Revista Mandala
(Foto: Edmar Borges)

Como o ego prega peças até mesmo quando você faz o bem

O que você espera quando ajuda os outros?

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É preciso oferecer ao outro. Oferecer de verdade, sem se inserir num espaço de recompensa ou identidades. Oferecer a sua ajuda, o seu tempo, a sua presença. Fala-se muito sobre a necessidade de se abrir a quem está próximo e se colocar à disposição de suas necessidades. Claro que temos nossas próprias necessidades, mas às vezes elas clamam tão alto pela nossa atenção que não conseguimos ouvir as do outro. A Comunicação Não Violenta, por exemplo, aborda a importância de se atentar para este que está do lado. Afinal, até mesmo quando se age em prol de outra pessoa ou de uma causa, na verdade você pode estar agindo em prol de si mesmo. Então, fica a pergunta: do que o outro precisa? Do que precisamos todos nós?

E o que temos a oferecer?

“O que sentimos é igual ao outro, tanto na dor quanto na felicidade”, Sonia Redi observa. Ela é psicóloga e técnica terapêutica oriental. Além disso, coordena a realização do Te Ofereço Paz, um evento anual que acontece em São José dos Campos, interior de São Paulo, e cuja proposta é reunir pessoas em atividades que estimulam o senso de união e alteridade. “Qualquer desequilíbrio prejudica qualquer um de nós. Mas, também, qualquer momento de alegria levanta o outro”.

Quando o ego brinca com nossa ideia de coletividade

A humanidade como grupo social não pode ser vista como uma unidade quando entendemos que os efeitos desse campo (econômico, político, cultural) não recaem igualmente sobre todas as pessoas. No entanto, efeitos comportamentais e climáticos, por outro lado, reverberam cuidadosamente em cada representante da espécie no planeta, seja a curto ou longo prazo.

A ação pelo outro e a ação em nome do nosso ego podem se confundir. (Foto: Edmar Borges)
A ação pelo outro e a ação em nome do nosso ego podem se confundir. (Foto: Edmar Borges)

No livro O Despertar de uma Nova Consciência, o escritor alemão Eckhart Tolle fala sobre os compromissos coletivos e individuais e sua relação com o ego, que, segundo sua abordagem, seria o responsável pela desunião entre os humanos por gerar sentimentos que buscam compensações pessoais fora de uma realidade de coexistência. “Medo, cobiça e desejo de poder são as forças motivadoras psicológicas que estão por trás não só dos conflitos armados e da violência envolvendo países, tribos, religiões e ideologias, mas também do desentendimento incessante nos relacionamentos pessoais”, ele escreve. “Elas produzem uma distorção na percepção que temos dos outros e de nós mesmos. Por meio delas, interpretamos erroneamente todas as situações, o que nos leva a adotar uma ação equivocada para nos livrarmos do medo e satisfazermos nossa necessidade interior de alcançar mais, um poço sem fundo que nunca pode ser preenchido”.

Sob esse olhar, podemos observar as conjunturas ideológicas que as pessoas tomam para si. Há uma relação profunda dessa observação com as identidades e, consequentemente, com o ego. Em especial este ano, países como o Brasil têm se envolvido em crises e conflitos de ordem política que ganham as pautas na mídia, nas escolas e até nas mesas do jantar. Mas do estamos falando? Do que nos une ou do que nos segmenta?

Isso tem muito a dizer sobre o comportamento individual e seus efeitos na corrente do todo.

Medo, cobiça e desejo de poder são as forças motivadoras psicológicas que estão por trás não só dos conflitos armados.

“Até que ponto é difícil viver consigo mesmo?”, Eckhart questiona em seu livro. “Uma das maneiras pelas quais o ego tenta escapar da insatisfação que tem em relação a si próprio é ampliando e fortalecendo sua percepção do eu. Ele faz isso identificando-se com um grupo, que pode ser um país, um partido político, uma empresa, uma instituição, uma seita, um clube, uma turma, um time de futebol, etc.”

Para o escritor e conferencista, o ego, que é pessoal, pode ser totalmente dissolvido a partir do momento em que a pessoa se dedica a trabalhos que exigem abnegação. Em prol de uma recompensa coletiva e que não pede enaltecimento, ele acredita que é possível se libertar desse “eu”, algo que ele chama de “carga incômoda”.

Para Sonia, não é importante focar no que falta ou no que não está funcionando. “Apesar disso naturalmente aparecer”, ela constata. “Pois o ego gosta de se nutrir de insatisfações e criticas. Quando entramos num nível de consciência maior, de repente o olhar muda e vemos que o que sentimos é igual ao outro. Vemos também que tudo passa, tantos os momentos dramáticos quando felizes”.

É preciso oferecer de verdade

Sonia, que também é mestre Reiki, acredita na evolução coletiva e não perde a esperança. Ela conta que vive diariamente esse caminho de crescimento, seja no seu consultório ou nos curso de Reiki, onde percebe uma evolução coletiva acontecer, algo que se apressa rumo a mais humanidade, solidariedade, amorosidade e compreensão. E a mudança vem de cada um de nós. “De repente conseguimos perdoar o outro, se colocar no lugar dele e entender melhor o que está passando, sorrir para próximo, dar a mão, oferecer uma palavra amiga de reconforto”, ela diz. “De repente, frente a tantas injustiças e confusão, consigo ver pessoas que se importam com o outro, saem da sua zona de conforto e fazem a diferença”.

connected-1327191_1280Deacordo com Eckhart, em seu livro, o ego coletivo seria criado em detrimento de uma insatisfação de grupo que, por sua vez, procurar saciar-se na base de um ciclo de identidades. Ele adverte para o perigo nesse processo, pois é cíclico, temporário, advém de uma multidão egóica. Atenta, portanto, para a capacidade de alguns grupos de cometerem atos que, analisados individualmente, seriam assustadores. E comenta que só é possível a criação de um coletivo livre dessas armadilhas quando houver o surgimento ativo de uma nova percepção sobre o mundo e as pessoas.

