Revista Mandala

Diga-me o que tu comes e eu direi quem tu és: yoga da alimentação e saúde integral

Quando o que passa pelo seu corpo define como você passa pelo mundo, estômago, cérebro e espírito estão no mesmo cardápio.

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A influência da alimentação na saúde do corpo não é exatamente uma novidade. Tanto a medicina ancestral quanto a medicina moderna já comprovaram a relação direta entre os nutrientes presentes nos alimentos e o fortalecimento do sistema imunológico, por exemplo, que previne doenças e revigora o corpo. No entanto, para o ocidente globalizado, a influência do que ingerimos na saúde da mente e do espírito é, sim, algo bem recente. E decisivo.

A Anna Yoga, ou Yoga da Alimentação, propõe justamente esse olhar crítico para a alimentação. Com o objetivo de integrá-la à busca da felicidade não só do corpo, mas também da mente e da alma, a prática sugere um questionamento sobre os hábitos alimentares e fornece uma série de informações sobre a comida e como ela pode ajudar cada pessoa que dela precisa.

Afinal, a paz é melhor quando é completa. E a alimentação não está apenas no organismo vivo que nos materializa, mas também na paz interna, onde o alimento reverbera. “Tanto o alimento físico quanto o emocional e o espiritual se transformam em prana, ou seja, energia vital”, afirma a instrutora de yoga Ana Maria Bittencourt.

Praticante de Anna Yoga há mais de vinte anos, desde que descobriu, enquanto cursava Economia Doméstica, os benefícios de uma alimentação mais equilibrada, a professora atualmente ministra oficinas de culinária ayuvérdica (nutrição indiana) e produz alimentos integrais em uma cozinha no seu espaço de yoga. Para ela, a relação com a comida precisa ser carinhosa, construída com afeto consciente tanto da parte de quem prepara quanto de quem ingere.

Ana Maria Bittencourt é adepta e instrutora da Yoga da Alimentação há mais de vinte anos (Foto: Cauan Lana)

Marcelo Gramignia, que há sete anos passou a se questionar sobre sua alimentação, inclusive sobre a ingestão de alimentos de origem animal, concorda. Ele acredita que “o alimento não é só físico, mas mental e emocional”. Além de perceber que podia encontrar tudo o que seu corpo precisava nos alimentos de origem vegetal, descobriu também que não precisava comer tanto. “Meus pensamentos são os alimentos mais poderosos que conheço”, ele conta.

Yoga, alimentação e vegetarianismo: entrada, prato principal e sobremesa

Registros históricos mostram que, há muito tempo, tradições ancestrais como as da Índia, do Egito e da América nativa possuem profundo conhecimento sobre a forma como os alimentos influenciam no bem-estar e na qualidade de vida. Esse tipo de questionamento, porém, só surgiu em grande parte do ocidente pós-industrial depois da popularização de práticas contemplativas como a meditação e a yoga, trazidas do outro lado do mundo por quem buscou lá algumas respostas.

Tanto é que a yoga tem sido o caminho de transformação do estilo de vida de muitas pessoas no mundo todo, em especial onde a prática está se tornando cada vez mais referência de autoconhecimento e desenvolvimento pessoal. Marcelo Gramignia e Carolina Azpiazu, por exemplo, começaram a oferecer oficinas e cursos que integram conceitos e práticas de meditação, yoga e alimentação em São José dos Campos, interior de São Paulo, depois que seus amigos e alunos de yoga pediram que eles ensinassem sobre o estilo de vida que levam.

“Certos alimentos são bons para o organismo humano e outros não”, diz Carolina, que começou a atentar-se para os alimentos que ingeria quando o pai faleceu em decorrência de um câncer e ela passou a se informar sobre a relação entre as doenças e a alimentação. “Mais tarde, isso me levou ao Yoga, onde um dos princípios para o praticante atingir a meditação profunda e se tornar um com o Divino é a não-violência”.

