Revista Mandala

Você conhece a realidade dos refugiados no Brasil?

Fugindo da perseguição em seus países, eles procuram agora escapar do desemprego.

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“Não sabemos o que é ter de deixar para trás nossas crianças em prantos, ou nossas mães segurando forte as nossas mãos antes de partirmos, ou chegar em um lugar – com a roupa do corpo – onde não temos ideia da língua e muito menos de como seremos recebidos.

Estou Refugiado

Não, provavelmente não sabemos como é isso. Mas as pessoas refugiadas, que não tiveram outra opção senão abandonar o lar para manter a vida, sabem muito bem. O refúgio ao qual elas recorrem é uma proteção legal oferecida a estrangeiros que sofrem perseguição em seus países de origem, seja por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas.

No Brasil, o número de refugiados cresceu 127% nos últimos seis anos. As solicitações de refúgio foram de 966, em 2010, para 28.670 no ano passado. São quase 9.000 pessoas que fugiram de seus país e residem atualmente aqui, dentre elas sírios, angolanos, colombianos, congolenses, libaneses, iraquianos, liberianos, paquistaneses e de outras 71 nacionalidades. Todos esses dados foram levantados pelo Comitê Nacional para Refugiados (Conare) do Ministério da Justiça e caminham para uma dúvida cruel: tem lugar pra todo mundo?

Lugar, tem. Mas a estrutura do mercado de trabalho brasileira, por exemplo, já deixa a desejar para quem sempre esteve aqui. Imagina para quem chegou de repente e carrega um estigma de foragido, incapaz e sem história? É preciso banir esse estigma.

(Foto: Estou Refugiado/Reprodução)
(Foto: Estou Refugiado/Reprodução)
(Foto: Estou Refugiado/Reprodução)

Refugiados têm motivo, talento e história

Ninguém escapa do preconceito. Todos os dias, em todos os lugares, estamos sendo analisados por nossas roupas, etnias, origens, ideias. E o julgamento se torna de fato um inconveniente quando seus efeitos atingem diretamente o bem-estar, a qualidade de vida, o direito de igualdade de tratamento. Imagine ser impedido de exercer uma função, de conquistar um emprego, de se relacionar com certas pessoas ao seu redor por causa de uma discriminação, um estigma. Uma palavra: refugiado.

Em São Paulo, o projeto Estou Refugiado atua fazendo a intermediação entre pessoas refugiadas e oportunidades de emprego no Brasil. Para demonstrar o preconceito com uma simples palavra e toda a sua bagagem social, eles desenvolveram um vídeo para a campanha que antecedeu a criação oficial do projeto em si. Luciana Maltchick Garcia, uma das idealizadoras do Estou Refugiado, chama a produção de um “experimento social” e conta que as descobertas advindas dele incentivaram-na a transformar uma simples campanha publicitária em um projeto premiado.

alphonse
Por participar de um movimento estudantil, Alphonse começou a ser perseguido na República Democrática do Congo, onde os efeitos de uma longa e destruidora guerra civil se prolongam há quase vinte anos. Ele teve que abandonar todos que conhecia para recomeçar sua vida do outro lado do Oceano Atlântico, em São Paulo.

No vídeo, conhecemos Alphonse, de 29 anos, formado em Letras, técnico em mecatrônica, que fala cinco idiomas e, o mais importante, está solteiro. Por isso, ele faz um perfil no Tinder, aplicativo de relacionamentos, detalhando em seu perfil que é um estrangeiro. Depois de uma semana, Alphonse tem mais de trinta combinações.

Então, ele faz uma pequena alteração. Apenas uma palavra. Nada demais. Uma palavrinha.

Uma semana depois, veja o que aconteceu:

“Acho que a palavra ‘refugiado’ afastou as pessoas”, conclui Alphonse.

Luciana compartilha da mesma opinião. Ela reconhece a forte carga que a palavra “refugiado” traz consigo e lamenta a discriminação que a envolve, reforçando a sua iniciativa de produzir o vídeo para que não haja dúvidas sobre o preconceito que ela denuncia.

Como ela conta, as pessoas se refugiam no Brasil tentando encontrar um novo recomeço para suas vidas, se afastando da opressão, do regime político, da cultura ou da falta de direitos humanos em seus países de origem, para o qual nunca mais poderão voltar. “São muitas histórias de tristeza e desamparo”, Luciana conta, depois de dois anos acompanhando os caminhos dos refugiados que o projeto conseguiu ajudar. De acordo com ela, ficar longe da família é uma das maiores dificuldades. Essas pessoas sentem vontade de recomeçar e o Brasil acaba sendo um lugar onde isso é possível, um país com uma tradição de acolhimento e facilidades legislativas para a permanência de estrangeiros.

