Revista Mandala

Do pó viestes

Muitos provavelmente já leram ou ouviram falar sobre uma ilustração do astrofísico Carl Sagan que nos aponta como feitos de pó de estrela. Para alguns, isso ainda permeia o campo da metáfora mais do que o científico. É por isso que entre o inexplicado e o comprovado, a Astrofísica e o estudo das relações entre matéria e não-matéria buscam a compreensão da rede única que conectaria todas as coisas do universo e eliminaria a dualidade viciosa do pensamento humano.

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Muitos provavelmente já leram ou ouviram falar sobre uma ilustração do astrofísico Carl Sagan que nos aponta como feitos de pó de estrela. Para alguns, isso ainda permeia o campo da metáfora mais do que o científico. É por isso que entre o inexplicado e o comprovado, a Astrofísica e o estudo das relações entre matéria e não-matéria buscam a compreensão da rede única que conectaria todas as coisas do universo e eliminaria a dualidade viciosa do pensamento humano. Mas, afinal, como seria possível que nossos órgãos, nosso sistema nervoso e toda a nossa estrutura orgânica seja oriunda de todos esses pontinhos brilhantes no céu?

Uma breve passagem pela Antiguidade

Há mais de dois milênios, em um tempo em que a Grécia estava envolvida pela explosão das correntes de raciocínio lógico e filosofia, Tales de Mileto (623 a.C. – 546 d.C.) passou a seu seguidor, Aristóteles, o que hoje é conhecido como Cosmologia de Tales de Mileto. Dentre outras qualificações, esse percursor da geometria analítica foi um filósofo, matemático e astrônomo nascido na cidade de Mileto e hoje considerado um dos Sete Sábios da Grécia Antiga. Todo o material físico produzido por ele foi perdido, mas Aristóteles se encarregou, em várias de suas obras, de repassar e comentar os pensamentos de seu falecido mestre acadêmico. No livro “Da Alma”, ele menciona a teoria de que a alma esteja conectada com todas as coisas que existem e conta que, para Tales de Mileto, tudo que há no universo teria origem em algo que poderia ser chamado de um único “princípio ativo” e, portanto, todas as coisas existentes estariam cheias de deuses (baseado nas crenças politeístas da época).

Os mais místicos não terão dificuldade, logo aqui, de entender do que se trata essa matéria. “É mesmo tudo uma coisa só, está tudo conectado… Sempre soubemos”, eles pronunciarão. Mas entenda porque estamos falando de uma possível concepção astronômica e, portanto, passível de lógica por a + b. Existe uma explicação para a possibilidade de todos os seres humanos, assim como toda a matéria na Terra, ter origem nas estrelas – e o que ela tem a ver com divindades depende de você.

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Somos literalmente estrelas?

Nossa paternidade estelar não seria, na verdade, uma teoria, mas a ilustração de um evento sugerida por Carl Sagan. Um dos maiores nomes da Física e da Astronomia contemporânea, o falecido Sagan foi percursor de um dos períodos mais intensos de divulgação científica da história, e, como ele deixou registrado (inclusive na série Cosmos, exibida em 1980 e refeita em 2014), a conta é muito mais simples do que você pode estar imaginando. Claro que para chegar à essa e outras conclusões desse campo foram necessárias dezenas de anos de estudos, experimentos e observações, sem falar na contribuição de inúmeros cientistas historicamente consagrados. Afinal, conhecimento se constrói por herança e continuidade. Mas vamos pelo atalho:

No início dos tempos, fez-se a luz. Vamos chamar esse evento de Big Bang. Soa familiar? Pois é. Nessa festa de arromba (literalmente), três coisas super importantes surgiram: o hélio, o hidrogênio e a gravidade. Essa última, por sua vez, fez com que os átomos das duas primeiras se comprimissem continuamente até formarem as estrelas. Mas ela continuou agindo, de forma que os átomos continuaram se comprimindo até provocarem estupendas e magnânimas explosões que deram origem a outros tipos de átomos (carbono, oxigênio, ferro, cálcio, etc) e, consequentemente, a tudo o que existe hoje, 23 de março de 2016, no universo (inclusive esse lugarzinho que se chama Sistema Solar).

Dessa forma, essa série de eventos fantástica e extremamente violenta deu origem também a tudo o que “veio” da Terra. Nós, seres humanos, inclusive. Afinal, a estrutura do nosso planeta e as formas de vida que o habitam são feitas do que havia antes, ou seja, estrelas que explodiram no que são chamadas supernovas, que, por sua vez, só foram possíveis com o Big Bang e a gravidade agindo sob os átomos de hélio e de hidrogênio. Conseguiu acompanhar?

Supernova são violentas e brilhantes explosões resultantes da morte de uma estrela de grande porte, ou seja, de aproximadamente 10 massas solares no mínimo. Apesar de magnânimas e colossais, não seriam sequer notadas na dimensão infinita do universo observável.
Supernova são violentas e brilhantes explosões resultantes da morte de uma estrela de grande porte, ou seja, de aproximadamente 10 massas solares no mínimo. Apesar de magnânimas e colossais, não seriam sequer notadas na dimensão infinita do universo observável.

 

Encurtando ainda mais o caminho, imagine o exemplo de um boneco feito de massa de modelar. A massa de modelar é feita de um material específico, composto por outros materiais. A invenção desses “outros materiais” é o Big Bang, a massa resultante dessa mistura são as estrelas, o artesão são as transformações químicas desse processo e o boneco modelado é a Terra. Se utilizarmos o boneco para derivar dele mais uma forma, aí estão os seres humanos, oriundos primariamente dos “outros materiais” e refinados a partir de todo um percurso de moldagem até ser o que é.

A matéria-prima da qual somos feitos, portanto, seria justamente o material das estrelas, nos monumentais e silenciosos eventos que acontecem dentro delas. Ou seja, somos todos feitos da mesma coisa que elas, somos sua obra-prima. Ou melhor, uma de suas infinitas obras-primas, pois, como disse Carl Sagan, “a vida é apenas um vislumbre passageiro das maravilhas que existem no universo”. Daí voltamos para a questão da divindade: você decide se isso tudo acontece por acidente ou não.

O importante é saber que você é tão estrela quanto Madonna e Leonardo DiCaprio.

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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