De repente, frente a tantas injustiças e confusão, consigo ver pessoas que se importam com o outro, saem da sua zona de conforto e fazem a diferença.

“À medida que a nova consciência for surgindo, algumas pessoas se sentirão motivadas a formar grupos que a reflitam”, ele escreve. “E eles não serão egos coletivos. Seus membros não terão necessidade de estabelecer sua identidade por meio deles, pois já não estarão procurando nenhuma forma para definir quem são. Ainda que essas pessoas não estejam totalmente livres do ego, elas terão consciência bastante para reconhecê-lo em si mesmas ou nos outros tão logo ele se manifeste”.

michelangelo-71282_1280É preciso, de fato, oferecer. Com ação, não apenas palavras. E em prol de uma causa que realmente proporcione o bem e não precise se assegurar numa ilusória autonomia . Sonia acredita no poder da mente de produzir e alcançar essa atitude. “Com a força da nossa mente podemos conseguir coisas maravilhosas”, ela diz. “Se essas coisas são em prol da humanidade, vale completamente a pena, pois saímos do nosso ego limitado e abrimos o nosso coração para uma grande corrente do bem”.

Te Ofereço Paz: um encontro pela ação no fluxo

O evento organizado por Sonia e alguns parceiros locais, que se unem em busca do encontro e sem os quais ele não seria possível, acontece anualmente no Dia Mundial da Paz e traz esse nome inspirado pela música de Valter Pini. A ideia, como descreve Sonia, é ajudar as pessoas a atravessarem seu mal estar, que pode vir como ansiedade, preocupação, depressão, etc. Com terapias integrativas, meditação, yoga e também debates e conversas que tragam à tona as observações pessoais em busca do autoconhecimento, o Te Ofereço Paz propõe o pensamento voltado para qualidade de vida e prevenção, em vez da urgência do vários “remédios”.

(Foto: Te Ofereço Paz/Reprodução)
(Foto: Te Ofereço Paz/Reprodução)

A temática desse ano foi “a paz comigo, a paz com o outro e a paz com o planeta Terra”. A edição já aconteceu, mas você pode ver aqui alguns registros das atividades. A programação envolveu apresentações musicais das crianças da Associação Fênix, um projeto de Jacareí que busca transformar a vivência de crianças de um bairro de baixa renda da cidade. Além de palestras e um espaço terapêutico com Reiki e cura prânica, o evento realizou coleta de alimentos para montagem de cestas básicas, atividades com massagem, um canto de brincadeiras para as crianças, lanches vegetarianos e até lançamento de bexigas para espalhar a paz, inspirado nas bandeiras tibetanas.

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(Foto: Te Ofereço Paz/Reprodução)

“Tudo isso no meio da natureza”, Sonia ressalta. Apesar dos desafios de se arquitetar um evento como este, ela conta que se sente muito realizada ao ver o processo final. Sua história pessoal com o tema da paz possibilita uma busca persistente. Ela enfrentou uma grave crise existencial antes de passar pelo trabalho de psicoterapia que a ajudou a recomeçar e, desde então, se dedicar a essa proposta. Fez pós-graduação em Psicologia Transpessoal, uma corrente que, nas suas palavras, “cuida do ser humano como um todo, trazendo a questão da felicidade e da saúde como fazendo parte da essência do ser humano e do resgate do sagrado”. Atualmente, poder formar profissionais para a paz e participar do que ela chama de “pequenos milagres” é o que a mantém encantada, vislumbrando com alegria os resultados dessa união de forças e dons.

Para ela, isso é mágico.

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(Foto: Te Ofereço Paz/Reprodução)
(Foto: Te Ofereço Paz/Reprodução)
(Foto: Te Ofereço Paz/Reprodução)

Sonia é um exemplo de como podemos converter nossos momentos difíceis em ações para o bem. O que se aprende com a dor é o que proporciona a resiliência para a atitude de compaixão. Afinal, depois de um tombo, quem levanta não é a mesma pessoa que caiu. Vale lembrar que é preciso estar sempre atento às nossas atitudes e suas naturezas, pois, como Eckhart sugere em sua obra, dissolver o ego será um dos principais desafios dos grupos formados por pessoas esclarecidas. “Essas coletividades vão cumprir uma função importante no surgimento da nova consciência. Enquanto os grupos egóicos pressionam no sentido da inconsciência e do sofrimento, as agremiações esclarecidas podem ser um vórtice para a consciência que irá acelerar a mudança planetária”, ele observa.

E Sonia deixa um recado: “o Te Ofereço Paz vai continuar pois ele se tornou maior do que qualquer um de nós”.

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As imagens do Te Ofereço Paz foram retiradas da página do evento no Facebook, cedidas por Sonia Redi.

Edmar Borges

Um latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, graduando em Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto e vindo do interior de Minas Gerais. Você também me encontra no Obvious Lounge e no Medium Brasil.

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