Revista Mandala

Como se constroi a inclusão?

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A luta das pessoas com deficiência é diária. Seja pelo seu direito à locomoção, ao uso dos serviços públicos, ao acesso livre a todos os lugares da cidade, ou pela representatividade nos espaços de mídia, de convivência e de construções políticas e sociais. Uma pesquisa realizada pelo Núcleo Pró-Acesso da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que é vinculado ao programa de pós-graduação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) e desenvolve ações para garantir inclusão socioespacial das pessoas com deficiência, revelou, no ano passado, que não existe nenhuma cidade verdadeiramente acessível em todo o país.

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Hoje, em virtude do Dia Nacional da Luta das Pessoas com Deficiência, a diretora da Unilehu – Universidade Livre para a Eficiência Humana, Yvy Karla Bustamante Abbade, que há 12 anos vem atuando na temática da inclusão e diversidade, conta sobre a instituição e seu papel na formação sócio-inclusiva dos alunos e da cidade. Yvy, que é assistente social por formação, foi convidada a participar da criação da Unilehu quando esta era apenas um  projeto no papel. A partir de 2008, convidada pela presidente e idealizadora da instituição, Andrea Koppe, assumiu o gerenciamento.

Veja a seguir o que Yvy conta sobre a Unilehu:

Quando foi a concepção da instituição e seu contexto de surgimento?3

A Unilehu surgiu como um modelo de ONG por acreditar que a efetiva inclusão está em todas as dimensões sociais. Ela foi fundada em 2005 e surgiu da demanda de um grupo de 10 empresas de Curitiba e Região Metropolitana em cumprir a Lei de Cotas (8.213/91), que determina um percentual de contratação de PcD para empresas com mais de 100 funcionários. Apesar da necessidade legal, a iniciativa privada não estava preparada para a realidade da inclusão. Por outro lado, o histórico de exclusão que as PcD foram submetidas ao longo do tempo, acarretou em sua desvantagem competitiva no mercado de trabalho.

O que é possível fazer diante deste cenário?

A Unilehu foi criada para intervir nessas duas realidades tão distintas, uma corporativa e outra social. Desta forma, o desafio principal de sua atuação foi o preparo do ambiente corporativo para a inclusão, ao mesmo tempo em que aprimorava a prontidão da PcD para o trabalho e, consequentemente, oportunizava o resgate de sua autonomia e cidadania. Estes dois focos de intervenção somados é que promovem o sucesso dos programas de inclusão corporativos realizados pela Unilehu, tornando as ações afirmativas de contratação mais efetivas e com resultados consistentes. Um de seus diferenciais é agremiar esforços na conscientização de empresas e sociedade, com um foco claro na valorização da diversidade. Outra característica importante é que atende pessoas com todos os tipos de deficiência, dando uma maior abrangência ao trabalho social realizado. Desta forma, além de obter conhecimento mais amplo sobre as deficiências, oferece mais possibilidades de inclusão para as empresas, como também favorece a parceria com as instituições sociais que já realizam o atendimento assistencial às PcD.

A premissa da Unilehu é, de forma continuada e estruturada, colocar em prática o conceito de trabalho social em rede em prol da inclusão da PcD. Se a ideia inicial era construir uma ponte entre a PcD e as empresas, durante seus doze anos de atuação a Unilehu foi percebendo diversas demandas relacionadas aos esforços de inclusão destas pessoas, o que acarretou o crescimento orgânico da organização e de seus serviços com um planejamento

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Como é a atuação da Unilehu e quais são os desafios e as recompensas?

Desde o seu planejamento até a estrutura atual, a instituição sempre moldou a sua atuação na parceria com os três setores da sociedade, o que, de certa forma, foi uma tarefa muito complexa e desafiadora. Com centenas de atores sociais tão distintos envolvidos na execução das atividades, a capacidade de mobilização e intervenção da Unilehu para alcançar a sua missão social foi imprescindível para que a operacionalização dos programas e pilares de atuação obtivessem os resultados esperados. Esta formação peculiar é fruto de uma forma de trabalho diferenciada, cuja essência será aqui relatada como uma contribuição para o desenvolvimento sustentável em prol da diversidade e da inclusão da PcD.

O constante e diário aprendizado com esta temática fez com que as ações pontuais iniciais fossem se estruturando em uma tecnologia social comprovada e certificada, capaz de criar resultados nos programas de inclusão das empresas parceiras e na realidade da exclusão das PcD de Curitiba e Região Metropolitana. Por conta disto, vários programas, serviços, processos e fluxos de trabalho foram sendo incorporados na atuação da Unilehu. Foi um crescimento impressionante e rápido, em constante evolução, pois a sua história foi construída com a colaboração de centenas de pessoas e organizações efetivamente preocupadas e engajadas na causa da inclusão.

Em 2016, a Unilehu ampliou seus públicos de atendimento, abrindo suas portas efetivamente para a diversidade, atendendo a jovens em vulnerabilidade, idosos, mulheres, imigrantes, entre outros, e conta com o apoio de empresas mantenedoras e parceiros institucionais que, juntos, constroem uma sociedade mais justa, inclusiva e igualitária.

Quais as perspectivas futuras e o balanço final?

Com um consistente trabalho em rede, mais parceiros se engajaram, a prática foi sendo aprimorada, o número de programas ampliado e os resultados nunca pararam de crescer. Com maturidade e paixão pelo que fazemos, somos referência para a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, temos um reconhecido programa de aprendizagem profissional e promovemos uma relevante atuação na mobilização para o tema da diversidade. Tudo isso com o apoio de diversos parceiros empresariais, governamentais e sociais que tornam o nosso trabalho ainda mais forte.

E assim seguimos rumo ao futuro, mantendo em nosso DNA o propósito de sempre fazer mais e melhor, e com o sonho de construir uma sociedade para todos. Nossa inspiração e razão de ser são as pessoas. A nossa missão social é aproximá-las para fazer a inclusão acontecer. Para cada uma delas atuamos de forma focada em suas demandas e necessidades.

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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