Revista Mandala

Desafios na educação brasileira e a importância do vínculo na aprendizagem, por José Pacheco

O renomado educador português falou sobre paixão e comunicação biológica no II Congresso Internacional de Felicidade.

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Além de um senso de humor apuradíssimo, o pedagogo português possui também um conhecimento sobre vocação e missão que foge do padrão. José Francisco de Almeida Pacheco, mundialmente conhecido por seu trabalho a frente da Escola da Ponte, em Portugal, subiu ao palco do II Congresso Internacional de Felicidade para responder às perguntas dos participantes. “Eu adoro palestras”, disse ele. “Mas não vou fazer aqui o que eu não gosto de fazer em uma sala de aula”.

O pedagogo tocou em vários assuntos, desde vulnerabilidade social até a importância da solidariedade para o aprendizado eficaz, de acordo com que as pessoas expressavam suas dúvidas. A primeira participante a se manifestar perguntou o que José Pacheco veio fazer ao mundo. “Eu vim ser feliz!”, ele respondeu com entusiasmo.

Foto: Edmar Borges/Revista Mandala

Eu sou uma criança grande, porque depois que morre é a criança que fica.

Desafios na educação brasileira

Outra participante questionou José Pacheco sobre as falhas do cenário educacional do nosso país, o que abriu um leque de possibilidades para que o autor português apontasse não somente os problemas, mas também as qualidades da atuação pedagógica nacional. De acordo com ele, que teve relação próxima com o escritor e psicanalista brasileiro Rubem Alves, o Brasil é extremamente capacitado e já possui uma história forte e autossuficiente nesse sentido.

No entanto, ele abordou os aspectos que conduzem a educação brasileira a uma espécie de marasmo ou retrocesso. De acordo com José Pacheco, é possível identificar três síndromes básicas que estagnam o Brasil nesse sentido: a Síndrome do Vira-lata, que nos faz crer que o que vem de fora é sempre melhor e reduz a autoestima da população, a Síndrome de Gabriela, que nos coloca na posição de “ter nascido assim e ser sempre assim” (alusão à canção “Modinha para Gabriela”, de Gal Costa) e a “síndrome dos neos”, que ele disse ser a mais complexa, por envolver questões mais profundas como o neocolonialismo e o neoliberalismo. Sobre isso, ele lembrou que é preciso parar de fazer projetos para os outros e começar a desenvolver projetos com os outros.

Comunicação biológica: “nós aprendemos a partir do vínculo”

Cada um tem o direito de ser aquilo que é.

Apesar de não ter falado muito sobre a Escola da Ponte, que tornou-se referência mundial de educação por olhar para o conjunto a partir das individualidades de cada estudante, José Pacheco abordou de forma tocante e poderosa a importância da solidariedade nos processos de comunicativos e educacionais, estreitamente relacionados. Quando perguntado sobre como manter viva a criança interna, ele respondeu: “Paixão”. Para o dinamizador pedagógico, conhecido por desconstruir conceitos de aula e avaliação nas escolas, “paixão é estar em presente estado de encantamento”.

Entre histórias e descontrações, a mensagem deixada foi indescritivelmente certeira. José Pacheco entrou no aspecto da educação viva e transformadora quando contou a história de um de seus antigos estudantes que, certa manhã, atrasado para a classe, relatou ter passado dificuldades durante a noite com a irmãzinha que, nas condições de uma moradia sem energia elétrica, havia tido a orelhinha roída por um animal sem que a família pudesse perceber do que se tratava seu choro incessante até o dia amanhecer. “Por que você veio para a escola mesmo depois de tudo isso, como você consegue, como tem vontade?”, José Pacheco perguntou ao menino, ao que ele respondeu: “Você não sabe, professor? Vir para a escola é a minha maior alegria”.

Ninguém vive sozinho, eu só existo porque você existe.

Por isso, a transformação do espaço escolar, que vai muito além das provas e das classes, é tão importante. “Cada um tem o direito de ser aquilo que é”, disse José Pacheco, enquanto instigava um debate sobre a verdadeira solidariedade. “Minha liberdade não começa onde a sua termina, ela começa onde a sua começa”, ele recordou. “Ninguém vive sozinho, eu só existo porque você existe”.

Foto: Edmar Borges/Revista Mandala

A partir dos poderosos insights experimentados pelo público, José Pacheco apresentou o termo “comunicação biológica”. Em especial no universo pedagógico, é preciso exercer uma comunicação que não esteja centrada apenas em uma pessoa ou em quem supostamente “fornece” o conhecimento. Por isso, segundo ele, o aprendizado vem com o estabelecimento de um vínculo. Assim é possível “deixar de ser um objeto para ser um sujeito, e ao ser um sujeito passa a ser respeitado”.

Confira abaixo mais imagens do II Congresso Internacional de Felicidade que aconteceu neste final de semana em Curitiba:

Foto: Edmar Borges/Revista Mandala
Na entrada da Ópera de Arame, onde aconteceu o II Congresso Internacional de Felicidade, um mural estampava a belíssima arte que recebeu os participantes (Foto: Edmar Borges/Revista Mandala)
O Festival da Felicidade foi um evento gratuito que aconteceu em paralelo ao congresso. Além da II Feira Holística, os participantes puderam assistir a shows e ter classes gratuitas de yoga (Foto: Edmar Borges/Revista Mandala)
Em um enorme quadro negro, os participantes puderam escrever o que gostariam ou planejavam fazer antes de morrer (Foto: Edmar Borges/Revista Mandala)
Foto: Edmar Borges/Revista Mandala
O palestrante Eduardo Sperandio Nicz falou sobre a importância da espiritualidade na educação infantil (Foto: Edmar Borges/Revista Mandala)
Foto: Edmar Borges/Revista Mandala
Eduardo Sperandio, que atua na área dos negócios sociais com o projeto da Escola dos Anjos, conduziu uma atividade de expansão de energia ao final de sua participação (Foto: Edmar Borges/Revista Mandala)
Foto: Edmar Borges/Revista Mandala
Desde 2014, a Escola dos Anjos promove a conscientização de temas relacionados ao meio-ambiente, à alimentação saudável e à espiritualidade para jovens carentes de Curitiba e região metropolitana (Foto: Edmar Borges/Revista Mandala)

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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