Revista Mandala

Educação ambiental e consumo crítico deveriam ser sua prioridade neste século

Nós sabemos que esse tema afasta muitos leitores, mas é justamente sobre isso que precisamos conversar hoje.

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Você tem adquirido muitos bens materiais? Como é de se supor, tudo que vai, volta. Outra premissa física é que nada se cria, nada se perde, pois tudo se transforma. Isso significa que talvez você devesse responder à essa pergunta atentamente. De onde surgiu sua bolsa, seus sapatos, seu telefone? Que tipo de energia e material foram empreendidos para que você possa, neste exato momento, estar lendo este artigo na Revista Mandala?

nature-sky-twilight-grass-9198Ter um olhar amplo sobre como o planeta funciona é um desafio em tempos de tecnologia e crescimento populacional recorde. No entanto, o sistema, como diz seu próprio nome, é uma teia de organizações, eventos e leis naturais que se propaga na vida de cada ser vivo que habita o local onde ele acontece. Enxergar o mundo por esse ângulo é ter uma visão holística do seu andamento.

No entanto, sabemos que é difícil entender certos processos em meio a uma rotina diária de seleção de informações. Há muito o que processar, é verdade. Priorizar nunca foi tão urgente. Por isso, é preciso que escolas, instituições e organizações priorizem. Estamos cada vez mais perto de um colapso ambiental (em alguns lugares, ele já está ocorrendo) e, ainda assim, temas como educação ambiental e consumo crítico afastam a maiorias dos leitores.

Eles têm preguiça de falar sobre o futuro?

industry-sunrise-clouds-fog-39553Bom, se continuarmos assim, não precisaremos falar sobre o que não existe. É esse o raciocínio?

Não é o nosso. Por isso, conversamos com a gestora ambiental Camila Limberg, que é mestre em Liderança para a Sustentabilidade e trabalhou voluntariamente com crianças da 1ª à 7ª série na Bulgária enquanto buscava aprimorar-se como educadora. Para ela, não há dúvidas de que a tecnologia não é capaz, sozinha, de nos levar por um caminho seguro e saudável: é preciso haver também criatividade, criticidade e um pensamento holístico, voltado para a saúde integral do planeta e seus habitantes. Confira nosso papo mais que bom:

Revista Mandala: Por que precisamos obter o tipo de consciência que gera uma reflexão ambiental? Você acredita que essa reflexão é mais frutífera quando acontece já na infância?

Camila Limberg: Ao mesmo tempo em que essa consciência já existe, ela ainda é afogada por um sistema capitalista e globalizado, que nos coloca em um ciclo competitivo de consumo desenfreado, que criou um estado de felicidade dependente e superficial. Nesse ciclo parece haver apenas uma pequena porta de entrada para que se pense nos impactos da produção, do consumo e do descarte de tudo que faz os olhos brilharem nas vitrines e nas mãos do outro.  Mas se existe o consenso sobre os riscos desse sistema à nossa sobrevivência e ainda assim é tão difícil o desapego do consumo, onde está de fato o problema?

Acredito que o problema consiste na visão superficial que a população, de forma geral, adquiriu da situação. Aquelas velhas informações transmitidas que não colocam as pessoas a pensarem, refletirem, criticarem…são só mais “tralhas” esquecidas pelo meio do caminho até o shopping. Saber que uma bolsa bonita, que consumiu inúmeros recursos naturais e que, desde a sua fabricação até chegar às suas mãos e até quando descartada, possivelmente de forma errada, causará sérios impactos ao meio ambiente não é, necessariamente forte o suficiente para vencer o ímpeto de ter algo mais fashion, bonito, elegante e versátil e por um preço irrisório em suas mãos. Porém se essa mesma pessoa que recebeu essa informação fosse incentivada ou tivesse aprendido a analisar o sistema econômico em que ela está inserida, entendesse o funcionamento geral do ecossistema e suas interdependências e, até mesmo fosse desafiada a pensar e buscar soluções diferentes, sua decisão de compra seria mais ponderada e consciente, de forma a minimizar os impactos ao meio ambiente e à sociedade.