Mas não é tão simples.

“Para chegar no Brasil e começar de fato uma vida digna, (as pessoas refugiadas) vão ter que ter trabalho, pagar pra morar, pagar pra comer”, Luciana adverte. E é aí que o seu projeto e de muitos outros colaboradores faz a diferença na vida de quem veio sem nada e não tem mais para onde ir.

 

Do lado de quem está refugiado

O projeto Estou Refugiado começou há dois anos a partir da campanha que você conheceu acima, quando Luciana e uma colega começaram a notar um grande envolvimento na internet com qualquer história de refugiado. Elas perceberam também uma falta de empatia por parte de alguns brasileiros, que se manifestavam contra os refugiados em dizerem como “volta”, “vai embora” e “não vem roubar meu emprego”. Foi aí que elas resolveram intervir com o experimento social de Alphonse.

“Mas a gente achou um pouco vazio fazer só uma campanha publicitária, a gente queria ir além”, ela conta. “Então a ideia foi também conversar com um grupo grande refugiados, entrevistá-los, saber das história deles, por que eles estão no Brasil, o que eles faziam antes, o que gostariam, o que seria melhor para eles”.

Após o lançamento do vídeo, Luciana conta, alegre, que começaram a surgir várias ofertas de emprego para os refugiados no site do projeto. Por isso, a equipe envolvida passou a assumir a responsabilidade total pela intermediações, antes feitas também por ONGs parceiras. “Foi ali onde começamos de fato a fazer a ponte entre a oportunidade e o refugiado que precisa de trabalho”, ela relata.

Mamie teve que fugir com toda a sua família porque seu marido trabalhava em uma ONG que denunciou o extermínio de adolescentes envolvidos com drogas (Foto: Estou Refugiado/Reprodução)
Mamie teve que fugir com toda a sua família porque seu marido trabalhava em uma ONG que denunciou o extermínio de adolescentes envolvidos com drogas (Foto: Estou Refugiado/Reprodução)

Mas como funciona, exatamente?

No site do projeto, você pode acessar os perfis das pessoas que procuram uma oportunidade de emprego e conhecer melhor suas qualificações. Caso desenvolva interesse por um candidato em potencial, basta entrar em contato com a equipe do projeto. Luciana exemplifica o sucesso da iniciativa com o caso de uma agência que tinha uma vaga na área de arte e a preencheu com um rapaz refugiado no Brasil que diariamente vendia seus quadros na Praça da República, em São Paulo, sem nenhum ganho recorrente para seu sustento até então.

Para Luciana, poder realizar esse trabalho de transformação traz satisfação, embora ela confesse se sentir ainda muito pequena diante de tudo. Além disso, existem desafios em se lançar contra a maré para que a vida de outras pessoas se torne mais fácil. “Eu queria ajudar mais, continuar dando oportunidades”, ela diz. “Mas eu precisaria de mais estrutura para isso”.

Então, se você quer e pode ajudar o Estou Refugiado ou outras iniciativas de apoio social, acesse aqui. Mas lembre-se: o primeiro passo é a desconstrução do estigma, olhar para as histórias. Essa atitude pode começar na forma como você interpreta uma simples palavra.

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Apesar de haver uma série de medidas diplomáticas e de apoio aos migrantes no governo brasileiro, como o programa de vistos especiais para os afetados do conflito sírio, ainda existem muitas dificuldades no processo de regularização dos documentos de refugiados. Para encontrar assistência, procure um dos Centros de Referência e Acolhimento de Migrantes e Refugiados (CRAI) em São Paulo. 

Além disso, o Instituto Nacional de Ações e Terapia Assistida por Animais (Inataa) também desenvolve ações voltadas para a qualidade de vida das pessoas que encontraram refúgio no nosso país. Conheça o projeto Melhor Amigo do Refugiado aqui.

Precisa de mais informações? Acesse a Central de Atendimento ao refugiado e esclareça suas dúvidas.

 

Edmar Borges

Um latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, graduando em Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto e vindo do interior de Minas Gerais. Você também me encontra no Obvious Lounge e no Medium Brasil.

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