Revista Mandala

Empoderamento e sensibilidade: você sabe o que é uma doula?

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As doulas são responsáveis pelo acompanhamento da futura mãe durante todo o processo de gestação. Reconhecida pela Organização Mundial da Saúde, a profissão traz benefícios comprovados para as gestantes e, claro, para a criança que está a caminho. Mas muito além disso, possibilita que a mulher seja dona do seu corpo e de sua história.

Mais do que profissionais, as doulas são mulheres. E mais do que uma escolha, ser doulada é um ato de amor a si mesma e ao bebê, garantindo que ele terá mais do que o suporte técnico para o bom nascimento. Isso porque as doulas são treinadas e desenvolvem-se sobre o pilar do afeto e da observação. Não se trata simplesmente de uma mulher contratada para vigiar a gestação. Muito pelo contrário: as doulas não restringem, não controlam, não inspecionam. Elas zelam. E a grande diferença de uma doula para um profissional da obstetrícia é que elas não trabalham com diagnósticos ou exames técnicos a não ser que tenham formação em medicina. Seu segmento é outro: deixar que o processo natural da gravidez flua, que tanto a mãe quanto o bebê possam contar com um “suporte extra” ao se prepararem para a nova etapa de suas vidas.

“A doula é uma amiga”, descreve Rafaella Souza, doula mineira que conheceu a profissão em 2014 durante o Encontro Latinoamericano de Mulheres (ELLA) em Belo Horizonte (MG). “Ela transmite para a gestante as informações e os materiais necessários para que ela e o(a) companheiro(a), se houver, façam as melhores escolhas nos âmbitos da saúde e bem-estar da mulher e do bebê que virá”, ela conta. Além disso, ressalta que a doula deve estar preparada e se atentar ao seu papel de coadjuvante nesse momento, se abstendo de concepções pessoais que possam interferir no seu profissionalismo e para “incentivar o empoderamento da outra mulher, para que o trabalho de parto e a maternidade sejam uma realização e não uma frustração”.

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Benefícios

Muitos estudos, em sua maioria recentes, apontam as vantagens de se receber o acompanhamento de uma doula durante a gestação. Dentre os benefícios apurados, os mais significativos são a redução de 50% nos índices globais de cesariana, a redução de 60% nos pedidos de analgesia (procedimento anestésico) e o aumento da eficiência da amamentação.

Camila Lima, mãe de Maria Clara, Anahi e Dandara, se inspirou em sua própria experimentação desses benefícios para também exercer a doulagem. Atuante no momento em Porto Alegre, onde a classe luta pela aprovação da Lei das Doulas, Camila conta que o seu segundo parto, acompanhado por uma doula, mudou a sua vida. “Uma doula se dispôs a me contar que era possível, a me apresentar esse mundo novo onde a mulher é dona do seu corpo e do seu parto, e onde a doula é esse agente de mudança”, ela relata.

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Quando perguntada sobre a importância da doulagem e da relação mãe-filho que se desenvolve antes e durante o parto, Camila conta que, para ela, “os bebês sentem tudo que nós, enquanto gestantes, sentimos. Nossos medos, angústias, dúvidas… assim como nossa segurança e nossa alegria. O parto é da mulher, o nascimento é do bebê, mas a mecânica é uma só. É um trabalho em dupla, trabalho físico e mental, trabalho de hormônios, juntos”.

Rafaella também observa a forte conexão entre a mulher e seu bebê, especialmente durante o nascimento. “O parto é o encontro da mulher com o que ela tem de mais irracional, selvagem, intenso”, diz. “E é pelo privilégio de poder ver e entender esse momento que eu sou doula. Não existe nada como ver uma mulher parindo”.

Os desafios de um sistema de saúde patriarcal

“Não dá para falar do trabalho das doulas sem falar de violência obstétrica, SUS, feminismo e patriarcado”. Essa foi a primeira declaração de Rafaella sobre a sua profissão, que ela defende com orgulho e consciência em detrimento da sustentação de um ambiente de risco no qual muitas mulheres se descobrem durante a gestação. “A cena do parto hospitalar que temos foi construída por homens, homens que biologicamente não sabem o que é parir. Uma mulher empoderada, ciente dos seus direitos e das recomendação da Organização Mundial da Saúde, costuma ser um problema nesses ambientes”.

Uma pesquisa realizada pela Fiocruz aponta que o índice de partos cesarianos realizados pela rede de saúde privada no Brasil chega a 88%, quase seis vezes o índice recomendado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) – 15%. Pelo Sistema único de Saúde (SUS), a diferença não é significativa – apenas 48% dos partos são naturais. Além disso, de acordo com uma pesquisa da Fundação Perseu Abramo divulgada em 2014, uma em cada quatro mulheres sofre de violência obstétrica no país durante o parto. Restrição de companhia, ordem de jejum desnecessário e até contenção física da mulher estão entre as atitudes mais comuns em um caso de abuso.

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Camila não tem dúvidas de que esse cenário é preocupante. Seus relatos expressam a importância de sua experiência ao ser doulada em sua segunda gestação, quando ela entendeu a necessidade de uma presença feminina, encorajadora e intimista. “Em um hospital, são muitos os donos dos nossos corpos”, ela revela.

Para Rafaella, a sustentação dessa realidade vem de contextos abrangentes e tem raízes sutis na sociedade. “Quando assistimos a partos nas novelas, a cena que apresentam é de sofrimento, de dor e mais… A cirurgia que chamamos cesárea é mostrada como o melhor meio de ter um bebê. Essas imagens impregnam na mente das mulheres há anos”, ela comenta, observando que muitas vezes o médico clama por protagonismo em uma história que não é só dele.

O carinho como protagonista

Apesar da recomendação de que as doulas devem se abster do protagonismo durante a gestação da cliente, a verdade é que, em determinado momento, não se trata simplesmente de uma cliente. São mulheres unidas e dispostas a crescerem juntas durante aquela experiência. Isso torna o afeto o principal personagem.

Sobre a importância da doula no seu segundo parto, Camila conta que não sabia o que fazer, mas não precisou descobrir sozinha. “Ela (doula) com maestria me sugeriu banho de chuveiro na hora certa, massagem, música, bola, cama pra descansar… Ela me cuidou, abraçou, fotografou, salvou uma canja e me deu segurança. Minha doula salvou o ambiente, desligou o som quando pedi, me deu a mão pra eu apertar, foi papparazzi sem que eu nem percebesse”.

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“As mulheres passam a outras tudo o que vivenciaram na maternidade”, Rafaella aponta. “E quando estão informadas, sabem exatamente as violências obstétricas que sofreram, os momentos em que se sentiram roubadas em seu processo e isso é, sim, uma forma de cuidarmos umas das outras”.

O próprio fato de uma doula reconhecer sua pequenez diante da vivência na qual aquela mãe e aquele bebê estão tão profundamente envolvidos, algo tão imenso e mágico quanto um nascimento, a torna perfeita para o papel que precisa ser exercido. A doula segura na mão da mãe e faz com ela uma travessia maravilhosa e assustadora. Não é um papel de figuração: é o pilar de uma passagem, a anfitriã de uma nova história que dá as boas vindas com dedicação, respeito e consciência.

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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