Revista Mandala
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Comerciante lembra de seus sonhos desde a infância e os retrata em quadros

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Desde criança, ele lembra com detalhes de três a quatro sonhos que têm todas as noites. Então, em meados de 1999, Orteniz Pazzini, sem ter qualquer conhecimento de artes plásticas, vai até o porão de sua casa, pega pedaços de madeira e tinta que encontra pela frente e começa a registrar em imagens os mistérios e aventuras de seus sonhos. As obras, ao mesmo tempo belas e intrigantes, estariam guardadas até hoje se não fosse a intervenção da filha e da cunhada do empresário, que resolveram compartilhar com outras pessoas as histórias vivenciadas fora do corpo durante muitos anos. A fim de conhecer o seu trabalho, a Revista Mandala conversou com Pazzini durante o coquetel de lançamento da exposição de seus quadros intitulada “Visões”, que segue aberta ao público até o dia 30 de junho no SENAC, em Curitiba.

O que despertou em você o interesse em retratar seus sonhos?

Simplesmente tive vontade. Eu gosto mesmo é de fazer grafite, então na época comecei a rabiscar, a pintar, até que um dia simplesmente tive vontade de pintar algumas cenas dos sonhos. Peguei umas placas e madeiras que eu tinha no porão e comecei a pintar. Eu sonho bastante e esses sonhos são praticamente reais. Lembro de, no mínimo, três ou quatro a cada noite, então tem alguns que eu consigo representar, porém a parte mais feia eu não coloco, pois tenho uns sonhos meio pesados… Eu procuro passar do meu jeito aquilo que sonho.

Você sempre lembrou dos seus sonhos?

Sempre, desde criança. Tenho sonhos tão reais que preciso sair do quarto por causa do cheiro. Eu sempre sinto o cheiro do local onde estou nos sonhos, então às vezes saio do quarto porque é muito forte. Pode ser até coisa da minha cabeça, mas parece que aquele cheiro está ali…

Seus quadros retratam muitas pessoas. O que acontece nos sonhos?

Geralmente estou andando e vou a lugares diferentes, a lugares estranhos, porém sempre tem uma pessoa comigo. Sei que é uma mulher que está sempre do meu lado direito, mas nunca vi o seu rosto. Eu confio tanto nela… ela conversa comigo, dá algumas dicas e me orienta para onde tenho que ir.

Você tem alguma religião?

Eu sou cristão, mas acho que isso não interfere nos sonhos. Certa vez tive um sonho pesado, então fiz o sinal da cruz e riram da minha cara.

Quem riu de você?

Foi no sonho mesmo. Quando fiz o sinal da cruz, uma pessoa que me confrontava riu da minha cara (risos). O sinal da cruz não fez efeito nenhum naquele lugar…

Algum tipo de sonho se repete?

Sim, muitos sonhos se repetem. Eu vou ao mesmo tipo de lugar frequentemente, que me dizem que é um tal de umbral. Eu tenho contato com as pessoas, mas muitas não me aceitam lá. Geralmente eu vejo crianças… sei que essas pessoas precisam de alguma coisa, mas não compreendo muito bem. Nas primeiras vezes eu ficava preocupado com aquele tipo de sonhos, mas com o tempo me acostumei.

E você é capaz de escolher para onde ir durante os sonhos?

A mulher que me acompanha é quem me orienta para onde devo ir. Eu sei onde estou, mas não sei como chego. O difícil às vezes é sair de lá. É preciso pensar, analisar e ver como vou fazer para sair. Tem que ter força de vontade.

E como é esse retorno?

Sabe, quando estou voltando me sinto levitando. Há muitas passagens que parecem um portal e essa pessoa que está do meu lado diz “vamos que vai fechar”. É uma pressão danada, às vezes acordo até suado (risos). A parte mais difícil é retornar do sonho, pois eu volto para o corpo e não consigo me mexer. Isso acontece frequentemente. Levo uma meia hora talvez até conseguir voltar.

Em muitos quadros você retratou monges. O que eles representam?

Os locais onde estão os monges geralmente são lugares de passagem. Tem lugares que são tranquilos, como esses locais onde estão os monges, mas não é ali que vou. Apenas passo por ali e vejo eles meditando.

O que marca você nesses sonhos?

Me marca o que vejo lá (umbral), pois tem muito sofrimento, sem falar no cheiro… Geralmente os lugares para onde vou não são bons não. É ali que eu ando e que acho que seja o tal do umbral.

As pessoas que surgem nos sonhos interagem com você?

Sim, sim… geralmente estou em uma batalha com alguém.

Uma batalha física?

Sim, são batalhas físicas mesmo… há luta. Na maior parte dos locais tem uma liderança e é esse chefe quem briga comigo, porém não lembro de ter perdido até hoje (risos).

Você disse que frequentemente vai para um local que seria um tipo de umbral. É sempre o mesmo lugar?

Os locais mudam, mas são sempre do mesmo tipo. Nesses locais o que muda são as personagens. Há lugares que parecem que mudaram muito, parece que evoluíram com o tempo. Não sei se sou eu que estou mudando ou se são as pessoas daquele local que evoluíram…

Que tipo de técnica você utiliza para pintar?

Não sei nada de técnica, de mistura de cores… não tenho a perspectiva que as pessoas têm. Geralmente jogo a parte menos interessante pra trás e trago para a frente o que é mais interessante. Tem coisas que eu não coloco na pintura, pois eu talvez não queira lembrar daquilo.

Hoje você utiliza telas ou continua pintando no que encontra em casa?

Eu pego o que aparece para pintar, como pedaços de madeira. Chego em casa e vou para o porão pintar.

Você encontra pessoas conhecidas nos sonhos?

Tive um sonho que foi interessantíssimo com minha família. Eu fui em um local que estavam todos os familiares, desde os antigos. Os mortos estavam todos ali, inclusive parentes que eu não conhecia eu fiquei conhecendo lá. Apenas uma tia que havia morrido há seis meses não estava lá… Era interessante, pois era uma sala grande e os mais antigos estavam de um lado, em um sala separada.. Até o tipo de vestimenta era de outro tempo. Estavam meu avô, irmão do pai… todo mundo. Nós nos abraçamos, eles eram eram pessoas fortes, pareciam até douradas, sabe… Fiquei muito tempo conversando com eles. Quando eu era muito pequeno, um tio que eu não conheci foi assassinado e nesse sonho veio se apresentar! A cabeça da gente vai longe, né? (risos). Minha tataravó também estava lá, ela sim eu conheci quando era criança. O que me chamou a atenção foi uma pessoa sentada ao lado da porta, uma pessoa magra, com as mãos unidas. Quando fui sair da sala dei a mão para aquela pessoa, peguei naquela mão fina e fria… era tão fina que parecia que tinha só dois dedos.

Você conhecia essa pessoa?

Não, eu não a reconhecia, era uma pessoa estranha. Desde o começo, quando entrei na sala, ela chamava minha atenção. A hora que eu toquei a mão dela tive um choque…

O que essas experiências trazem para sua vida aqui fora?

Elas não me afetam, porém me faz pensar muito nas coisas, fico contemplando o sofrimento. Às vezes fico dias pensando no que aconteceu.

 

Maiana Antunes

Fundadora, jornalista e editora da Revista Mandala.

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