Revista Mandala
O engenheiro Teddy Lalande (ao microfone) tem mais de 15 anos de experiência na área da sustentabilidade e de atuação em Environment, Health and Safety (Foto: Edmar Borges/Revista Mandala)

Como eliminar o desperdício no percurso dos alimentos entre o campo e a cidade?

Esta foi uma das pautas do Seminário Embalagem e Sustentabilidade, que debateu os impactos sociais e ambientais de produção e consumo no Brasil.

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O Seminário Embalagem e Sustentabilidade que aconteceu nos dias 16 e 17 de agosto reuniu uma série de profissionais de áreas da indústria, da engenharia e do design para debater o impacto da produção de embalagens na saúde do planeta.

Na tarde do primeiro dia do evento, os painéis “Projeto de Embalagens Sustentáveis” e “Reciclagem de Embalagens” debateram questões sociais, como a necessidade de desconstruir a perspectiva romantizada do catador de lixo urbano, questões administrativas, como as leis ambientais no Brasil e a distribuição do dinheiro voltado para projetos de sustentabilidade, e também a relação entre causa e efeito do lixo que é produzido no mundo.

À esquerda: Vinício Bruni, da Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Paraná, fala sobre os processos de coleta do lixo urbano no painel “Reciclagem de Embalagens” e alerta que “quem gera o lixo somos nós, não podemos colocar essa culpa em ninguém. Somos nós que temos que pagar por isso” (Foto: Edmar Borges/Revista Mandala)

De acordo com o coordenador do encontro, Rômulo Viel, o seminário surgiu quando percebeu-se que havia a necessidade de debater como embalagem e sustentabilidade conversam nos meios industrial e acadêmico. “A ideia do evento é justamente discutir esses temas, trazendo pontos específicos dessa relação para que especialistas debatam e para que essas opiniões sejam expostas no seminário e que a gente possa, a partir daí, trazer essa informação para a sociedade de forma que ela possa refletir e se questionar também”, relata ele.

Um dos principais nomes presentes no evento, Teddy Lalande, gerente de sustentabilidade da fornecedora global de embalagens Bemis, conversou com a Revista Mandala sobre o papel da embalagem na cadeia de impacto ao meio ambiente.

Teddy Lalande no painel “Projeto de Embalagens Sustentáveis” fala aos participantes sobre a importância de se pensar em sustentabilidade do momento de idealização do produto até o pós-consumo (Foto: Edmar Borges/Revista Mandala)

De acordo com o engenheiro, que é mestre pela Universidade de Clemso, nos Estados Unidos, e pela Universidade de São Paulo (USP), o foco do debate deveria ser a otimização da logística que leva o alimento do campo para a cidade, onde está a maioria das pessoas. “As embalagens alimentícias representam 70% de todas as embalagens primárias“, ele informa. “Como podemos levar os alimentos para a cidade de forma menos impactante o possível? Como vamos distribuir, preservando o alimento sem perdas nem desperdício?”.

Como conta o engenheiro, que atua há mais de 15 anos em gestão de meio ambiente, saúde ocupacional e segurança do trabalho, as embalagens existem desde a pré-história, quando povos do Período Neolítico guardavam cereais dentro de ânforas, emblemáticos vasos gregos de duas alças laterais. “Como você vai conseguir levar os alimentos para as pessoas sem as embalagens?”, ele questiona, e acrescenta: “Não dá”.

Participantes, realizadores e palestrantes do Seminário Embalagem e Sustentabilidade (Foto: Edmar Borges/Revista Mandala)

Para Teddy Lalande, o foco precisa estar na eliminação do desperdício, tanto das embalagens quanto dos alimentos. “O custo do desperdício dos alimentos, tanto econômico quanto ambiental, é tremendo“, ele diz. “Quando se joga uma alface fora, se está jogando petróleo e muita água fora. Carne, então, nem se fala. E hoje esse sistema é muito ineficiente, se desperdiça muito”.

Atualmente, como explica o palestrante, as perdas acontecem em todas as etapas da distribuição dos alimentos, desde o transporte, do varejo até a casa do consumidor. Por isso, ele acredita que “o desafio, em termos de meio ambiente e também o desafio social, é otimizar essa logística, garantindo o acesso a produtos saudáveis com o mínimo de impacto possível”.

Participantes assistem ao painel “Projeto de embalagens sustentáveis”, que reuniu Marcos Iorio, da empresa Avery Dennison, Teddy Lalande e Claudio Sampaio, doutor em Design pela Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa (Foto: Edmar Borges/Revista Mandala)

Outro debate levantado no encontro questionou a “reciclagem artificial”. Muitas empresas, em decorrência de campanhas de marketing e com o crescimento da pauta da sustentabilidade, têm anunciado que seus produtos são feitos a partir de material reciclado, por exemplo. Para os profissionais, isso tem um péssimo impacto ambiental e social, pois engana a população.

De acordo com Claudio Sampaio, doutor em Design pela Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa e um dos profissionais presentes no primeiro painel da tarde que quarta-feira, há muito o que ser discutido no que diz respeito à relação entre sustentabilidade, design e valorização humana. “É preciso pensar em sistemas que tragam dignidade para as pessoas”, afirma ele.

Claudio Sampaio (à direita) fala sobre o que ele chamou de “design cínico” ao mencionar o exemplo de um projeto que foi premiado por redesenhar um carrinho de coleta para um catador de lixo (Foto: Edmar Borges/Revista Mandala)

Ao abordar a ideia de que os catadores de lixo estão realizando um trabalho que os dignifica, o designer aponta que o mais correto não seria salvar as pessoas da sua situação social, mas possibilitar que elas não precisem ser salvas. Para ele, extinguir profissões que desperdiçam o potencial humano e não trazem dignidade, substituindo-as pelas funções inteligentes que um ser humano é capaz de exercer, seria a melhor solução.

O Seminário Embalagem e Sustentabilidade foi realizado pela Universidade Livre do Meio Ambiente (UNILIVRE). Confira mais imagens da tarde do primeiro dia do evento:

(Da esq. para a dir.) Jorge Magno Borges, da UNILIVRE; Danielli Mazza, ativista e participante do evento; Marcos Coloma, da Rede Paranaense de Metrologia; Giuliano Gonzalez, da Rede Paranaense de Metrologia; Cassio Luís Rossi, participante do evento; Anderson Sakuma, palestrante do Evento; e Rômulo Viel, da UNILIVRE e Coordenador do seminário. O Diretor Super-Intendente da UNILIVRE, Celso Romero Kloss, também é um dos idealizadores do evento.
Jorge Magno Borges e Rômulo Viel, organizadores e idealizadores do Seminário Embalagem e Sustentabilidade realizado pela Universidade Libre do Meio Ambiente, em Curitiba (Foto: Edmar Borges/Revista Mandala)
Participantes assistem ao painel “Projeto de embalagens sustentáveis”, que teve início às 14h na Casa de Evento da Federação de Indústrias do Estado do Paraná – Fiep (Foto: Edmar Borges/Revista Mandala)
Claudio Sampaio, da Universidade de Lisboa, e Rômulo, idealizador do Seminário Embalagem e Sustentabilidade (Foto: Edmar Borges/Revista Mandala)
De acordo com Anderson Samuka, da Geo Energética, praticamente todo tipo de material pode ser trabalhado no sentido de reduzir o desperdício (Foto: Edmar Borges/Revista Mandala)

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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