Revista Mandala
Se o ritmo atual de caça aos elefantes se mantiver, em 100 anos eles estarão extintos em toda a África.

Conheça Maia e Guida e saiba por que elas precisam de você

Essas podem ser as moradoras estreantes do primeiro Santuário de Elefantes da América Latina. Mas a questão toda vai muito além do que pode parecer.

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O primeiro Santuário de Elefantes da América Latina está aguardando suas primeiras moradoras. Foram seis anos desde o começo da busca por uma solução para os maus tratos sofridos pelos elefantes no Brasil, passando pela concepção da ideia de um espaço de preservação, pela procura do terreno ideal e, por fim, chegando aos processos finais de legalização e licenciação pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente do Mato Grosso. Agora, o santuário, localizado na Chapada dos Guimarães, pode finalmente ser lar de Maia e Guida, duas elefantas asiáticas que foram obrigadas a atuar em picadeiros por quase quarenta anos.

6-4_maia_guidaA construção do santuário, que foi um projeto pioneiro na América Latina desenvolvido pela fotógrafa Junia Machado, ainda não está totalmente concluída. Os elefantes são animais conhecidos por seu tamanho e por ocuparem muito espaço, então nada mais justo que ter acesso a um lar condizente com suas necessidades. Por isso, o projeto como um todo vai levar, em média, mais seis anos para ser terminado. Além disso, custará em torno de 7,5 milhões de dólares.

Você acha isso muito?

Saiba que só o comércio ilegal do marfim, extraído cruelmente dos elefantes e distribuído por todo o mundo com o nome de “ouro branco”, lucra muito mais que isso por ano. Sem falar nos ganhos com shows em circos e ingressos de zoológico.

As indústrias que podem levar os elefantes à extinção

Faça as contas com a gente. De acordo com informações de uma publicação da Yale School of Forestry Environmental Studies e também do Share America, um quilo de marfim no mercado negro custa entre 500 e 3.000 dólares, dependendo da região de venda. Na China, por exemplo, esse valor pode chegar a sete mil dólares. E para que se produza uma tonelada de marfim, aproximadamente 330 elefantes precisam ser abatidos. Acontece que, apesar de suas presas pesarem até 100 quilos cada, elas não geram esse peso correspondente do material após sua extração. Dessa forma, a cada 330 elefantes mortos, geralmente com uso de cianeto, até 7 milhões de dólares em marfim podem ser coletados.

O marfim é utilizado para produção de móveis, instrumentos musicais e objetos. Se a caça aos elefantes se mantiver no ritmo atual, eles desaparecerão do continente africano em até 100 anos.
O marfim é utilizado para produção de móveis, instrumentos musicais e objetos. Se a caça aos elefantes se mantiver no ritmo atual, eles desaparecerão do continente africano em até 100 anos.

Segundo uma pesquisa da Universidade do Estado do Colorado, nos Estados Unidos, publicada em 2014 no periódico científico Proceedings of the National Academy of Sciences, entre 2010 e o ano de publicação do estudo cerca de 35 mil elefantes africanos foram mortos por ano, em especial para o comércio ilegal de marfim. De acordo com Junia, que idealizou o santuário no Brasil e conduziu sua construção, esse número chega atualmente a 70 mil. Se 330 mil elefantes podem gerar até 7 milhões de dólares em países como a China, onde o marfim vale ouro, quanto dinheiro 70 mil deles gerariam?

Até 1,5 bilhões de dólares. O dinheiro que roda no mercado negro graças a uma matança de elefantes sem precedentes, que está tornando cada vez mais próximo o risco de extinção desses animais na África, é o suficiente para construir entre 100 e 200 santuários como o da Chapada dos Guimarães. Por ano.

Além disso, existem outros tipos de abuso que os elefantes sofrem. Junia conta que a forma como eles são usados para o entretenimento dos humanos, seja em zoológicos ou como atrações de espetáculos circenses, deixa-os muito doentes, em péssimas condições e sem suas necessidades atendidas, biológicas e comportamentais. “Não importa a qualidade do zoológico, os elefantes não são seres que foram feitos pra ficar em lugares pequenos”, ela explica. “A composição deles, a formação física e a inteligência, tudo faz com que eles sofram muito em cativeiro, com doenças físicas e mentais”.

Elefantes são animais sociáveis, que dependem de espaço e convivência para o bem-estar.
Elefantes são animais sociáveis, que dependem de espaço e convivência para o bem-estar.

Uma das atividades geralmente relacionadas a elefantes e que Junia “desglamuriza” categoricamente é a do seu uso como transporte. Ela conta que, como aprendeu com um veterinário em um santuário tailandês, carregar pessoas nas costas pode machucá-los muito. “Na Ásia, eles são muito usados para trabalho de entretenimento com turistas, levar os turistas nas costas”, ela conta. “Então eles ficam doentes, porque eles não têm a formação de corpo como o cavalo, as costas deles não foram feitas para carregar pessoas”.

Maia e Guida

Maia e Guida tiveram uma trajetória difícil até aqui – e ela ainda não acabou. Foram levadas do seu habitat quando filhotes e atuaram em circos durante quase quatro décadas, dia após dia, até serem levadas pelas autoridades para o Zoológico de Salvador, em 2010, onde passaram dois meses e foram, de novo, realocadas, agora em um sítio no sul de Minas Gerais.

