Revista Mandala

As viagens espirituais de Yasha Hollack

Ao nascer, na Alemanha, ela recebeu o nome das irmãs falecidas durante a Segunda Guerra Mundial, o que a privou de sua própria identidade corpórea. Por isso, viajou pelo universo (literalmente) durante toda a infância. Quando adulta, viajando pela Terra, ela se entregou ao serviço divino e é no sul de Minas Gerais onde agora compartilha o que seu Mestre lhe ensina. Você pode pensar que Yasha Hollack é viajante, mas ela é a própria viagem.

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Ao nascer, na Alemanha, ela recebeu o nome das irmãs falecidas durante a Segunda Guerra Mundial, o que a privou de sua própria identidade corpórea. Por isso, viajou pelo universo (literalmente) durante toda a infância. Quando adulta, viajando pela Terra, ela se entregou ao serviço divino e é no sul de Minas Gerais onde agora compartilha o que seu Mestre lhe ensina. Você pode pensar que Yasha Hollack é viajante, mas ela é a própria viagem.

“Onde se começa uma vida?”, ela se indaga. Apesar da pergunta, a tarefa de falar sobre sua trajetória não parece difícil para Manuela Dagmar Hollack Rezende. Pelo contrário “eu estou gostando dessa coisa de poder falar, todos os meus diários eu escrevi a mão”. Nascida em 13 de setembro de 1953, Yasha, como costuma ser chamada, é alemã de Munique. É também casada e dona de um retiro ecumênico no sul de Minas. Tem duas filhas, 62 anos e olhos convidativos e intimidadores que eu nunca esqueci.

Ao pé da letra, contudo, é provável que Yasha não tenha nada e nada tenha Yasha. Desde jovem ela tem consciência do estado impermanente das configurações. E, desde jovem também, experimenta doses inspiradoras de luz e de escuridão. Toda a sua vida foi influenciada por um evento anterior ao seu nascimento: Manuela e Dagmar, duas irmãs que ela não conheceu, morreram durante a Segunda Guerra Mundial. Mesmo depois de terminada a guerra e amenizada a dor, a mãe de Yasha deu à nova filha os nomes das duas que perdera. Na esperança de substituí-las depositou sobre Manuela Dagmar uma carga que dizia quem ela tinha que ser o o que ela viera fazer nessa vida. Por isso, a jovem Yasha foi privada de pertencer ao seu próprio corpo. “Eu ficava vagando nessa dimensão desde pequenininha, de bebê até os sete anos de idade. Quando deitava pra dormir, eu caía pra fora do corpo, em todo tipo de dimensões e realidades. E isso foi muito, muito assustador”.

Foi também o que a deixou muito sozinha durante algum tempo. Essa capacidade de viajar pelo universo, além de assustadora, possibilitou a Yasha o alcance precoce de uma consciência menos terrena. “Desde pequena eu não consegui tomar a sério o que as pessoas exigem de si aqui. Estudar, trabalhar, ganhar dinheiro, crescer na vida… Eu nunca consegui seguir isso porque eu tinha visto os outros lados, as outras realidades. Eu vi que a felicidade era impossível ganhar nessa vida a não ser que eu percebesse que ela já está dentro de mim”. E justamente por cultivar a felicidade dentro de si, Yasha acabou se afastando e sendo afastada das pessoas durante a adolescência. Das duas uma: quando não a julgavam esquisita por defender abertamente a existência de outras vidas e declarar que o tempo é apenas uma realidade para esse corpo, as pessoas não conseguiam lidar com a intensidade com que ela sentia o amor. Yasha amava todos. Homem, mulher, criança… todo mundo. E por isso estava irradiada de felicidade por dentro e se sentia bem inclusive na solidão, que foi a sua parceira durante muito tempo. Afinal, ela era sempre considerada estranha demais ou afetuosa demais para se conviver.