stairs-906720_1280Ou seja, o planeta Terra, um habitat globalizado e capitalista, precisa ter sua dinâmica repensada e para isso precisamos da ferramenta educação, que trará um conteúdo e uma visão holística e crítica que poderão ser mais fortes do que a avalanche de informações que chegam com vieses direcionados a interesses particulares. Nesse sentido, não se trata de ser uma discussão mais frutífera na infância ou na vida adulta, mas se trata do quão “viciada” já está a visão de um adulto e do quão moldável e liberta está a visão de uma criança. Trata-se também do quão vulnerável estamos à “lavagem cerebral” feita diariamente pelas diferentes mídias e redes sociais.

Nesse sentido entra a educação ambiental como uma forma de educação que interliga os saberes de um individuo que é um ser biológico, social, cultural e físico, que ocupa um espaço geográfico compartilhado. Essa visão, no adulto, é construída como uma colcha de retalhos que terá alguns furinhos e rasguinhos pelo caminho, que são os comportamentos intimamente arraigados no indivíduo, sua cultura e daqueles que estão à sua volta e etc. Já na criança, essa visão holística é uma colcha sem costuras, ela é “fabricada” de forma inteira, sem cortes, ou seja, desde cedo a criança recebe as informações pautadas na visão dela como cidadão e ser vivo inserido em um meio ambiente que além de seu habitat, é também um espaço socialmente construído.

pexels-photo-235615Como foi sua experiência com educação ambiental na Bulgária? Depois dela, como você passou a enxergar os desafios de se conscientizar sobre meio ambiente e cuidado com o planeta?

Minha experiência profissional me mostrou o quanto é difícil que uma informação que você transmite seja capaz de mudar hábitos e culturas. Não importa quantas vezes eu diga e mostre com imagens, números e etc, a uma pessoa, a importância de se repensar seu consumo, reduzir, reusar e reciclar. Ainda assim a propaganda da TV, que mostra o novo iPhone que além de ter apenas uma ou duas pequenas melhorias quase que imperceptíveis ao usuário, ele te trará mais status e respeito dentro da sociedade, terá mais voz do que todas aquelas horas e esforço que eu investi na transmissão da informação. Durante esse período pensava muito no quanto de Paulo Freire faltava eu colocar nos meus treinamentos para engajar as pessoas. E foi então que percebi mais claramente a diferença entre educação e informação.

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Camila realizou voluntariado na Bulgária, onde trabalhou com crianças da 1ª à 7ª série e pôde conhecer melhor suas realidades sociais e ecológicas (Foto: acervo pessoal de Camila)
Camila realizou voluntariado na Bulgária, onde trabalhou com crianças da 1ª à 7ª série e pôde conhecer melhor suas realidades sociais e ecológicas (Foto: acervo pessoal de Camila)

Por isso busquei participar de um projeto voluntário no qual eu pudesse ter uma experiência e um aprendizado de como me tornar uma educadora, e não mero canal de comunicação. Como admiradora e crente do importante trabalho de Paulo freire, me muni dos princípios necessários para nortear meu trabalho. E à medida que busquei transmitir conhecimento e extrair certa criticidade e criatividade na construção da visão holística que cada indivíduo deveria ter (esse era meu objetivo), percebi a importância de provocar essa situação, deixar fluir o raciocínio, sem dar as informações “mastigadas”. As crianças, em sua inocência, deixam facilmente fluir sua criatividade , sem importar muito se uma ideia é “aceitável” ou não, e é exatamente isso que além de criar sementes para soluções incríveis, torna também os debates mais interessantes. É disso que precisamos, que a criticidade, o pensamento holístico e a criatividade nos levem a caminhos aos quais a tecnologia não pode nos levar sozinhos.

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Fotos: acervo pessoal de Camila Limberg

Qual é, na sua opinião, o grande desafio de se conscientizar para o meio ambiente?

