Revista Mandala

E se o campo fosse para a cidade e a cidade fosse para o campo?

O bem que a permacultura pode fazer para você e para o mundo vai muito além do que você pensava.

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Olhe ao seu redor. Qual a origem das coisas que você utiliza? Como sua casa foi construída? Como suas roupas foram costuradas, como é feita a distribuição de energia e água no seu bairro? Como você tem acesso a tantas coisas e como tudo isso é feito?

pexels-photo-240224Se você vive em uma cidade muito grande, as chances de não ter resposta para essas perguntas são enormes. Por outro lado, se você mora em uma cidade muito pequena, a total autonomia na distribuição e produção materiais pode gerar dificuldades de acesso a determinados bens, que são encontrados apenas nos centros urbanos.

Imagine, então, juntar o conhecimento do campo com as facilidades da cidade. Ou as facilidades do campo com o conhecimento da cidade. Seja como for, o resultado é uma transformadora conexão, um elo entre origem e destino, entre natureza e ser humano, entre vida e quem vive. Isso é permacultura e pode revolucionar a forma como você leva a sua vida.

rain-1563957_1280Cultura da permanência gerando qualidade de vida e reconexão

Não, permacultura não tem a ver só com cultivo agrícola. A palavra nasceu do conceito de agricultura permanente criado pelo cientista e ambientalista Bill Mollison e pelo ecologista e escritor David Holmgrem nos anos 1970, em uma Austrália que já se destacava por atitudes pioneiras na jornada da sustentabilidade.

Mas como explica Djalma Nery, fundador de um grupo de ação em permacultura no interior de São Paulo, percebeu-se que a filosofia de permanência aplicada à agricultura também se podia – e devia – ser aplicada a outras áreas da ação humana, como construção de casas e distribuição de água e de energia.

Por isso, permacultura é cultura + permanência.

holiday-1354563_1280“A permacultura é um jeito de organizar a vida”, diz Djalma. “É uma maneira que a gente escolhe para organizar o lugar onde a gente vive e propor uma reorientação material do nosso entorno. Ela serve para a gente se harmonizar com o ambiente em que vive, seja urbano, na sua casa, seja um bairro, uma ecovila, uma fazenda”.

Permacultura na cidade: isso é possível?

O Veracidade, grupo que Djalma fundou em São Carlos (SP), busca promover uma sensibilização das pessoas nas cidades para que elas olhem mais ao redor e percebam seu entorno. Com foco na permacultura e na agroecologia, Djalma conta que a organização espera contribuir para transformar a cidade em uma vitrine do pensamento cíclico, segundo o qual tudo tem uma origem e um destino final.

architecture-1601624_1280Djalma está convicto de que as cidades não só conseguem oferecer um espaço para atitudes de permacultura como também precisam (e urgente!) dessas intervenções.

E não só ele. Gabriela Klein, do Coletivo Permacultura Joinville, conta que existem várias formas de se praticar cultura da permanência nas cidades. A construção de hortas urbanas e de sistemas de captação de água da chuva, o hábito de produzir compostagem, os investimentos pessoais da comunidade em educação ambiental e a diminuição da quantidade de lixo produzida são algumas dessas maneiras.

brazil-1842205_1280“As metrópoles são lugares de extrema importância para ações ambientais, porque é aqui que tem maior quantidade de pessoas por metro quadrado, então ações de conscientização são muito eficazes”, Gabriela descreve. “A informação é uma grande aliada para ações nas cidades. É preciso saber o que já existe de movimentação e ações na região e em outros municípios para ter referência, para cobrar ou fazer você mesmo”.

A permacultura propõe meios alternativos, mas estratégicos e concretos, de se perceber e interagir com o espaço. É sobre permanência, sobre cuidado, sobre agir no presente com certeza de que no futuro os frutos serão colhidos. Por isso, a permacultura pode estar na construção de casas, na forma de se relacionar com a água, na produção de alimentos e até na formação social dos cidadãos de uma cidade. Seus modelos buscam romper com sistemas rudimentares e mecanizados como o agronegócio, a monocultura e a construção civil baseada em recursos não renováveis (como ferro e petróleo).

faucet-1684902_1280“Na cidade, somos reféns do abastecimento de água e energia convencional”, Djalma observa. “Se houver uma falha, quem tem captação de água de chuva em casa? Quem gera energia em casa? Por isso, apagões são afetam toda a sociedade. A dependência está centralizada em poucas fontes e se essa fontes deixam de existir acontece um colapso generalizado”.