Quando um pouco mais velha, vieram os primeiros relacionamentos amorosos de Yasha e seus desejos ficaram mais ligados a esse mundo. Ela decidiu negar e esquecer sua capacidade de viajar pelo universo, atentando-se ao mundo em que vivia para que as pessoas parassem de achar que ela era louca. Resolveu ser como todo mundo. Casou-se com um brasileiro, jogador da seleção brasileira de basquete que conheceu durante as olimpíadas de 1972 em Munique, e com ele teve Natascha, sua primeira filha. Por ser muito bonita, todos diziam que devia ser modelo. Então ela se tornou modelo. Fez até trabalhos como atriz ainda na Alemanha. No entanto, nunca se ligou a nada disso realmente. Segundo ela, sua felicidade estava ligada apenas ao seu coração, não às coisas de fora. “Mas o dinheiro foi bom”, ela conta. “Com ele pude comprar meus desejos”. Ela pagou por viagens, por um dog alemão, um macaco e até uma cobra. Yasha se distraía enquanto esperava voltar para sua verdadeira casa, que ela não acreditava ser nesse mundo. “Eu achava que a minha vida aqui podia ser só um passatempo”.

“Mas não é bem assim, não”, acrescenta.

Certo dia, de repente, veio a ela uma percepção muito forte sobre sua relação com o Divino, o qual ela chamava de Deus: Ele nunca havia se apresentado a ela. “De fato, eu sempre estava fazendo um monólogo com a presença e existência em si do Divino, a luz que é cheia de um amor que é indescritível”. Yasha estava sozinha em casa, o marido e a filha viajando, e nesse dia ela decidiu rezar para o Alto. Humildemente, pediu que Ele se apresentasse. Afinal, era Ele o criador dela e de toda essa ilusão que é o mundo. E pediu também que ele a guiasse de volta para seu verdadeiro lar.

Nada aconteceu. E Yasha ficou enfurecida. “Fiquei tão irada, mas tão irada por não ter sido tratada como filha por Deus que deitei e falei ‘olha, eu não preciso ficar aqui nesse corpo pra tentar ter um marido, um namorado, um carro, uma casa, dinheiro, fama, um filho e depois outro’”, ela conta.

Yasha já era feliz. Ela acreditava que não era necessário continuar na experiência terrena. Queria ir embora dessa dimensão onde o Divino não se apresentava. Foi quando, como não acontecia havia muitos anos, Yasha novamente saiu de seu corpo. Segundo ela, numa velocidade extraordinária. Viu coisas que prefere não descrever. “Entrei em pânico. A radiação era forte demais, quase perdi minha vida, esse corpo”. E lá estava o Divino. Ele perguntou porque ela estava berrando tanto pelo universo e o que ela queria d’Ele, ao que Yasha respondeu: “eu quero ser como você”. Ele falou: “Tudo bem. Você paga o preço?”. “Pago qualquer preço”, Yasha disse. E o que recebeu de seu Mestre foi: “Muito bem. Amanhã você deixa tudo que você chama de seu”.

yasha
O Retiro Tao Tien se localiza no sul de Minas Gerais , a 1.300m metros de altitude da cidade de Extrema.

O começo da verdadeira jornada

Foi o que Yasha fez. Seu marido voltou de viagem, mas ela o abandonou em seguida. Perdeu filha, casa, riqueza. “Abandonei tudo, me entreguei”. E ela conta que com o passar do tempo tudo o que deixara para trás lhe foi sendo devolvido, mas sem sua interferência. “Aprendi que para você experimentar o Divino é muito importante entregar o seu controle”, diz.

Abrir mão de um roteiro de vida e seguir seu Mestre proporcionou um êxtase imenso a Yasha durante muito tempo. Ela não se importava com os xingamentos dos seus sogros, com a reprovação dos seus pais, com a revolta do marido. Após sua determinante escolha de abandonar tudo, o mundo externo se tornou um inferno. O Mestre de Yasha disse a ela: “eu vou lhe mostrar o que vocês, humanos, chamam de amor”. Ele estava se referindo ao seu primeiro marido, que, após ser abandonado, tirou dela casa, filha, dinheiro e tudo o que pôde com sua revolta. Mas, dentro de seu coração, Yasha experimentava o céu. “E no meio dos dois mundos eu tentava sobreviver”, ela conta. “Assim começou meu caminho”.

Yasha não demorou a se casar novamente, dessa vez com Márcio, que conheceu em 1980. Quando ela contou sobre sua experiência mística com seu Mestre, Márcio revelou ter tido também um lama aos 19 anos que lhe dissera que ele conheceria uma mulher e que ela o levaria ao seu verdadeiro Senhor. Então, Yasha e Márcio se sentaram para meditar e o Mestre surgiu aos dois ao mesmo tempo e falou: “Estão finalmente juntos. Agora podemos começar?”. Yasha ri ao contar sobre essa aparição e diz “eu não tive muita escolha, né?”.

