Revista Mandala

Curso com base na ciência contemplativa traz um novo olhar para o sistema acadêmico

A pós-graduação em Transformação de Conflitos e Estudos de Paz está disponível no Brasil e é uma iniciativa pioneira na América Latina.

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Talvez você esteja pensando que a primeira pós-graduação em Transformação de Conflitos e Estudos de Paz da América Latina seja, na verdade, algo entre um retiro espiritual e um curso esotérico de três dias na floresta. E é compreensível que pense assim. Afinal, temas como estudos de relações, filosofia de paz(es), compaixão e autocompaixão não são muito comuns dentro do meio científico. Isso não quer dizer, no entanto, que não estejam lá.

Em parceria com a Cátedra de Estudos para a Paz da Unesco, a pós-graduação em Transformação de Conflitos oferecida pelo Instituto Paz e Mente é a prova (muito) viva de que o espaço acadêmico pode e deve ser um lugar de reflexão também em primeira pessoa.

“Dialogamos isso de forma científica”, conta a idealizadora do curso, Cerys Tramontini, que é Mestre em Transformação de Conflitos, advogada e estuda há vinte anos as práticas contemplativas. “Tudo que a gente faz tem vínculo com a ciência em primeira pessoa sem negar a ciência em terceira pessoa”.

pexels-photo-160058Como relata Cerys, que é professora universitária, há uma tendência dentro do meio científico de colocar o cientista como um elemento neutro, segmentado do processo de fazer ciência, um observador que não participa da experiência. No entanto, ela menciona que “quando o cientista olha para o objeto observado, ele já está implicado no processo também. Ao olhar, ele já causa uma alteração, e isso é incrível, isso é ciência”.

O curso

Fundado em 2015 pelo Instituto Paz e Mente, que se localiza em Floranópolis (SC), o curso possui um programa de pós-graduação lato sensu (540 horas) com currículo de mestrado internacional. Seus parceiros, a Cátedra de Paz da Unesco pela Universidade de Innsbruck, na Áustria, e o Instituto Santa Barbara para Estudos da Consciência, na California (EUA), são representados respectivamente pelo Prof. Dr. Wolfgang Dietrich e pelo Prof. Dr. Alan Wallace, praticantes e estudiosos renomados na área das ciências contemplativas.

Alan Wallace é escritor e estudioso das ciências contemplativas. Além disso, também habita o espaço acadêmico: é bacharel em Física e Filosofia da Ciência pela Universidade Amherst e Ph.D. em Estudos Religiosos pela Universidade de Stanford (Foto: reprodução)

Alan Wallace é escritor e estudioso das ciências contemplativas. Além disso, também habita o espaço acadêmico: é bacharel em Física e Filosofia da Ciência pela Universidade Amherst e Ph.D. em Estudos Religiosos pela Universidade de Stanford (Foto: reprodução)

Além disso, Eve Ekman é uma das professora do curso. Ela é filha do psicólogo estadunidense Paul Ekman, que tornou-se referência no estudos das emoções e se consagrou como um dos 100 mais notáveis psicólogos do século 20. Como aponta Cerys, que é também aluna do Prof. Alan Wallce, vertentes que estudam e se familiarizam com as emoções e com as relações são fundamentais para o curso.

Eve Ekman é professora com formação em Medicina Integrativa e pesquisadora do poder do foco na redução do estresse e do desiquilíbrio emocional (Foto: reprodução).
Eve Ekman é professora com formação em Medicina Integrativa e pesquisadora do poder do foco na redução do estresse e do desiquilíbrio emocional (Foto: reprodução).

“A pós são estudos das relações”, ela conta. “Somos seres relacionais, então a pós vai estudar o eu em relação ao mundo e as conexões que surgem dessas percepções e realidades. Para isso, bebemos de várias outras disciplinas, como da psicologia, da ciência contemplativa, da sociologia, das relações internacionais, da antropologia… Bebemos de fontes que agregam, é um curso interdisciplinar”.