Maia e Guida estão sendo mantidas acorrentadas em um sítio no interior sul de Minas Gerais. (Foto: Junia Machado)

As condições instáveis, de pressão física e psicológica, e a falta de cuidado apropriado que essas duas elefantas têm passado durante todas as suas vidas podem ter fim. Elas são muito bem-vindas nos 1.140 hectares de vegetação e relevo apropriados do Santuário de Elefantes Brasil, onde finalmente viverão em um ambiente tranquilo e aconchegante. “A finalidade do santuário é prover um ambiente saudável e natural para os elefantes, para eles poderem se recuperar”, Junia explica. “Eles não serão expostos ao ‘público’ e o santuário é para propiciar o bem-estar do animal, tentar reproduzir da melhor maneira possível as condições da natureza, onde eles deveriam estar”.

Mas, diferente do comércio de marfim, esse projeto não tem dinheiro sobrando.

A campanha

Junia, que tornou-se representante da ElephantVoices no Brasil depois de uma experiência fotografando esses animais e descobrindo as reais condições em que eles se encontram nos zoológicos, luta há quase sete anos pela preservação dos elefantes na América do Sul. Seu objetivo é possibilitar que eles adquiram um estilo de vida mais próximo o possível daquele que a natureza proporcionaria caso não tivessem sido tirados dela. Algo que custa caro.

Por isso a iniciativa precisa de ajuda. Maia e Guida, por exemplo, podem ser beneficiadas a partir de uma campanha de arrecadação online para que seja possível pagar pela sua locomoção do sul de Minas Gerais até o interior do Mato Grosso, um total de 1.600km de viagem. Junia conta que há um prazo limite para movê-las, e por isso espera que a campanha, criada no Vakinha e com 50% do objetivo alcançado, seja o suficiente para arrecadar todo o valor necessário até seu encerramento, na primeira semana de outubro.

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A expectativa é que a campanha arrecade todo o valor necessário para locomoção das aliás. Esse valor está destinado a várias realizações.
A expectativa é que a campanha arrecade todo o valor necessário para locomoção das aliás. Esse valor está destinado a várias realizações.

E não para por aí. Outros elefantes também precisam de ajuda, em toda a América do Sul. Junia conta que possui um banco de dados dos elefantes e grande parte dos animais no país já está rastreada. Ela menciona três aliás no Zoológico de Buenos Aires, que devem estar a caminho do santuário no Brasil em breve. “(As elefantas) estão em condições lamentáveis porque elas são revezadas, só ficam duas horas fora do recinto fechado”, ela diz. “Ficam o tempo todo trancadas porque não pode misturar elefante africano com asiático. Tem duas africanas e uma asiática. Elas não se dão bem, então tem que fazer revezamento”.

No site do santuário, você pode conhecer alguns desses animais e entender melhor como e por que é preciso ajudá-los. ”A gente gastou muito com centro de tratamento médico e agora tem que ampliar as cercas, cada vez ampliar mais, e ir aumentando também cada vez mais para poder trazer mais elefantes”, Junia conta, com expectativa. “Essa Vakinha é só para a questão do transporte, então a gente vai ter que fazer várias outras campanhas para continuar desenvolvendo o projeto”.

Não é sobre os elefantes: é sobre nós

As impressões são paradoxais. De um lado, o alto índice de matança dos elefantes na África, os abusos que eles sofrem nas mãos de humanos nos circos e zoológicos do mundo todo e a forma como o turismo exótico ainda se mantém sobre os ombros calejados de vários tipos de exploração. Do outro, pesquisas voltadas para a melhoria da vida e preservação dos animais, projetos como o Santuário de Elefantes Brasil e a obstinação com que Junia e seus colegas de luta, como Scott e Kat Blais (do Global Sanctuary for Elephants), buscam proporcionar o merecido bem-estar a esses animais.

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Os maus tratos sofridos pelos elefantes são só a ponta do iceberg, Junia acredita. Afinal, todos os outros animais também sofrem em cativeiro. “Quando você cria um projeto desses, você mostra para as pessoas, para as crianças, que existem outros caminhos, não necessariamente os caminhos de antigamente”, ela diz. “Hoje em dia, com todos os estudos científicos, você aprende que os animais são seres conscientes, que sofrem, que têm sentimentos”.

Por isso, para Junia, não há dúvida de que a questão transcende esse projeto. “Não se trata apenas de um santuário para os elefantes”, ela avisa. “Se trata de um modelo de como os seres humanos devem tratar os outros seres vivos”.

E, diga-se de passagem, a si mesmos.

Essa imagem é de Junia Machado e faz parte do projeto fotográfico e exposição Almas Livres, que ela desenvolveu em parceria com sua filha, Isabella Machado, fotógrafa de natureza.
Essa imagem é de Junia Machado e faz parte do projeto fotográfico e exposição Almas Livres, que ela desenvolveu em parceria com sua filha, Isabella Machado, fotógrafa de natureza.

 

 

Acesse:

A campanha de arrecadação no Vakinha: aqui.

A página do Santuário no Facebook, onde você pode acompanhar Maia e Guida: aqui.

In Cold Blood – Combating organised wildlife crime, uma publicação internacional (em inglês) sobre combate a crimes contra animais selvagens: aqui.

Edmar Borges

Um latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, graduando em Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto e vindo do interior de Minas Gerais. Você também me encontra no Obvious Lounge e no Medium Brasil.

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