Revista Mandala
Foto: Reprodução

As vaquejadas têm muito a dizer sobre quem as promove

E há algo muito errado acontecendo quando o governo de um país chama um evento desses de patrimônio.

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Em outubro, defensores dos animais de todo o Brasil receberam uma notícia para comemorar: o Supremo Tribunal Federal vetou a promoção de vaquejadas no país em decorrência do sofrimento ao qual os animais envolvidos são expostos na realização do evento.  No entanto, menos de dois meses depois, Michel Temer reconheceu a mesma prática como patrimônio cultural imaterial do Brasil.

Você deve ter ficado confuso e, principalmente, preocupado com os animais.

A Revista Mandala também ficou. Por isso, conversamos sobre essa situação com a médica veterinária Drª. Vania Plaza Nunes, diretora técnica do Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal. Como ela explica, essas decisões e contra-decisões governamentais são as evidências de um jogo legislativo com um único objetivo: lucrar. E, se possível, à custa dos animais, não importa o quanto eles sofram no zoológico, nos parques e nas arenas.

Vania conta os rodeios e as vaquejadas são eventos extremamente lucrativos para quem os promove. Não é do interesse político e econômico, segundo ela, apoiar apenas a produção cultural legítima, como o artesanato no nordeste, quando o comércio animal e a indústria do entretenimento geram tanto dinheiro. O público financia com o dinheiro, mas quem realmente está pagando por esse assombro são os animais.

Ela explica ainda, porém, que para algo ser culturalmente reconhecido deve haver o cumprimento de regras internacionais específicas, um processo administrado cuidadosamente pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). Além disso, “o que foi aprovado através das manobras legislativas e também pelo executivo de forma alguma está sendo aceito pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), que é o órgão nacional que se encarrega de cumprir todo o processo para reconhecimento cultural de qualquer prática no país”, Vania conta.

pexels-photoNa reveladora entrevista a seguir, ela apresenta detalhadamente seu ponto de vista, os argumentos contra a realização de eventos como vaquejadas e rodeios e o que a forma como o ser humano se relaciona com os demais animais tem a dizer sobre ele mesmo. Confira:

vaniaRevista Mandala: Qual o seu posicionamento diante desse cenário de consumo de animais pela indústria do entretenimento, seja em vaquejadas, circos ou zoológicos? Como você acredita que isso dificulta o bem-estar e a qualidade de vida de animais, mesmo que não sejam exóticos?

Drª. Vania Plza Nunes: É necessário se questionar se na a sociedade atual, em pleno século XXI, ainda precisamos, podemos e devemos aceitar essas práticas chamadas de entretenimento com o uso de animais. Será que temos essa necessidade do exibicionismo de humanos dominando animais, será que toda evolução do conhecimento e o acesso à tecnologia em centenas de atividades de lazer e entretenimento sem o uso de animais já não são suficientes para nossa diversão e lazer?

A vida humana evolui segundo padrões estabelecidos pelos próprios humanos, e uma das  áreas de evolução mais importante está na necessidade de se investir em mudanças da sociedade que busquem o equilíbrio, a inclusão, a minimização do dano e o entendimento da necessidade de se viver de forma a não causar sofrimento no outro. Não importa se o outro é humano ou não humano.

É necessário se questionar se na a sociedade atual, em pleno século XXI, ainda precisamos, podemos e devemos aceitar essas práticas chamadas de entretenimento com o uso de animais.

O conhecimento atual da ciência já traz o entendimento. Os vertebrados, mamíferos, são animais que possuem estruturas mentais idênticas ou muito semelhantes a dos humanos, que nos dão toda a certeza de que são capazes de vivenciar assim como nós uma série de sentimentos, sensações e vivências mentais. Têm capacidade cognitiva para prever situações que irão vivenciar, boas e ruins. Têm noção de si mesmos, sem falar em evidências claramente observáveis até por pessoas leigas dos sentimentos que estão sendo experimentados pelos animais em diferentes situações a que eles são submetidos.

Será que temos essa necessidade do exibicionismo?

pexels-photo-167992Existem muitos trabalhos de cientistas reconhecidamente competentes sobre isso, não apenas no exterior, mas também no Brasil. Um dos maiores avanços que podemos observar tem sido trazido à ciência geral e à sociedade pela ciência do Bem-Estar Animal (BEA), uma forma única e inovadora de entender os animais que nos dá inúmeras e esclarecedoras respostas de quão bem pode estar ou não um animal em determinadas situações, entre elas nas práticas do entretenimento.

Na ciência do Bem-Estar Animal, reconhecida por pesquisadores da área em diferentes países, inclui-se o estudo de situações que submetem os animais a baixo grau de bem-estar, ao sofrimento, angústia, tristeza, desesperança, adoecimento físico e mental, além do risco da morte.

Claro que, além disso, a ocorrência de lesões evidentes nos animais é algo perceptível e observável, mas o BEA nos mostra que além do que vemos e reconhecemos como efeitos lesivos ou causadores de maus tratos físicos evidentes, de problemas comportamentais e mentais, são também observados indicadores de baixo grau ou ausência de BEA nos animais alvo dessas práticas.

africa-animals-zoo-zebrasVemos, portanto, que a manutenção de práticas claramente condenáveis pelo conhecimento científico que já temos e também pelo senso comum precisa ser aplicada para as mudanças sociais na nossa relação com os animais. Não podemos mais aceitar que o entretenimento humano esteja pautado nos interesses de alguns poucos que querem justificar o uso de animais por apresentarem interesses econômicos e gostos questionáveis e desnecessários.