O impacto da presença física do Mestre, no entanto, arriscaria a vida dela e de Márcio, por isso Ele os acompanhou durante muito tempo apenas pela voz. “A voz d’Ele me guiou e eu aprendi tudo que eu sei sobre o caminho pra iluminação, se é que tem um caminho, e sobre o ser em si que Ele é. Nunca aprendi isso em outro lugar. Não em livros, não em cursos. Então esse é meu caminho espiritual, ouvir, obedecer e me entregar. E é o que eu faço agora já faz 36 anos: O sigo até me dissolver totalmente dentro d’Ele”.
Os ensinamentos do Mestre e o surgimento do Tao Tien

Yasha viveu na California durante três anos, período em que teve Natascha, sua primeira filha. Depois morou na Itália, na Inglaterra e também na Índia. No Brasil, foi mãe pela segunda vez em 1981, dessa vez de Tiffani. Quando começou a aprender mais profundamente com seu Mestre começou também a atrair muitas pessoas para o seu redor. Elas lhe perguntavam sobre seu aprendizado e a opinião do Mestre sobre isso e aquilo. Certa vez, levaram até ela uma menina muito doente que se curou em uma semana, o que fez com que a sua casa em Cotia, região metropolitana de São Paulo, ficasse mais cheia dia após dia. Yasha vivia com as duas filhas e Márcio. Ela não estava preparada para isso, queria apenas se unir com o Mestre. De repente, não podia mais sequer dar atenção para Natascha e Tiffani porque atender às pessoas se tornou quase uma profissão. “Minha casa ficava cheia de manhã até de noite. Foi quando eu disse que não aguentava mais viver daquele jeito. Eu perguntei ao Pai se tinha como eu viver em retiro e Ele respondeu que eu iria viver em Toledo”. Yasha logo descartou essa possiblidade, acreditando que seu mestre estava se referindo à cidade espanhola, a qual ela achava muito populosa. Mas Ele não disse mais nada.

Alguns eventos curiosos aconteceram a partir de então. Primeiro, a rua onde Yasha morava em Cotia mudou de nome e se tornou Rua Toledo. Depois, sua mãe comprou um terreno em Pedro Toledo. Um dia, um rapaz que frequentava sua casa lhe contou sobre a venda de um terreno em Minas Gerais, próximo a uma cidadezinha chamada Toledo. “Dito e feito”, conta Yasha. “Viemos ver isso daqui e o preço era muito baixo porque só tinha pedra, aqui não tinha nada”.

Assim nasceu o que Yasha chama de “primeiro Tao Tien”, que na época chamava Portão do Céu. Lá, ela e sua família viveram praticamente uma vida monástica, sem energia elétrica durante 17 anos. As pessoas continuaram a aparecer, ainda que muitos na comunidade local a achassem austera pelo seu estilo de vida. Na época, Yasha costumava ficar sozinha no Tao Tien porque Márcio trabalhava em São Paulo. Durante um tempo, inclusive, Márcio e Tiffani viveram em um barco e ela permaneceu lá, já recebendo retirantes. Amigos que frequentavam sua casa em São Paulo também a visitavam, mas muitos deles ficaram chateados com sua partida e não quiseram mais falar com ela. “Lição número um”, ela aconselha, “não se deve ter apego e não se deve gerar apego nos outros”.

Após um tempo, Yasha resolveu se separar dos sócios e fundou o Tao Tien num dos lados do terreno. Esse nome, que surgiu a ela num acesso espiritual, significa “caminho do céu” ou “alto do céu” em chinês, muito embora ela não fale esse idioma e não soubesse desse significado quando batizou o retiro. Lá, ela abre espaço para aqueles que querem se retirar. O lugar possui casa de hóspedes, cozinha comunitária e templo com cinco altares, e se localiza numa montanha a 1.300m de altitude entre as cidades de Vargem, Extrema e Toledo (a primeira no estado de São Paulo e as duas últimas em Minas Gerais).

Yasha viajou quatro meses em uma peregrinação rumo à Mongólia. O percurso trouxe dificuldades e alegrias das quais elas jamais se esquecerá.

