Ohsumi. “Então eu tenho que continuar a fazendo perguntas para o levedo.”

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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