Levar esse modo de partilhar o ensino ao espaço acadêmico é inovador, como conta Cerys. “Dentro do estudo acadêmico, as pessoas estão muito saturadas”, ela observa. “Estudam cinco anos e parece que não saem do lugar. Isso porque a gente estuda sempre o outro, não o meu ser em relação ao outro”.

Sala de práticas composta por cadeiras de chão e em forma circular, possibilitando a comunicação fluida e plurilateral (Foto: Instituto Paz e Mente/Acervo)
Sala de práticas composta por cadeiras de chão e em forma circular, possibilitando a comunicação fluida e plurilateral (Foto: Instituto Paz e Mente/Acervo)

A proposta da pós-graduação em Transformação de Conflitos e Estudos de Paz, portanto, é recuperar esse relacionar-se consigo mesmo e com o mundo, a capacidade de enxergar as realidades como processos sujeitos a transformações e dos quais todos fazemos parte. Por isso, as composições textuais no decorrer do curso são feitas em primeira pessoa e surgem do encontro do autor com os autores que vieram antes dele. De acordo com Cerys, “chama-se escrita transformativa e são muitas as metodologias oferecidas para essa produção”.

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As turmas recebem treinamento para auxílio em casos emergenciais e para prestação de primeiros socorros. De acordo com Cerys, esse aprendizado é muito importante pois, além de olhar para o controle emocional, possibilita que os agentes da(s) paz(es) salvem vidas ao seu redor. (Fotos: Instituto Paz e Mente/Acervo)
As turmas recebem treinamento para auxílio em casos emergenciais e para prestação de primeiros socorros. De acordo com Cerys, esse aprendizado é muito importante pois, além de olhar para o controle emocional, possibilita que os agentes de paz salvem vidas ao seu redor. (Fotos: Instituto Paz e Mente/Acervo)

Ao final do curso, que trabalha com reflexões filosóficas sobre a paz e o conflito e com diversas metodologias transformativas, abordando questões como autenticidade, autocompaixão e destemor em aulas presenciais e online, o estudante produz um artigo científico de quinze páginas com a temática que mais lhe toca o coração. Tudo com embasamento científico. Portanto, trata-se de uma oportunidade para estudar as emoções, as sensações do corpo, a mente, a(s) consciência(s), as várias formas de olhar a paz de cada um e, claro, os conflitos.

Aula circular com o cientista político e professor na Universidade de Innsbruck, o Dr. Wolfgang Dietrich (Foto: Instituto Paz e Mente/Acervo)
Aula circular com o cientista político e professor na Universidade de Innsbruck, o Dr. Wolfgang Dietrich (Foto: Instituto Paz e Mente/Acervo)

Por que transformar conflitos em vez de simplesmente destruí-los?

Na verdade, não é possível destruir um conflito. Isso porque “os conflitos são parte da vida e aprender a lidar com ele e se fortalecer com metodologias é fundamental”, diz Cerys. Ela chama a atenção para o fato de que, apesar de gostarmos muito da ideia de uma identidade fixa, somos seres em constante transformação, sujeitos às mudanças de tudo o que nos cerca e nos constrói, desconstrói e reconstrói dia após dia.

De acordo com Cerys, que é também estudiosa da ciência contemplativa enquanto método de observação da mente datada de milhares de anos de referências, os conflitos são fluidos como quem os experimenta. Dessa forma, eles também são transformados, não destruídos. Por mais que um conflito pareça se arrastar por dias, semanas ou anos, na verdade ele já se transformou e o que permanece é apenas a ideia de que ele é o mesmo. E o mais importante é olhar para os conflitos como oportunidades.

pexels-photo-277593“Na perspectiva do senso comum, o conflito é visto como algo ruim, negativo, que precisa ser abolido, suprimido, mandado embora”, Cerys afirma. “Aqui, para nós, o conflito é algo muito precioso porque nós o vemos, dentro desses estudos, como parte da vida. E se ele é parte da vida, não deve ser suprimido nem abolido porque estaríamos abolindo a própria vida”.