Peregrinação a Altai, na Mongólia

“A entrega é testada sempre. Ver a luz não é garantia de que você consegue manter essa energia”, diz Yasha. Ela enfrentou, em suas palavras, infernos e sofrimentos que testaram a sua crença. Um exemplo disso foi quando realizou, em 2000, o que ela chama de a viagem da sua vida: uma estreita peregrinação à Mongólia.

Yasha tinha muito desejo de se retirar em seu Mestre, algo que o Tao Tien a impedia de fazer. Sempre que o retiro enchia de hóspedes, ela sentia vontade de fugir. Além disso, queria um mestre físico que não precisasse chamar de “mestre espiritual”, já que para a maioria das pessoas a ideia de se relacionar pessoalmente com o Divino não faz sentido. “Mas meu Mestre é meu amado e só eu vejo e só eu escuto. É assim a minha vida, O obedeço e tenho devoção. Tudo o que eu quero é a união com Ele, de corpo e alma. Então eu precisava fazer muitos retiros pra ficar sozinha com Ele”. Segundo Yasha, Ele não tem forma e não é um espírito. Portanto, não corresponde a nenhuma configuração humana.

Um dia, portanto, Ele lhe disse: “Se tanto você quer quem lhe ensine as coisas no mundo físico vá para a fonte do rio amarelo”. Yasha interpretou o “rio” amarelo como o “povo” amarelo, que vive em Altai, na Mongólia, destino de uma peregrinação extremamente arriscada que durou quatro meses num velho motorhome e na companhia de Márcio, de uma de suas filhas e de dois alunos seus. Eles foram assaltados pela máfia na Rússia, fugiram dela e da polícia ((que Yasha conta serem a mesma coisa) na Ucrânia e atravessaram toda a Sibéria antes de finalmente pisarem em Altai. “Mas eu sou tão grata por ter feito isso e ter tido a loucura de obedecer ao meu amado… Quando chegamos, eu deitei no chão e chorei como uma criança. A felicidade era tanta que eu podia morrer naquele momento. Não entendi quando levantei e vi que ainda estava viva, que eu tinha que continuar”, ela conta, achando engraçado.

Yasha e Márcio ficaram mais nove meses na Mongólia, hospedados em um mosteiro, e passaram pelo pior inverno que o país já havia tido. Ela estava plenamente realizada. À noite, tinha pesadelos onde se via tendo que voltar para o Brasil. “Eu acho que minha alma mora na Mongólia”, confessa.

Depois, ela realizou outros retiros. Passou dois meses no deserto de Atacama, sozinha em um trailer, onde quase morreu por não ter se alimentado o bastante. Além disso, se retirou durante 106 dias de inverno no Cabo do Norte, Noruega, experiência que ela conta ter sido muito forte por causa da escuridão constante e absoluta. “E assim o meu caminho vai, de retiro em retiro, e de resto eu sirvo a Ele”.

Atualmente, Yasha coordena o Tao Tien com a ajuda de amigos e Márcio, com quem é casada há 36 anos. Lá, ela está sempre amadurecendo, adquirindo o verdadeiro conhecimento, aquele que não se encontra pronto em livros e escolas, que não está no manual, não aparece na televisão e ninguém jamais pode descrever em palavras ou outros artifícios desse mundo. “Passando o ensinamento do meu Mestre para as pessoas quem mais aproveitou fui eu”, ela conta. E assim está sua vida que não é, pois nada é e tudo está.

Mas como se começa uma vida?

Ela mesma desvenda sua própria questão: “A vida é um fluxo sem começo nem fim, é existência em si, então qualquer coisa que a gente conta sobre a vida é sempre um pedacinho que a gente fala do ambiente onde esse rio passa. Mas jamais a gente consegue falar sobre esse rio em si”.

Edmar Borges

Um latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, graduando em Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto e vindo do interior de Minas Gerais. Você também me encontra no Obvious Lounge e no Medium Brasil.

comentário

  • Que legal saber a história dela! Yasha me pareceu muito especial desde que a conheci no CEBB em Viamão com sua filha Natasha, visitando Tiffany . Foi como se já as tivesse conhecido antes. Estive no Tao Tien e me encantei. As experiências de Yasha, o lugar e a energia especial e agora, o espaço de Arte da Tiffany e Ahanti, me tocam profundamente. Uma história fantástica, uma pessoa maravilhosa que só podia ter uma família maravilhosa também. Gracias pelo texto

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