Revista Mandala

Especialista florestal revela que as árvores também têm seu próprio mundo

Peter Wohlleben escreveu um livro sobre a vida secreta das árvores e revelou que elas podem ser muito mais preparadas que os humanos para a convivência.

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Não é de hoje que a natureza surpreende a espécie humana com revelações e ensinamentos que indicam seu perfeito equilíbrio. O conhecimento humano sobre o funcionamento de tudo o que há no planeta é assumidamente limitado. Além disso, o mapeamento científico, que busca identificar os segredos ainda escondidos nos mares, nas selvas e nos céus, pode ser uma tarefa em constante e eterno andamento.

Vestígio disso são as descobertas do especialista em árvores Peter Wohlleben. Ele, que também é guarda-florestal há mais de vinte anos, passou muito tempo não só cuidando de árvores, como também selecionando-as para o corte. Mas esse foi o caminho que o levou a perceber, a partir da observação de como elas se ajeitavam na natureza e da forma como cresciam, o quanto era óbvio que havia, entre essas anciãs da terra, um forte senso de cooperatividade.

(Foto: Reprodução/Gordon Welters/NY Times)
(Foto: Reprodução/Gordon Welters/NY Times)

A partir de então, várias certezas antigas de Peter sobre a vida das árvores foram abaixo e suas novas conclusões deram origem ao livro The Hidden Life of Treesonde ele narra suas experiências de descoberta (o título traduzido é “A vida secreta das árvores”, mas ainda não há uma edição brasileira do livro).

De acordo com os estudos de Peter, as árvores constituem, de fato, comunidades. Durante muito tempo, ele acreditou que elas fossem estritamente competitivas, que buscavam luz e espaço independente do quanto isso afetasse as demais ao redor. Hoje, ele aposta no contrário: elas se ajudam. Por meio de sinais elétricos transmitidos pelas raízes, por exemplo, elas podem se comunicar umas com as outras, trocar informações sobre a vegetação, o relevo e os riscos iminentes do local (como insetos, animais e a própria intervenção humana). Além disso, Peter acredita, com base em estudos, que os fungos no solo transmitem sinais químicos de uma árvore para outra.

baumstammm-391332_1280Luz sobre as copas

Dois eventos fizeram com que Peter tivesse certeza de suas conclusões. O primeiro foi ao perceber que um toco de 500 anos de idade, localizado no seu local de trabalho, ainda não havia morrido. Ele não possuía qualquer ramificação ou folhagem. Foi quando descobriu que o que o mantinha de pé eram as árvores ao seu redor, fornecendo-lhe uma solução com nutrientes por meio das raízes.

Outro evento importante para sua descoberta foi perceber que existem muito galhos tortos numa floresta. Ao observar a direção para onde esses galhos cresciam e como eles se envergavam, Peter reparou que, na verdade, o que estava acontecendo era uma gestão de espaço. Ou seja, em vez de competir, as árvores se desdobravam (literalmente) para não atrapalhar as vizinhas.

forest-505860_1280É claro, no entanto, que com todo esse senso social apurado, as árvores também se revelaram eventualmente temperamentais. De acordo com Peter, elas têm personalidade. Algumas preferem ficar sozinhas, outras gostam da família por perto. Algumas se unem, outras se estranham. Isso varia de espécie para espécie e também depende das características do ambiente em que vivem (se é rico em nutrientes ou se há escassez de recursos, por exemplo). O que elas fazem é habitar o local, verdadeiramente habitar.

A natureza não é robótica: ela pulsa por si só

Para muitas pessoas, as descobertas de Peter podem não ser tão surpreendentes. Afinal, para haver equilíbrio na natureza, é pressuposto que haja mesmo um sistema harmônico de cooperação e troca. Às vezes, esse sistema dá um banho nos humanos no quesito evolução. Mas a neurobiologia das plantas, de estudos muito recentes, ainda busca entender os segredos do chão sobre o qual a humanidade caminha. Segredos aos quais ela não necessariamente precisa ter acesso.

Para Peter, a ciência tem olhado para a natureza como se ela fosse uma máquina. A noção de sociedade que ele descobriu nas árvores, por exemplo, revelam que elas não se comportam como robôs, mas como seres inteligentes. Ele acredita que há, ainda, muito mais a ser descoberto sobre tudo o que acontece embaixo da terra.

114477_550x814“Trabalhar com árvores é minha vida”, ele afirma, em seu site. “Eu larguei meu antigo trabalho porque queria colocar minhas ideias sobre ecologia em prática”. Atualmente, Peter se dedica diariamente ao cuidado e à observação das florestas. O legado desse conhecimento está disponível também no documentário Intelligent Trees, realizado em parceria com a ecologista Suzanne Simardi pela Dorcon Film.

No vídeo abaixo, disponível no canal do YouTube das conferências TED, Suzanne fala sobre essa capacidade solidária das árvores e como elas conversam umas com as outras (para habilitar a legenda em português, vá em configurações). Assista:

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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