Acredito que não está apenas na moldagem rígida que a sociedade atingiu hoje, e no pensamento linear e estrito no qual um interlocutor envia informações e o receptor as absorve, além da avalanche de informações superficiais e pautadas em interesses individuais capitalistas. O grande desafio está em abrir espaço a um pensamento crítico dentro de um ambiente flexível e imerso em uma visão holística de meio ambiente, sociedade, cultura e espaço geográfico. O desafio também não é apenas tornar essa forma de educação homogênea ao redor do globo para as novas gerações (que já é um desafio e tanto), mas também quebrar os paradigmas das gerações anteriores para que eles possam sim se tornar parte da mudança.

pexels-photo-287229Qual é a diferença de se pensa sobre educação ambiental já na infância e por que isso deveria acontecer nas escolas? Você acredita que o mundo poderia ser um lugar diferente daqui alguns anos caso isso acontecesse?

Diversos estudos científicos discorrem sobre a maior facilidade e efetividade de aprendizado na infância e, além das comprovações cientificas e análise fisiológica do aprendizado, pude perceber na prática o quão fluído, forte e perene é o aprendizado nas crianças, que são muito mais espontâneas e livres, sem necessidades de “sobrevivência” em um mundo profissional, ou em uma sociedade, medindo o que pensam e com agem. Elas têm menos “filtros” que julgam e bloqueiam as informações, absorvendo-as de forma genuína. É mais fácil plantar uma semente em um buraquinho que está aberto, com uma terra soltinha, livre de contaminantes, que vai deixar a água, os nutrientes e os microrganismos caminharem livremente pra deixar aquela raiz crescer do que plantar uma semente em uma terra que já foi contaminada com diferentes produtos químicos, que está cheia de pedras que dificultam a passagem de água e microrganismos e barra também o crescimento das raízes.

pexels-photo-221485À medida que vamos construindo uma sociedade com essas raízes mais fortes e livres, atitudes mais conscientes, menos influenciadas e criativas vão tomando espaço, permitindo uma evolução e desenvolvimento mais sustentável. Por isso acredito e defendo a educação socioambiental desde cedo, nos moldes do genial Paulo Freire, ou seja, uma educação holística, critica e criativa.

Mas por que, afinal, você acredita que não há interesse global na elaboração de planos de controle ambiental sérios e eficazes? Nesse mesmo caminho, você acredita que há uma justificativa para a educação ambiental não ser do interesse do sistema educacional como um todo?

À medida que a humanidade foi percebendo a urgência da questão ambiental, os países ricos e desenvolvidos, que têm uma população muito bem educada e engajada, passaram a se mobilizar no sentido de que suas atividades fossem realizadas de forma mais sustentável, o que inclui os cuidados com o meio ambiente. Mas esses cuidados geram custos, em melhores práticas, profissionais qualificados, equipamentos, soluções para mitigar impactos e etc. Isso impulsionou as organizações a buscarem minimizar seus custos em países subdesenvolvidos, onde além de não haver tantas exigências legais e fiscalização em relação ao tema, a questão evolui muito lentamente, uma vez que a educação nesses lugares é muito precária. Ou seja, para manter as rédeas da proteção ambiental frouxas e atrair investimentos externos, que são dissipados com corrupção, é preciso manter a população ignorante, impedindo que haja engajamento e força na direção de mudanças que tornariam a “volta pra casa” das grandes organizações uma proposta tentadora, uma vez que os custos de uma produção ambientalmente correta também aumentariam “fora de casa”.

road-street-desert-industryMinhas experiências no exterior, tanto em um país paupérrimo como a Bulgária, como em uma país rico como a Suécia, onde em ambos encontrei bom nível de consciência ambiental, me mostraram que o Brasil está muito atrasado em relação à educação ambiental e, justamente, porque somos um país provedor de quaisquer recursos (água, minério, biodiversidade…), sem desastres naturais e tão atrasado em relação à educação ambiental que, nem mesmo o lindo arcabouço legal que temos consegue impedir a destruição, pois a corrupção e a ignorância da população, somadas, deixam as poucas cabeças pensantes como formigas lutando contra gigantes.

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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