A instrutora Ana Maria também recorda o ahinsa, preceito ético (e eventualmente religioso) que pede um comportamento de não-agressão e sobre o qual Mahatma Gandhi edificou todo o seu trabalho político e social em vida. “(Em ahinsa) me baseio para compreender que os animais são seres que estão neste planeta para passar por experiências como nós”, conta a professora, que acredita que o consumo de carne torna os corpos tamásicos (com tendência à preguiça e à inércia). “Portanto, não estão disponíveis para servirem de alimento”.

É nesse ponto em que o veganismo para Carolina, tipo de alimentação do qual ela e Marelo são adeptos, se torna mais do que um estilo de vida. “Com essa consciência, a alimentação deixou de ser um simples sustento do corpo para se tornar fonte de vida e de paz para mim e para com os outros seres”, ela relata.

As correntes da alimentação de origem vegetal acreditam, em sua maioria, que o ser humano não convive em harmonia com outros animais quando provoca dor e morte com o objetivo de se alimentar. Por isso, sugerem a compaixão entre as espécies.

Comer é o melhor para poder crescer

De acordo com a lenda hindu de Annarpuna, a deusa da comida, Shiva disse, certa vez, que o mundo era ilusão, assim como a natureza, a matéria e até a comida. Ouvindo isso, Parvati protestou: “Se eu sou apenas uma ilusão, vejamos como o mundo será sem mim!” e desapareceu.

A partir desse dia, instaurou-se no cosmos tal desiquilíbrio e caos que o tempo parou, as estações estagnaram, a terra tornou-se estéril e a comida nunca mais foi vista em parte alguma. Deuses, demônios e todos os tipos de vida na Terra sofreram a dor insuportável da fome, e choraram como crianças enquanto lamentavam:

– Qual o sentido da Salvação se estamos de estômago vazio?

Então, Shiva soube que Parvati havia reaparecido em Varanasi, na Índia, e tratou de montar para ela uma cozinha especialmente equipada para o benefício do mundo. Brindando, ele se redimiu diante dela dizendo:

– Percebo agora que o mundo material, tal qual o espiritual, não pode ser menosprezado.

Assim, Parvati se reconciliou com Shiva e o alimentou utilizando suas próprias mãos. Desde então, passou a ser chamada também de Annapurna, a deusa da comida. De acordo com tradições ancestrais hindus, ela não come até que sua última devota e seu último devoto estejam saciados.

Shiva e Parvati (Imagem: autoria não encontrada)

Essa história serve para ilustrar a importância do alimento na vida humana. Por isso, é preciso ter muita atenção no momento de escolher uma dieta ou de ingerir novos alimentos. Nenhum texto encontrado na internet ou outro material de teor informativo substitui a opinião profissional de um especialista da área da medicina ou da nutrição.

A critério de referência, porém, correntes como a da medicina ayuvérdica trazem algumas curiosidades sobre a alimentação que se integra ao todo de cada pessoa. Ana Maria informa que cada um deverá seguir uma alimentação diferente, condizente com sua particularidade física, emocional e espiritual.

“Quem tem o corpo frio e seco deve se alimentar de comida caudalosa e quente”, ela sugere. “Os que têm corpo quente, de alimentos que refrescam e pouco picantes. E os que têm constituição pesada, de alimentos com pouca gordura, mais picantes e pouco doce”. Seja como for, a instrutora recomenda sempre os alimentos mais frescos e vivos o possível.

Alimentação rica em felicidade

“Quando comecei a vivenciar as mudanças na minha alimentação, percebi quanta vida e quanta paz essas escolhas me trouxeram”, relata Carolina. Ela e Marcelo estão cada dia mais certos de que optaram por um caminho verdadeiramente transformador. “E (percebi) como uma simples escolha podia me levar a sentir mudanças que superavam o que acreditamos como saúde”.

Para Marcelo, o que mais surpreende é a mudança de energia. “Até nossos interesses e objetivos vão mudando ao longo do tempo”, ele conta. “Se nos alimentamos de coisas que vêm de fontes de paz, vamos estar mais em paz, e para que exista paz é preciso que cada indivíduo esteja em paz. Se eu me conecto com a paz, estou trazendo paz para o mundo aqui e agora”.

E ele conclui: “Então, você percebe que é verdade o ditado ‘somos o que comemos’”.

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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