Revista Mandala

Entrevista – Terapia de regressão: mitos e verdades

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Os primeiros registros sobre a aplicação da hipnose e regressão são muito antigos e recaem sobre o Egito, nos experimentos da câmara do sono. Em meados do século 18, essas técnicas emergiram através do médico Franz Anton Mesmer, condenado pela classe científica por usar de muito misticismo no processo de cura. Em 1842, outro médico, James Braid, criou o termo hipnotismo, que se referia ao procedimento de indução ao estado hipnótico. Contudo, muito do que vemos atualmente sobre hipnose faz conexão com o psiquiatra e especialista em terapia familiar sistêmica Milton Erickson, considerado o pai da hipnose por tratar com sucesso uma infinidade de casos. Erickson dizia que todas as pessoas são hipnotizáveis, pois a hipnose utiliza os recursos que cada paciente possui.

Contudo, a técnica pode ser o início de um caminho favorável para solucionar questões pessoais se aliada à terapia de regressão que, segundo o terapeuta Murillo Cezar Cucatto, consiste em  identificar momentos traumáticos do passado que afetam sistematicamente o presente da pessoa, a impedindo de ter qualidade de vida.

A Revista Mandala conversou com o terapeuta, que utiliza a técnica da hipnose há mais de 16 anos para melhoria da qualidade de vida, na educação e na área empresarial. Bacharel em Economia, Cucatto é pós-graduado em Pedagogia da Programação Neurolinguística Sistêmica com Qualidade de Vida, Master em Hipnose Clínica e Master em Programação Neurolinguística (PNL). Atualmente é docente do Módulo de Hipnose na Pós-graduação em Programação Neurolinguística do Instituto Educacional de Bem com a Vida e docente da Disciplina de Práticas em Terapia Regressiva no Instituto de Parapsicologia Namaskar, em Joinville-SC.

Terapeuta Murillo Cezar Cucatto
Terapeuta Murillo Cezar Cucatto

Revista Mandala – Você poderia dar exemplos de traumas que são geralmente referidos nos atendimentos de terapia regressiva? Como eles são identificados na sessão?

Não são necessariamente traumas, mas sim momentos traumáticos, como acidentes, perdas, abusos, gravidez não esperada, crises de relacionamento, problemas financeiros na infância. Todos os problemas de origem psicossomática podem ser tratados com a terapia regressiva⁠⁠⁠⁠, assim como a ansiedade, depressão, enxaqueca, fibromialgia, sentimentos de não-pertencimento, fobias, transtorno obsessivo compulsivo entre tantos outros. A identificação dos momentos traumáticos se dá pela própria pessoa, quando ela acessa as memórias traumáticas durante a regressão.

E você poderia falar sobre como se dá esse acesso às memórias?

Através do transe hipnótico ou estado alterado de consciência, pelo fenômeno conhecido por hipermnesia, ou seja, ampliação das memórias.

Como ocorre esse fenômeno?

Assim como na meditação, o princípio fundamental para se obter o estado alterado de consciência é o da concentração. Todos os processos buscam essa atenção focada, que pode ser na respiração, em um relaxamento fracionado, olhar em um ponto fixo etc. Esta concentração faz com que, aos poucos, deixemos o que acontece no exterior e voltemos nossa atenção para dentro de nós. A ciência ainda não sabe porquê o fenômeno ocorre, mas sabe que através dessas técnicas se reduz a frequência cerebral, o que explica o fenômeno do transe.

E quais seriam essas técnicas para estimular a concentração? Todas as pessoas podem chegar nesse estado?

Existem várias técnicas, as mais utilizadas são as de relaxamento, porém algumas pessoas não obtém êxito, pois têm dificuldade de relaxar e se concentrar. Nestes casos, se utilizam técnicas de indução hipnótica, tanto as clássicas como as conversacionais, ou seja, as ericksonianas.

Você poderia falar um pouco sobre essas técnicas?

As técnicas de indução de hipnose clássica são mais diretas, sendo que a linguagem utilizada é baseada, como por exemplo, na fixação do olhar, no uso do pêndulo…  São técnicas mais antigas e o único objetivo desse processo é fazer com que a pessoa tenha uma concentração de atenção e desta forma possa entrar no estado alterado de consciência. As técnicas mais modernas, como as ericksonianas, que são realizadas através da conversa, são menos persuasivas e têm o mesmo objetivo de produzir esse estado ampliado de consciência. Assim, são menos incisivas e autoritárias, são diferentes daquelas aplicadas em shows e em palco.

Qual a diferença entre a hipnose e regressão?

As técnicas de hipnose são para obter o estado ampliado de consciência e as técnicas de regressão são mais utilizadas de maneira terapêutica, a fim de recordar as memórias esquecidas. Dentro da hipnose existem muitos mitos, como ser possível perder a consciência, ficar inconsciente, porém algumas pessoas confundem consciência com inconsciente, que é mais no sentido de subconsciente. O processo de indução hipnótica ajuda a própria pessoa a acessar o subconsciente dela e encontrar as respostas, então a questão de que vai ficar sob domínio da pessoa que está fazendo hipnose é um mito. Muitas pessoas têm medo de perder o controle, de estar sendo controladas pelo outro, até porque nós vemos isso na televisão e em demonstrações. Mas quando vamos para o lado terapêutico não existe essa conotação.

