Revista Mandala
(Monge tibetano posando para a foto, a caminho de Pangon Lake. Foto: Tiago Silveira)

A Índia além do que você imagina

Da agitada Délhi às solitárias montanhas de Ladak.

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Por Tiago Silveira 

Praticamente todas as tradições espirituais da Índia nos dizem que, para se obter realização de um determinado conhecimento, é preciso antes experienciá-lo. De maneira análoga, para se conhecer a Índia é preciso ir visitá-la. Berço da nossa civilização e de todo o avanço cultural e tecnológico do mundo – sim, afinal foram eles que conceberam o zero, resolveram as primeiras equações e fundaram a primeira universidade –, é inexprimível a riqueza e a diversidade lá existentes.

Minha experiência na Índia ocorreu há pouco mais de seis meses, quando embarquei com meu companheiro e um grupo de amigos rumo à Caxemira – disputada região do extremo norte hindu – para participar de um evento do budismo tibetano, o Kalachakra, conduzido por Sua Santidade Dalai Lama. Antes, porém, iniciamos nossa trajetória indiana por sua capital, Délhi, a principal porta de entrada do país.

Para falar a verdade, a experiência com a Índia começou ainda no voo, quando o passageiro indiano sentado ao meu lado compartilhou a visão que tinha de sua pátria e deu dicas do que visitar e de como se portar. Quando soube de onde vínhamos, sua primeira reação foi dizer que apesar de culturalmente tão distintos, brasileiros e indianos eram muito semelhantes em comportamento: ambos eram comunicativos, curiosos e solícitos. Adjetivos estes que se confirmaram durante nossa estada por lá.

(Momentos de fama: somos abordados por uma típica família indiana no Red Fort, Délhi. Foto: Eduardo B. Nion)
(Momentos de fama: somos abordados por uma típica família indiana no Red Fort, Délhi. Foto: Eduardo B. Nion)

O aeroporto Indira Ghandi da capital indiana é suntuoso, representando bem o estilo dos marajás com uma coleção de tapetes, afrescos e aromas. Mas foi só cruzar a saída para experimentarmos a quente e abafada espera pela época das monções. No táxi, a caminho do hotel, a melhor maneira de descrever a profusão de sensações seria o meu rosto boquiaberto e meus olhos irrequietos tentando coletar os mais distintos e concorrentes cenários.

(Anoitecer em Delhi. Observem os letreiros, o fluxo de carros seguindo o sentido britânico e os inúmeros tuk-tuks. Foto: Eduardo B. Nion)
(Anoitecer em Delhi. Observem os letreiros, o fluxo de carros seguindo o sentido britânico e os inúmeros tuk-tuks. Foto: Eduardo B. Nion)

Nosso hotel localizava-se no centro antigo de Délhi, em uma avenida próxima à estação de trens. E por uma semana este foi o palco da nossa observação do ritmo indiano, da maneira que as interações sociais ocorrem e dos hábitos dos citadinos, do céu pardo de Délhi e dos inúmeros pássaros que sobrevoavam a cidade.

Exploramos Délhi por uma semana. Impossível resumir em um único parágrafo tudo o que vivenciamos nesta cidade mas, se me coubesse dar apenas duas dicas a um interessado viajante, elas seriam: “use calças” e “explore!”.

A primeira, apesar de curiosa, o tornará menos destoante dos habitantes locais, já que é raro ver um indiano de bermudas e a justificativa é, para além de qualquer motivo religioso, garantir imunidade às variações bruscas de temperatura entre o calor de 50 graus na rua e o ar condicionado a 18 graus em qualquer veículo ou ambiente fechado.

Em relação à segunda dica, explorar Délhi lhe levará tanto a regiões medievais, tal como o Mercado localizado em Chandni Chowk, quanto a autoestradas e arranha-céus de primeiro mundo, como os de Noida. Além disso, nenhuma nação abriga uma diversidade religiosa de modo tão tolerante, permitindo-lhe refletir na sobriedade de alguma mesquita, sentar em meditação em algum templo budista, louvar a Deus em igrejas cristãs ou alegrar-se enaltecendo Krishna.

