Revista Mandala

Estudo mostra como a solidão diária pode ajudar no autorregulamento das emoções

Fuga é diferente de recolhimento, por isso escolher estar só pode ser um experiência muito diferente da solidão não-opcional.

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Grande parte do estresse do cotidiano advém das preocupações e ansiedades que nos seguem durante a realização de tarefas e compromissos, sejam rotineiros ou excepcionais. Por isso, estar a sós consigo mesmo pode ser um alívio para quem busca desligar-se do mundo. Maraísa Machado, 25, relata que se isolar voluntariamente por alguns instantes possibilita um certo alívio e descanso da rotina. “Ajuda a colocar as ideias no lugar”, conta a estudante. “É tanta informação o tempo todo que a gente só quer tomar um café e olhar para o nada”.

Isso faz todo o sentido. De acordo com uma pesquisa desenvolvida na Universidade de Rochester, nos Estados Unidos, a solidão nem sempre é uma vilã do bem-estar. Pelo contrário – a líder do estudo, a pesquisadora Thuy-vy Nguyen, conta que ficar só pode ser muito útil, principalmente quando o objetivo é regular as emoções. Isso porque estar sozinho e sentir-se sozinho, mesmo em um ambiente mais atribulado, evita que você interaja com as situações ao seu redor, possibilitando maior equilíbrio.

Bem-me-quer, mal-me-quer

Muitas pessoas associam o estado de solidão com fuga, rejeição e tristeza. Na verdade, é preciso estar de olho, pois a falta de interação social exagerada e o excesso introspectivo podem, sim, ser indicativos de um quadro clínico psicológico. No mais, porém, estar na própria companhia é uma forma de se saborear, se permitir e se conhecer.

Segundo a pesquisa liderada pela pesquisadora Nguyen, 15 minutos por dia de solidão pode servir como um momento de reinicialização do corpo e da mente, como se você pudesse, por alguns instantes, abrir uma porta em qualquer lugar e adentrar um novo mundo, um mundo só seu. Isso se deve ao fato de que, estando só, você atenua os efeitos das emoções, sejam elas positivas ou negativas. Nesse meio caminho, o cérebro se comporta com mais tranquilidade e equilíbrio, respondendo de forma menos nervosa e irritada.

É preciso apenas desvencilhar-se por um momento dos vários convites que recebemos a todo momento.

Mas é difícil dar uma chance para a tal da solidão. De acordo com outro estudo, realizado na Universidade de Virginia, nos Estados Unidos, grande parte das pessoas prefere sofrer qualquer tipo de penalidade a ficarem sozinhas ou desconectadas, por exemplo. Os voluntários foram convidados a passar 15 minutos em uma sala, sem fazer absolutamente nada, longe de telefones e do contato com o mundo externo. No entanto, foi dada a opção a cada um deles de acionar um botão que descarregava em seus corpos uma carga significante de choque elétrico.

Para a surpresa dos pesquisadores, quase 70% dos homens preferiram as descargas elétricas a ficar sem fazer nada, na companhia apenas de si mesmos e de seus próprios pensamentos. Alguns chegaram a acionar o botão várias vezes. Já com relação às mulheres, apenas 25% delas recorreram à penalidade facultativa. Esses dados indicaram que ainda existe um certo tabu sobre ficar na própria companhia, considerando que muitas pessoas ainda optam pelo sofrimento em vez da solidão.

Um encontro de 15min com você mesmo 

Não precisa se isolar numa ilha ou trancar-se em casa para sentir os efeitos benéficos da solidão. Aliás, práticas levadas a graus extremos geralmente atrapalham muito mais do que ajudam. De acordo com a pesquisadora Nguyen, é preciso apenas desvencilhar-se por um momento dos vários convites que recebemos a todo momento, vindos das interações sociais do cotidiano, dos aparelhos eletrônicos ou mesmo da nossa própria mente.

Para Maraísa Machado, a solidão voluntária é uma aliada na busca pelo bem-estar, mesmo com a rotina sempre pedindo por atenção e dedicação constantes. Quando se ausenta de situações atribuladas do cotidiano, ela relata que se sente melhor. “Me sinto mais leve, a respiração fica mais pausada, o ombro dá uma abaixada”, descreve. “Aí dá pra voltar à ativa”.

Para experimentar a autonomia proporcionada pelos seus encontros diários consigo mesmo, a recomendação é encontrar o momento e o estímulo adequados para essa atitude. A solidão deve, primeiro, ser encarada como uma oportunidade de autoconhecimento e autorregulação emocional. Segundo o orientador da pesquisa da Universidade de Rochester, o professora Richard Ryan, os maiores benefícios vêm quando a pessoa voluntariamente passa um tempo sozinha.

E você, como se sente quando está a sós consigo mesmo? Tem dificuldades? Também se sente melhor com esta experiência? Conte para nós! Deixe seu comentário ou entre em contato conosco pelo e-mail contato@revistamandala.com.br

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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