Revista Mandala

Como as Constelações Familiares atuam na dissolução de conflitos

Abordagem desenvolvida pelo psicoterapeuta alemão Bert Hellinger mostra como as experiências passadas interferem na saúde e nos relacionamentos.

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Ao lado da porta que dá acesso à ampla sala de piso em tom amadeirado e paredes brancas enfeitadas por quadros coloridos, um cesto com diversos chinelos indica que naquele ambiente não é permitido entrar com os calçados que vieram da rua. Toda a energia mais densa fica do lado de fora, na recepção, junto com os sapatos que carregam a pressa e a ansiedade do dia que passou.

São sete horas da noite e os participantes, a maioria mulheres, vão se acomodando nas cadeiras brancas distribuídas em um semicírculo. À frente, duas cadeiras serão ocupadas pela consteladora e por um participante que, nos próximos minutos, passará a ver o desatar do nó de alguma situação problemática em sua vida. Dali onde está sentado, ele poderá observar as interações de seus familiares ou colegas de trabalho representados pelas pessoas ali presentes, que não conhecem quem estarão representando.

Diferentes pessoas representam diferentes papeis durante uma constelação. Elas agem de forma integrada, de acordo com os movimentos que vão surgindo.

Para quem assiste de fora, a constelação parece um teatro improvisado, porém não é nada disso. Os participantes vivem intensas emoções ao representar pessoas reais das quais não sabem os nomes e, muito menos, conhecem a sua história. Eles se movem pela sala em um impulso natural, sentindo e agindo como a pessoa desconhecida.

Entretanto, a informação que chega ao representante não se limita ao indivíduo e nem ao tempo e espaço. “No momento em que você levanta como representante a sua pessoa ficou, a sua análise, a sua crítica; o representante precisa ter uma habilidade de se esvaziar e vai ficar receptivo. Ele não está mais dentro do próprio sistema, está dentro de um outro campo de informação”, explica a psicóloga Tereza Brandão, que é consteladora sistêmica em Curitiba, no Paraná.

Processo de ressonância

Pode-se dizer que há uma dinâmica invisível das interpretações e, nesse contexto, surgem espontaneamente diferentes sensações e percepções nos participantes. “A informação pode ser uma imagem, uma sensação física, um insight, uma inspiração. Às vezes é uma palavra, uma sensação de ‘vai por aqui’ e essa informação surge, na verdade, porque você se coloca na atitude propícia”, revela Tereza que, desde a década de 1990, acompanha Hellinger em suas vindas ao Brasil e fez sua primeira formação internacional com o psicoterapeuta em 2006, em Sevilha.

No campo científico, o método de Bert Hellinger tem ressonância com o trabalho do biólogo inglês Rupert Sheldrake, autor da teoria dos campos morfogenéticos, que são estruturas não-físicas que levam informações através do tempo e do espaço e influenciam o comportamento de sistemas organizados.

Família não é só pai, mãe e filhos. A família é um sistema ao longo do tempo, um sistema transgeracional.

Segundo Tereza, nós temos a capacidade de acessar o campo do outro e, durante a constelação, conseguimos distinguir se a informação que estamos recebendo é nossa ou de outra pessoa. “Nós somos como antenas, então essa é uma qualidade, uma habilidade de acessar informações, de uma percepção elevada e diferenciada”, diz.

Reorganizando o sistema

As constelações familiares são guiadas por três princípios básicos que Hellinger denomina  “as ordens do amor”: a necessidade de pertencimento, o equilíbrio entre o dar e o receber e a hierarquia. Hellinger diz que todos pertencemos a uma alma familiar e que nossos vínculos atravessam além do tempo e do espaço, o que significa que todos os relacionamentos que tivemos, por mais efêmeros que tenham sido, podem influenciar diferentes aspectos da nossa vida.

Uma mulher que tem dificuldade de se relacionar com homens, por exemplo, pode ter esse problema originado em algum fato que tenha ocorrido com seus ancestrais, mesmo que o desconheça. “Família não é só pai, mãe e filhos. A família é um sistema ao longo do tempo, um sistema transgeracional. Você está no presente, mas (durante a constelação) também tem ali todos os tempos e história das gerações”, esclarece Tereza.

Através de movimentos e diálogos dos representantes, a consteladora ajuda o cliente a compreender o que acontece no seu sistema e, a partir de então, passa a reorganizá-lo para que tudo vá para o seu devido lugar. “Os problemas surgem quando a pessoa está descolada de seu lugar e, no que se refere ao lugar, é  a diferença entre saúde e doença. O trabalho sistêmico encurta muito o caminho entre saúde e doença”, ressalta.

A constelação pode trazer à tona a origem de fobias, de dores, de desentendimentos entre tantos outros desafios de quem busca resolver questões desconfortáveis em pouco tempo, pois a partir do momento em que o indivíduo está sendo trabalhado o seu sistema começa a se reorganizar. Os efeitos das constelação podem atuar rapidamente ou, em alguns casos, por até dois anos após o trabalho inicial.

Empoderamento

Relacionamentos entre familiares podem ser o tema de uma constelação, revelando aspectos até então ocultos que reconectam gerações em um processo natural de alinhamento.

O trabalho da constelação sistêmica busca aproximar o indivíduo de sua essência, por isso, “mesmo que ele chegue com um tema pronto para constelar, este tema pode mudar na hora, pois ele se liberta do racional”, coloca a psicóloga. Os participantes podem constelar qualquer tema que permeia sua vida, de distúrbios físicos e psicológicos até relacionamentos e carreira profissional.

Não há um tempo exato de duração de cada constelação, entretanto, são realizadas várias sessões na mesma noite e, aquele que constelou um tema seu, também participa das constelações dos demais. Para a funcionária pública Maria Rocio, que participa de constelações sistêmicas há cerca de seis anos, esse tipo de terapia permite nos desprendermos de julgamentos. “Com a constelação aprendo a respeitar o outro e posso ajudar as pessoas. Você se livra do racional e consegue fazer algo que seu corpo está pedindo”, conta.

De acordo com Tereza, o trabalho que surge através da constelação empodera a pessoa, provoca um autoconhecimento natural e a transformação. “Eu acredito nas mudanças e nas possibilidades. Eu sei que o ser humano floresce porque eu tenho visto isso todos os dias. Ele pode sair de uma situação difícil e viver um vida bonita, com integridade e realização”, diz.

Maiana Antunes

Fundadora, jornalista e editora da Revista Mandala.

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