A cidade possui dificuldades, mas é possível. Djalma acredita nisso e conta que as facilidades e os desafios de se praticar permacultura nos centros urbanos ainda são alvo de debates. “Porque, de fato, as cidades são mais engessadas, vivem numa estrutura específica de sociabilidade, de vida”, ele observa. “No entanto, elas reúnem muitas gente, muitos recursos, são o centro do desperdício e também das relações humanas, e isso dá um terreno muito fértil para criação, aproveitamento, ressignificação”.

tap-791172_1280“É isso que move a permacultura: reinserir na cadeia produtiva o que foi descartado como lixo”, Djalma diz.

A mágica da natureza é a mágica da integração

Em outras palavras, como Gabriela e Djalma apontam, a permacultura nos centros urbanos tem o poder efetivo e transformador de misturar campo e cidade, dois ambientes que coexistem mas cujos laços, infelizmente, têm se tornado cada vez menos estreitos. Unindo, porém, o que as descobertas da ciência e da tecnologia trazem para a vida diária a métodos tradicionais, como práticas de povos ribeirinhos, indígenas e quilombolas, as pessoas podem acessar uma nova perspectiva sobre os alimentos que comem, os espaços que habitam e até suas relações com os outros.

vegetables-1666623_1280“Um dos princípios da permacultura é integrar ao invés de segregar”, conta Gabriela. “Esse princípio já mostra a importância da união entre pessoas de diferentes opiniões, mas que estão ligadas por um propósito em comum. A permacultura tem princípios éticos e ecológicos como base e eles auxiliam muito nas relações entre as pessoas, porque respeitam cada ser de forma igual. E ela toca as pessoas através da prática, movimentando-as para mudanças”.

Muitas das práticas mais antigas foram, na opinião de Djalma, suprimidas pelo discurso moderno ocidental. Praticando permacultura na cidade, no entanto, ele espera que elas se tornem lugares resilientes e saudáveis. Afinal, a importância de se começar a “fazer cidade” de um novo jeito já é vista como fundamental para muitos especialistas na área de bioarquitetura e construção civil sustentável.

Reconectando-se com sua casa, seu prato e sua história

Olhe ao seu redor de novo. Dessa vez, tente se esforçar para tentar imaginar a origem das coisas que toca, da água que sai na sua torneira, da energia elétrica que permite o funcionamento do seu computador. Você participa desses processos de geração de bens de consumo? Você se sente conectado ao mundo dessa forma?

urban-205986_1280Para Djalma, o maior bem que a permacultura oferece ao mundo é sua capacidade de fazer com que as pessoas se tornem responsáveis pela sua vida material, se conectem com o mundo ao redor, tragam a prática da autonomia. Ele chama a atenção para algo perigoso que acontece. Perigoso e, de certa forma, ridículo: “as pessoas se tornam alienadas ao próprio mundo material do qual dependem, sobrevivendo graças a uma estruturação social onde a gente pode ter acesso a esses produtos e bens (que consumimos) com relação monetária, algum tipo de troca, e não porque a gente é capaz de prover as demandas”.

Por isso, tanto Djalma quanto Gabriela destacam a influência dessa forma alternativa de enxergar o ambiente nas suas construções de mundo atuais e na forma como se relacionam com o meio. “Permacultura pode contribuir trazendo essa autonomia, essa conexão prática, e foi isso que trouxe pra minha vida”, relata Djalma. “Uma reconexão, olhar para o entorno, ter curiosidade, uma desalienação na vida”.

balcony-box-1274462_1280No caso de Gabriela, a permacultura tornou-se um elo entre o mundo como ele é e o mundo como ela espera que ele seja um dia. “Para mim, permacultura é uma filosofia de vida e a esperança desse mundo”, ela conta. “É um modo otimista, motivador e divertido de encontrar soluções práticas e sustentáveis para o uso atuais não eficientes dos recursos naturais”.

E para ajudar sua comunidade com a prática de permacultura, basta começar. O Coletivo Permacultura Joinville, por exemplo, foi criado há mais de dois anos a partir de uma reunião informal. Hoje, o grupo desenvolve debates e diálogos sobre o tema, além de promover práticas na cidade do interior santacatarinense.

O conselho de Djalma é: reunir, conversar, fazer um plano e colocá-lo em ação. Não tem muito segredo, tem? Talvez o maior desafio seja compreender efetivamente como a permacultura é importante, para que haja dedicação constante. Mas quando você olhar em volta de novo, quando pensar mais uma vez sobre os elementos ao seu redor, vai entender o bem que faz estar conectado com tudo isso pelo conhecimento.

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Para quem planeja viajar de forma autossustentável e quer trabalhar com permacultura em vários lugares do mundo, a plataforma de turismo colaborativo Worldpackers está promovendo um debate sobre o tema e uma mapeamento de dados e possíveis contribuintes na prática. Confira aqui mais detalhes.

Edmar Borges

Um latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, graduando em Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto e vindo do interior de Minas Gerais. Você também me encontra no Obvious Lounge e no Medium Brasil.

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