(Pássaros sobrevoando a famosa Fatehpuri Masjid. A mesquita dá acesso ao agitado mercado de Chandni Chowk. Foto: Tiago Silveira)
(Pássaros sobrevoando a famosa Fatehpuri Masjid. A mesquita dá acesso ao agitado mercado de Chandni Chowk. Foto: Tiago Silveira)

Ao explorador que já esteve em Londres, por exemplo, não será difícil reconhecer no centro de Delhi a Picadilly Circus, com a praça central alargada e seus vários estabelecimentos comerciais circunscritos. É claro que o estilo londrino é totalmente diferente do indiano. E como é! Portanto, não hesite em trocar os ônibus vermelhos por um passeio de tuk-tuk, a ordenada sinalização de pedestres por uma travessia despreocupada em meio a caóticas buzinadas. Imergir nos odores e sabores de uma civilização ao mesmo tempo atual e antiga.

(Tecnologia rudimentar contrastando com o imponente monumento em Humayun’s Tomb. Foto: Tiago Silveira)
(Tecnologia rudimentar contrastando com o imponente monumento em Humayun’s Tomb. Foto: Tiago Silveira)

Antes do nosso destino final, nos aventuramos para conhecer um pouco mais da incrível Índia: de táxi, percorremos 150 km até chegar em Matura, cidade onde nasceu Krishna há 5.000 anos, e que é hoje, um local onde todas as percepções vividas em Delhi são amplificadas – tal como o trânsito intenso e de fluxo alternado que esconde uma lógica atrás do caos.

Dali partimos para Agra, cidade que sedia uma das novas maravilhas do mundo, o Taj Mahal, onde destaca-se, mais uma vez, a engenhosidade matemática indiana em uma arquitetura tão simétrica e com o cuidado de talhar na pedra uma caligrafia que permite ao observador situado no solo driblar o efeito da perspectiva e enxergar todos os detalhes sempre no mesmo tamanho.

(Um dos portões do Taj Mahal. Atente para a caligrafia de tamanho uniforme ao longo da entrada. Foto: Tiago Silveira)
(Um dos portões do Taj Mahal. Atente para a caligrafia de tamanho uniforme ao longo da entrada. Foto: Tiago Silveira)

De Agra, cidade onde até hoje os inúmeros descendentes dos artesãos que construíram o Taj Mahal cativam os turistas com suas peças de artesanato – a propósito, a não ser que esteja a fim de negociar por horas a fio, evite dizer qual é a sua profissão no ocidente – partimos de trem rumo a Varanasi, um dos mais importantes celeiros espirituais da Índia. Percorrer a Índia de trem por 16h, acomodado em uma cama suspensa, respirando o ar condicionado gelado e o intenso aroma de curry, foi uma experiência única e excêntrica. Isso sem contar a multiplicidade étnica e social observada na multidão de uma estação ferroviária: iogues portando apenas tangas e cajados, carregando nos cabelos o pó da terra santa, enquanto da mesma composição desembarcam aristocratas acompanhados de suas esposas e filhas vestindo finos saris, que são vestes femininas tipicamente indianas, constituindo-se de uma peça única de tecido.

Em Varanasi, percebe-se que a espiritualidade está presente tanto nas coisas mais singelas – como no lótus que floresce na água parada ou lamacenta – quanto na grandeza do rio Ganges, onde se contempla o atestado da impermanência nos corpos jazidos a suas margens. Na mesma região encontra-se Sarnath, o local onde Buda Shakiamuni proferiu seus primeiros ensinamentos – conhecidos como “as quatro nobre verdades” – abordando a verdade sobre o sofrimento, sobre a causa do sofrimento, sobre o fim do sofrimento e ensinando meios para a extinção do sofrimento.

(Vista do Taj Mahal. Repare na simetria do mausoléu e de suas torres externas. Foto: Eduardo B. Nion)
(Vista do Taj Mahal. Repare na simetria do mausoléu e de suas torres externas. Foto: Eduardo B. Nion)
(Caminhada em Varanasi pelas margens do rio Ganges. Foto: Eduardo B. Nion)
(Caminhada em Varanasi pelas margens do rio Ganges. Foto: Eduardo B. Nion)
(Flor de lótus. No budismo, representa a transcendência do mundo ordinário para a iluminação, do lodo para a bela flor. Foto: Eduardo B. Nion)
(Flor de lótus. No budismo, representa a transcendência do mundo ordinário para a iluminação, do lodo para a bela flor. Foto: Eduardo B. Nion)
(Estátua do Buda em pé em Sarnath. A roda simboliza os ensinamentos do Dharma. Foto: Tiago Silveira)
(Estátua do Buda em pé em Sarnath. A roda simboliza os ensinamentos do Dharma. Foto: Tiago Silveira)

Seguimos, então, rumo ao nosso principal destino: Leh. O aeroporto de Leh está situado em um pequeno vale em meio à cordilheira do Himalaya. Impossível conter a ansiedade em aterrissar naquela terra das neves (e do pó, no verão) enquanto o avião, totalmente inclinado, descia em espiral. Confesso que a apreensão de ver o pico das altas montanhas quase ao lado da janela do avião passou apenas quando adentrei o aeroporto e fui recepcionado por um carinhoso Tashi Delek, cumprimento indiano, de uma oficial de imigração.