Podemos ver o conflito, portanto, como uma energia que movimenta as relações. Você já deve ter reparado, em algumas situações, que foi justamente o fato de haver alguma divergência que possibilitou o diálogo convergente… Isso acontece porque o conflito puxa o tapete, aumenta a temperatura e comprime as paredes. Nesse caso, o que você tem a fazer a não ser encontrar uma forma de levantar e sair?

“Quando estamos em nossas zonas de conforto, parece que nos mantemos no mesmo lugar, não nos movemos”, Cerys observa. “Quando tem alguma inquietação, algo nos puxa, nos move. Então, toda vez que temos conflitos, essa atenção na relação consigo ou com o outro nos tira da zona de conforto e isso é precioso”.

A pós-graduação, portanto, busca auxiliar na administração desse processo. Não importa em qual área você atua, saber lidar com a energia conflituosa é sempre oportuno. Além de demandar equilíbrio emocional, exige que você entenda como esse movimento se dá e o que pode ser feito quando ele age nos mais diversos momentos da vida.

people-woman-coffee-meeting“Dentro da perspectiva do conflito como parte da vida, eu tenho um trabalho de auto-observação, de observar quais são meus gatilhos emocionais, minhas áreas frágeis que ainda tenho que trabalhar”, Cerys explica. “O conflito, na verdade, está nos apontando onde estamos, como nos movimentamos, porque quando a gente fala de paz e conflito é importante ter um olhar de que não é algo estático, fixo, imutável, isso não existe…”

É uma dança, como a idealizadora do curso belamente metaforiza. “Vida é fluxo o tempo todo, somos seres devires, ou seja, sempre em transformação”, ela enfatiza. “Não somos prontos e nunca vamos estar prontos dentro da perspectiva humana porque estamos sempre nos fazendo na experiência que temos, no caminho. A cada expiração e inspiração, toda a nossa respiração se regenera, nossas células se transformam, e tudo isso sempre tem relação com os estudos de paz. Encontrar um lugar imóvel frente a tudo que se move é nosso maior desafio”.

pexels-photo-107868Se todas as pessoas, independente da área de atuação, pudessem estabelecer seu propósito antes de agir e exercitar um olhar atento ao que acontece ao seu redor, separando o ser da atitude, Cerys acredita que a violência no mundo seria significativamente reduzida e o cuidado entre as pessoas seria um hábito. “A violência que existe hoje é uma reatividade excessiva, uma ignorância de não compreender o que nos une e nos aproxima”, ela aponta. “Se nós conseguíssemos observar, respirar, não agir automaticamente, com certeza iríamos ter uma sociedade menos violenta”.

Por isso, como ela sucinta, a ideia do programa é trabalhar as filosofias das pazes e das metodologias transformativas, e também as habilidades emocionais por meio do estudo da mente, algo que ela sugere que seja bem esclarecido para não gerar nenhum desentendimento, o que é comum. Há, por exemplo, diferença entre cérebro e mente. “A gente esclarece isso, apresenta o que tem de mais avançado no estudo na neurociência, trabalhamos consciência… O que é consciência? Existe uma ou várias?”.

pexels-photo-191139Quer saber a resposta? Pois saiba que em julho começam as inscrições para a próxima turma da pós-graduação em Transformação de Conflitos e Estudos de Paz. Serão quatro semestres de aprendizado e compartilhamento que começam em abril de 2018 e vão até outubro de 2019. No site do Instituto Paz e Mente você pode conhecer melhor o funcionamento do curso, se inscrever e tirar dúvidas.

Como Cerys conclui, “estamos no laboratório vivo, que é nosso corpo, e somos cientistas da mente”. Qual experimento você quer realizar de hoje em diante?

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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