Revista Mandala

Corpo que sente: uma conversa sobre o poder das mulheres

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Processos de opressão social e, consequentemente, auto-imposição, aos quais todas as mulheres estão sujeitas diariamente, podem ser extremamente danosos à saúde do corpo e da mente. As influências sociais sobre o corpo podem dizer muito sobre como nos portamos e a forma como vemos o mundo (e a nós mesmos). Isso porque as construções feitas em torno de posturas, pensamentos e papeis sociais podem ser cruciais no processo de auto(re)conhecimento no qual se investe em busca de saúde mental e também física. Afinal, não se trata apenas da mente.

Qual a sua relação com o seu corpo? Com seus cheiros, com os cheiros ao redor? Como você, leitora, se enxerga diante do espelho e longe dele? E quão consciente você é do seu poder de transformação, inclusive de si mesma?

A Revista Mandala conversou com a aromaterapeuta Palmira Margarida, mestra em História das Ciências e da Saúde pela Fundação Oswaldo Cruz, autora de artigos sobre empoderamento feminino e criadora da Casa Alquímica. Na entrevista, ela conta sobre seu processo pessoal de autoconhecimento enquanto mulher, mas também aborda a necessidade de todas as mulheres se unirem nessa luta para que haja, de fato, empoderamento.

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(Foto: arquivo pessoal de Palmira)

Atualmente, com a pesquisa Neurociências, Olfato e Emoções, Palmira é doutoranda pela Universidade Federal do Rio de Janeiro em Ciências e Epistemologia, além de organizar encontros de mulheres sobre a sabedoria ancestral feminina. Confira a entrevista:

Como foi para você o processo, intra e interpessoalmente falando, de chegar onde hoje você se localiza politicamente nesse cenário de busca por saúde e bem-estar das mulheres?

Esse processo começou em mim mesma, nas minhas próprias dores e dificuldades como mulher e acredito que para todas seja assim. Vim de uma família simples da periferia do Rio, as mulheres de minha família não tiveram oportunidade de estudar e são muito machistas. Quando comecei a colocar minhas dores, aflições, descobertas e conquistas no papel eu queria atingir também esse grupo de mulheres. Queria ter sororidade e pensei: minha escrita deve ser simples e bem amorosa. Acredito na política do amor. Se faço um texto sem amor elas não se sentem acolhidas e é preciso muito acolhimento, carinho e paciência para se falar de clitóris, masturbação e vagina porque são assuntos polêmicos e que causam medo e pavor em muitas mulheres.

A utilização de produtos naturais tem crescido no Brasil, em especial com a possibilidade de criação de comércios alternativos e independentes. Sobre a Casa Alquímica, como e quando esse projeto começou?

Começou em 2008 quando resolvi que o meu amor pelas plantas poderia virar um negócio. Eu sempre amei plantas, cremes, perfumes e na infância brincava com as samambaias da minha mãe. Conforme eu fui descobrindo o que era feminismo e lendo sobre sagrado feminino, a Casa Alquímica se tornou uma alquimia para empoderamento de mulheres através da energia das plantas. Em 2015 iniciei, sem pretensão alguma, reuniões de mulheres em minha casa, para que pudéssemos falar sobre saúde e bem-estar feminino. É através da fala dessas mulheres que percebo como somos e crio produtos de acordo com as demandas delas que também são minhas.

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Qual a importância, na sua opinião, de se utilizar produtos naturais, especialmente os aromáticos? Você acredita que para as mulheres esse debate é mais presente e/ou faz-se mais necessário?

Acredito que não seja um debate só das mulheres, mas o mundo feminino abarca mais esse lugar, creio, por uma questão sócio cultural. Mulheres sempre foram as erveiras, parteiras, rezadeiras. Nós carregamos em nosso inconsciente coletivo e transgeracionalidade esses conhecimentos ancestrais sobre ervas, saúde e bem-estar. Quanto a importância de utilizar produtos naturais, observo que é um movimento crescente, desde a década de 1970, de pessoas almejando reconexão com a natureza e com a sua própria essência.

Nos perdemos de nossa essência nesse sistema vigente, é preciso lembrar quem somos e como funcionamos, voltar a ouvir nossos corpos, sentir o cheiro de nossa saúde, doença e emoções.

Falando em cheiro, o sistema olfativo é o único que apresenta conexão direta com o meio externo, não passa pelo tálamo (uma espécie de filtrador no cérebro). Um aroma te invade e acessa diretamente o seu sistema límbico, local onde guardamos nossas memórias e emoções. Ou seja, não há como controlar a emoção provocada por um aroma de imediato. Quando você vê algo que não gosta, pode fechar os olhos, mas quando sente um cheiro que te traz emoções ruins, você não pode parar de respirar. O sistema olfativo é visceral, é chocante e impactante. Esses são alguns motivos pelos quais ele foi tão domesticado: era preciso normatizar o homem! Retomar esse contato com ele, através de cheiros naturais, portanto, não domesticados pela indústria, é um grande passo para se libertar da normatização e reconhecer as próprias emoções.

O que você tem a dizer para as leitoras da Revista Mandala sobre a importância de (re)conhecimento dos seus corpos como algo que, de fato, “é o poder”? E como isso as auxilia, na sua opinião, a alcançar mais bem estar no dia a dia?

Somos treinadas a nos odiarmos, não só nossos corpos como umas às outras. Reconhecer o próprio corpo, o prazer autônomo e o poder gerado por isso é empoderador. É com esse poder interno que você percebe que mulheres não precisam competir entre si, que você é dona de si e não depende emocionalmente de alguém. Reconhecer o meu corpo e entender o poder que vem do meu interior me fez ser um ser independente emocionalmente, segura de quem sou e, principalmente, com um amor de escuta enorme por qualquer ser humano. O mundo patriarcal é ditador, só fala e não escuta, te corta. O mundo matriarcal é forte, reconhece sua força interna e, por isso, não tem medo e pode acolher o outro, ouvir e somar.

Quando você descobre todo o seu potencial e brilho, não é necessário silenciar o outro. Reconhecer a si através do toque do próprio corpo, da intuição do feminino é descobrir-se autônomo.

Mulher, não tenha medo de ser autônoma: toque-se, ouça a sua intuição, observe seu corpo junto às mudanças da natureza, sinta como seu cheiro muda durante o mês e descobrirá um mundo!

Palmira também faz parte do Movimento #clitorislivre, que surgiu de forma coletiva em um grupo de mulheres para que assuntos relacionados ao bem estar e prazer da mulher sejam compartilhados sob o uso da hashtag.

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Quer ler mais sobre saúde da mulher? Confira esta matéria sobre doulas e a sua sensível e empoderada contribuição para as gestantes. 

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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