Precisamos entender o que de fato está por trás disso, quais são, na verdade, os interesses desses indivíduos que se mantêm explorando esses animais. Que argumentos usam? Será que de fato são reais?

A manutenção de práticas claramente condenáveis pelo conhecimento científico que já temos e também pelo senso comum precisa ser aplicada para as mudanças sociais na nossa relação com os animais.

Em novembro, no início do mês, o Supremo Tribunal Federal vetou a realização de vaquejadas no país por conta dos maus tratos sofridos pelos animais envolvidos nesse tipo de evento. No final do mês, no entanto, Michel Temer reconheceu as vaquejadas como patrimônio cultural imaterial. Nessa história toda, o que os animais passam à mercê dessas decisões e contra-decisões dos seres humanos?

Muitos empresários que possuem em práticas como a vaquejada ou o rodeio uma fonte de lucro estão no poder legislativo, seja na Câmara dos Deputados, seja no Senado. Estamos estamos vivendo um momento bem ruim na história dos poderes constituídos no país. Eles, os poderes gestores, deveriam equilibrar a nossa sociedade, possibilitar o debate ético e respeitoso, real, dos interesses envolvidos e da necessidade de práticas como as vaquejadas. Ao ser proibido o reconhecimento pretenso da lei cearense, de uma prática como a vaquejada como algo cultural, isso deveria ser respeitado pois o embasamento e argumentação para tal são muito consistentes do ponto de vista ético, legal, e não se buscar manter a qualquer custo práticas claramente lesivas aos animais, neste caso bovinos e equinos.

Muitos empresários que possuem em práticas como a vaquejada ou o rodeio uma fonte de lucro estão no poder legislativo, seja na Câmara dos Deputados, seja no Senado.

Os interessados em manter essas práticas querem seus interesses mantidos a qualquer custo, pois para eles os animais são apenas instrumentos para alcançar o enriquecimento cada vez maior, deles mesmos ou de empresários do setor. Além disso, esses indivíduos querem, ao impor seus interesses questionáveis, vender e alimentar um sonho para algumas pessoas sem acesso à educação, sem acesso a uma vida mais digna: a falácia do sonho do enriquecimento a troco do domínio dos animais.

pexels-photo-209288A proposta de tornar a vaquejada e o rodeio manifestações da cultura nacional correu muito rapidamente no Senado. Foram sete meses desde a criação da proposta até sua total aprovação. O que você pensa sobre esse cenário?

Agora vemos votações e aprovações de leis e PECs em tempo recorde, mas nada muda a decisão já tomada, ou seja, o que foi determinado na decisão julgada se mantém. O sofrimento e os maus tratos não vão deixar de existir por uma manobra legislativa. Dor e sofrimento não se alteram pela aprovação destas peças legislativas. Esses são sentimentos que os animais vão continuar experimentando, uma vez que as regras que são estabelecidas para realização dessas práticas com os bovinos e equinos não dependem das vivências negativas que elas causam.

Espantoso que o presidente, professor de Direito Constitucional, tenha uma visão tão equivocada da Constituição, da forma como ela foi feita para preservar e proteger o que é mais vulnerável, a vida. É uma pena essa decisão tendenciosa e questionável que ele tomou, pois mostra que ele não respeita de fato aquilo que deveria ser a regra máxima a pautar suas decisões na condução do país. Isso mantém os animais expostos a todo tipo de sofrimento, e o que é pior: cria uma oportunidade para que a sociedade fique confusa a respeito do que deveria ou não acontecer.

As regras que são estabelecidas para realização dessas práticas com os bovinos e equinos não dependem das vivências negativas que elas causam.

 

Quais são as experiência mais negativas a que bois e vacas estão sujeito ao serem deliberadamente utilizados em vaquejadas e rodeios? O que há de óbvio nesse sofrimento que pessoas pró-vaquejadas parecem simplesmente ignorar, colocando seu entretenimento à frente da vida?

A sociedade, em sua ampla maioria, é contra essas práticas. Nos locais onde elas ocorrem, inclusive. No momento das provas (de rodeio e vaquejadas), o público é sempre pequeno e a grande movimentação se dá na hora dos shows de cantores populares. As festas podem ser mantidas, como tem acontecido em muitos locais. No estado de São Paulo, por exemplo. Muitos locais onde os rodeios estão proibidos, shows tem substituído todo o evento com muito sucesso, grande público, venda de produtos diversos e lucro aos promotores.

pexels-photo-38878No caso das vaquejadas, existe muito incentivo por parte dos promotores, além de comércio de cavalos. Os bovinos utilizados são de localidades próximas, a curta ou média distância, que vivem em pastos para abate futuro. Essas atividades comerciais precisam ser avaliadas com cuidado.

Os animais apresentam múltiplos danos, como arrancamento da porção final da cauda e da pele, exposição de parte da coluna vertebral, fraturas dos membros, costelas, luxações, rupturas musculares, entorses, rupturas de vísceras, quadros de hemorragias e comprometimento neurológico diverso, tanto motor osteo-muscular como para o funcionamento de vísceras de diferentes órgãos, como os digestórios, urinários e reprodutivos.

Sofrem inúmeros traumas, não apenas físicos (como cortes, ferimentos e contusões), mas também mentais, de angústia, pânico, dor. E esses traumas não são alvo de qualquer cuidado ou prevenção, até porque muitas das lesões que acabam ocorrendo por expor o animal às regras do eventos fazem parte dessas próprias regras.

Tudo isso mostra exatamente qual é, de fato, o valor que interessa a quem promove essas práticas.

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Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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