O cliente sempre consegue acessar a questão-chave do problema?

Normalmente a pessoa consegue acessar, mas nem sempre no momento em que o terapeuta ou ela mesma quer. Então, muitas vezes, são necessárias mais sessões, é preciso olhar para situações diferentes que levaram à causa daquele problema e às vezes  essa problemática não é aquela que a pessoa traz racionalmente ao consultório. Mais de 95% das pessoas acessam essas informações, o restante acessa de uma forma mais metafórica, lúdica, o que racionalmente é mais difícil de compreender tanto pelo terapeuta quanto pelo paciente. Como trabalhamos com o subconsciente, o problema em questão pode se dissolver sem que a própria pessoa tenha consciência de como ele foi solucionado.

Quando surge algo metafórico, mesmo assim a pessoa já percebe uma mudança ao final da sessão ou esse processo leva mais tempo?

As duas coisas. Por isso que é recomendável existir um intervalo entre uma sessão e outra, pois no decorrer da semana a pessoa vai sentindo as transformações. Muitas vezes ela sai percebendo as mudanças, outras vezes não, mesmo que elas ocorreram. Também pode acontecer de a pessoa estar sendo preparada para acessar essas informações em uma próxima sessão. A gente só vai ter a resposta quando o cliente for para o campo de batalha, ou seja, no dia a dia, e não no ambiente do consultório.

Poderíamos dizer que possuímos alguma sabedoria que faz com o que determinadas respostas surjam gradativamente, a fim de que não soframos tanto no processo de mudança?

Isso varia de pessoa para pessoa, por isso a informação surge de forma mais simbólica e a pessoa não consegue compreender racionalmente determinada questão, mas pelo subconsciente ela foi trabalhada. Muitas vezes, realmente, a pessoa não está preparada para assimilar algumas situações mais traumáticas, então à medida que as sessões vão acontecendo o cliente vai sendo preparado, mesmo fora do consultório, seja através dos sonhos, das intuições… é como um quebra-cabeça que vai sendo montado.

Você poderia dar um exemplo de como se dá essa linguagem simbólica?

Uma cliente chegou ao consultório com os braços cobertos em pleno dia de calor. Quando perguntei o que a trazia ali, ela arregaçou as mangas e mostrou os braços muito machucados e marcados, pois ela costumava arrancar a pele. Na primeira sessão, após uma hora, ela disse que não se lembrava da última vez que ficou sem arrancar a pele por tanto tempo. Na segunda sessão fizemos uma regressão, mas não identificamos nada que, aparentemente, tivesse relacionado com o problema. Dias depois, falamos por telefone e ela contou que repentinamente teve uma recordação de que sua mãe havia perdido um filho antes dela. Então, a paciente foi conversar com a mãe, que disse que a criança nasceu praticamente morta em decorrência da rubéola que a mãe sofrera e que o bebê tinha feridas no corpo muito parecidas com as feridas que tinha nos braços. Depois disso, a paciente simplesmente parou de arrancar a pele. Nas três sessões seguintes, ela comentava que estava muito feliz de não estar mais se machucando. Nesse caso, a paciente conseguiu sozinha, fora do consultório, ter os insights necessários para acessar a solução.

Qualquer pessoa pode se tornar um terapeuta de hipnose e regressão?

Acredito que qualquer pessoa pode se tornar o profissional que desejar. Precisará, para isso, se dedicar, estudar e buscar os devidos conhecimentos. No processo terapêutico são duas almas, são duas energias que estão em contato para um benefício maior, mas exige da pessoa uma certa dedicação e envolvimento no sentido humano. O protocolo é aparentemente simples, mas possui muitas variáveis e é preciso estar preparado no momento em que ocorre a regressão para que o cliente consiga resignificar o caminho, para que possa juntar essas peças.

Você está preparando uma formação em Terapia Regressiva com Hipnose e PNL, que terá início em junho. Como será o curso?

A formação visa a entregar essa preparação, pois dentro do processo de regressão são necessárias técnicas para obter o estado ampliado de consciência, então temos que identificar a melhor técnica para cada pessoa. Como dizia Milton Erickson, todas as pessoas são hipnotizáveis, mas cada uma exige uma técnica diferenciada. A formação vai oferecer esse conhecimento, assim como permitir o entendimento de doenças psicossomáticas e psicopatologias, através de um conhecimento mais geral, até no sentido de promover uma aproximação entre terapeutas, médicos e psicólogos para que todos sintam a necessidade de se trabalhar em conjunto, pois há uma grande responsabilidade nesse processo. Em outro módulo, vamos estudar como a genética influencia as doenças psicossomáticas e como podemos retirar esse peso da  através da epigenética e não considerar que toda doença genética não tem possibilidade de ser transformada. Depois de tudo isso compreendido, estudaremos a Programação Neurolinguística que é muito importante no processo de neuro aprendizagem. Por fim, temos o estágio supervisionado para que os alunos possam ter mais segurança neste trabalho.

Para mais informações sobre o curso, acesse o site http://cursos.hipnoseeregressao.org/rtg/

 

Maiana Antunes

Fundadora, jornalista e editora da Revista Mandala.

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