Arriscaria dizer que Ladakh, região da província de Jammu & Kashmir cuja capital é Leh, é uma extensão do Tibete na Índia. Para começar, possuem um idioma próprio e uma escrita que se assemelha muito ao tibetano. Além disso, a região concentra muitos monastérios budistas de linhagens antigas, sendo destino principal de estudantes budistas que dividem espaço nas pousadas com montanhistas.

O território da Caxemira ainda é palco de uma disputa territorial entre a China (Tibete), Índia e Paquistão, daí a razão de ser tão militarizado por diferentes grupos que, a princípio, convivem “amistosamente”. A fim de visitar alguns monastérios, adentramos a região e pudemos perceber uma intensa movimentação do exército indiano em marcar território na região tão disputada: estradas e pontes sendo construídas, torres metálicas reluzentes e ainda aguardando a instalação de linhas e antenas – indicando a quão pouco tempo haviam sido instaladas aí.

(Nubra Valley, na região do Himalaya. Foto: Tiago Silveira)
(Nubra Valley, na região do Himalaya. Foto: Tiago Silveira)
(Tibetana vestindo trajes típicos. Foto: Tiago Silveira)
(Tibetana vestindo trajes típicos. Foto: Tiago Silveira)

Sob uma perspectiva política, a realização de um evento da magnitude do 33º Kalachakra, com um público de aproximadamente 250.000 pessoas e com a presença de vários ocidentais, é uma maneira pacífica de chamar a atenção do mundo para esta região e de respeitar a história e os costumes locais acima de qualquer estratégia militar.
Concluímos nossa experiência pela Índia indo com o grupo ao Pangon Lake, lago situado na fronteira entre a Índia e o Tibete. Para chegar lá foram 5h de carro, em um gingado tão estonteante quanto às belas e vastas paisagens. O ponto alto da viagem, literalmente, é o passo Khardung La, a 5.359 metros de altitude, onde se pode tomar leite de iaque, apreciar a paisagem e, para os desprevenidos que embarcaram em Leh usando bermudas, tiritar de frio. Mais algumas horas de estrada e chegamos à fronteira entre a Índia e a Terra das Neves, o Tibete. Um local de inúmeras belezas e com uma vastidão que abarca todas as inesquecíveis experiências que tivemos na Índia.

(Presença do exército indiano na disputada região da Caxemira. Foto: Tiago Silveira)
(Presença do exército indiano na disputada região da Caxemira. Foto: Tiago Silveira)
("Treine com força, lute sem se esforçar". Foto: Tiago Silveira)
(“Treine com força, lute sem se esforçar”. Foto: Tiago Silveira)
(Pequeno café no passo de Khardung La, a 5.359m de altitude. Foto: Tiago Silveira)
(Pequeno café no passo de Khardung La, a 5.359m de altitude. Foto: Tiago Silveira)
(Descansando às margens do gélido Pangon Lake, na fronteira entre Índia e Tibete. Foto: Tiago Silveira)
(Descansando às margens do gélido Pangon Lake, na fronteira entre Índia e Tibete. Foto: Tiago Silveira)
(Hotel-acampamento nas imediações de Pangon Tso, a mais de 4.200m de altitude. Foto: Eduardo B. Nion)
(Hotel-acampamento nas imediações de Pangon Tso, a mais de 4.200m de altitude. Foto: Eduardo B. Nion)
(Bandeiras de oração às margens do Pangon Lake, na fronteira com o Tibete. Foto: Tiago Silveira)
(Bandeiras de oração às margens do Pangon Lake, na fronteira com o Tibete. Foto: Tiago Silveira)
(Monge tibetano posando para a foto, a caminho de Pangon Lake. Foto: Tiago Silveira)
(Monge tibetano posando para a foto, a caminho de Pangon Lake. Foto: Tiago Silveira)

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Este artigo foi escrito por Tiago Silveira, colaborador da seção Lugares no mês de dezembro de 2014.

 

 

 

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