Revista Mandala

Exposição em Curitiba retrata pinturas inspiradas por sonhos lúcidos

As obras de Orteniz Pazzini trazem paisagens, lugares e momentos que ele conheceu e vivenciou durante o sono.

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Você já teve sonhos lúcidos? São aqueles nos quais você sabe que está sonhando e consegue, a partir dessa consciência, escrever o roteiro de sua própria jornada. Ao conduzir sua experiência de sonhar, você assume o controle e pode transformá-la em um momento de descobertas e aventuras. E mais: é possível também (e recomendado) que você extraia algo de bom e bonito desses momentos.

É o caso de Orteniz Pazzini, cujos quadros estão em exposição a partir de hoje na Pontifícia Universidade Católica do Paraná. A atração faz parte do Seminário de Iniciação Científica da PUC-PR e traz em reprodução fiel as obras instigantes e delicadas de Orteniz, que se inspira exclusivamente em suas experiências de sonhos lúcidos para criar seus quadros. A inauguração, que aconteceu na tarde desta quarta-feira, reuniu familiares e amigos do pintor, além de visitantes que compareceram para conhecer o seu trabalho. O momento de abertura foi marcado pela apresentação ao vivo e a céu aberto das músicas clássicas preferidas de Orteniz.

Visitantes admiram a apresentação ao vivo das músicas clássicas prediletas do expositor. (Foto: Edmar Borges)
Visitantes admiram a apresentação ao vivo das músicas clássicas prediletas do expositor. (Foto: Edmar Borges)

Após a apresentação, organizadores do evento e admiradores das obras de Orteniz contaram um pouco sobre o espaço em que a exposição foi montada e a história do pintor. A Casa Estrela, onde os quadros estarão expostos nos próximos dias, fica dentro da PUC-PR e, de acordo com o assessor cultural da universidade, Armando Celia Junior, é um lugar de memórias afetivas muito fortes e voltadas para a inclusão. “Essa casa tem a ver com tudo o que transcende”, afirmou, lembrando ao público da história do que ele chamou de “templo arquitetônico”.

Logo em seguida, Vania Slaviero, cunhada de Orteniz, relatou um pouco da jornada do pintor enquanto ele a assistia, junto do público. Ela mencionou sua notável timidez, sua simplicidade e o temor que ele sentiu, um ano e meio atrás, quando ela pediu que sua obra pudesse ser vista por outras pessoas pela primeira vez e finalmente fosse retirada do porão onde ele as acumulava sem sequer assiná-las. Desde então, saindo de fininho do anonimato, escorrendo devagar como um traço numa tela ainda em composição, Orteniz tem sido surpreendido pela quantidade de pessoas que seus quadros alcançam e a intensidade com que as tocam. Um dos seus mais profundos e antigos admiradores, Guenther Schreiber Junior, estava presente e contou que passa, às vezes, três horas olhando para uma tela de Orteniz que comprou para colocar em sua casa. “A obra dele me tocou desde a primeira vez que vi, ela traduz o que eu não sei explicar”, ele contou. “Não sou nenhum artista, mas a obra dele mexeu mesmo comigo”.

A Casa Estrela foi construída por Augusto Gonçalves de Castro na década de 1930. Adepto da Teosofia e do Esperanto, ele deu à ela a forma de uma estrela inspirado pelos ideias pacifistas expressos por estas duas correntes. (Foto: Edmar Borges)
A Casa Estrela foi construída por Augusto Gonçalves de Castro na década de 1930. Adepto da Teosofia e do Esperanto, ele deu à ela a forma de uma estrela inspirado pelos ideais pacifistas expressos por estas duas correntes. (Foto: Edmar Borges)
Vania e Armando se cumprimentam após a apresentação, ao lado de uma das obras de Orteniz. (Foto: Edmar Borges)
Vania e Armando se cumprimentam após a apresentação, ao lado de uma das obras de Orteniz. (Foto: Edmar Borges)

Antes de oficialmente aberta a exposição, o psicólogo e engenheiro Mario Cimbalista, que estuda e pratica sonhos lúcidos há vinte anos, falou sobre o tema ao público. Explicou a importância do ceticismo para a sua compreensão na área, dizendo que “ser cético é bom porque você se questiona, observa antes de aceitar”. Além disso, com um pé na precisão do campo das exatas, ele adverte para os perigos do misticismo que envolve os sonhos hoje em dia, em uma cultura obcecada por interpretações. “É preciso articulação”, ele diz. “A maneira de interpretar os sonhos, se for muito fantasiosa, você perde o que pode aproveitar”.

Para ele, a vantagem de poder assumir o controle dos seus sonhos é que neles você pode fazer tudo o que quiser, inclusive realizar seu maior desejo. Mas, além de observar esse processo com atenção e um olhar crítico, ele chama a atenção para o controle excessivo, que pode impedir a pessoa de aproveitar a experiência ou até mesmo de alcançá-la um primeira vez. “Você tem que viver o conceito, não ser vivido por ele”, Mario sugere.

Da esquerda para a direita: Orteniz, Mário e Vania em mesa de discussão sobre os princípios dos sonhos lúcidos. (Foto: Edmar Borges)
Da esquerda para a direita: Orteniz, Mário e Vania em mesa de discussão sobre os princípios dos sonhos lúcidos. (Foto: Edmar Borges)

Jaqueline e Sarah, duas estudantes da PUC-Maringá, ficaram maravilhadas com as obras. “Ele (Orteniz) serve como inspiração para a gente buscar expor o que sente”, diz Jaqueline, que já conhecia o tema de sonhos lúcidos e relatou, inclusive, durante uma conversa com Orteniz e Mário, um caso de uma pessoa conhecida com fortes dores no estômago que, após dormir e sonhar que estava em uma sala de cirurgia, acordou sentindo-se bem novamente. “A gente se perde na quantidade de livros e técnicas, é muito melhor estar aqui e poder ouvir sobre o assunto diretamente dessas pessoas”, ela descreve.

Para Sarah, o que mais instiga é a história de Orteniz, de como ele cria suas obras. Ela e a amiga já têm até uma predileta: A benção, feita de tinta a óleo com uma espátula rústica, a única que o artista possui em seu porão. “Senti muita paz quando olhei”, Sarah relata. “Porque achei eles como seres superiores, entidades, mas estão passando a luz, e de repente parece que são todos iguais, sem diferenças”.

Sarah admira A benção, a tela de Orteniz que a tocou mais profundamente. (Foto: Edmar Borges)
Sarah admira A benção, a tela de Orteniz que a tocou mais profundamente. (Foto: Edmar Borges)
Mario e Orteniz conversam com Jaqueline e Sarah sobre a exposição e as técnicas de sonhos lúcidos. (Foto: Edmar Borges)
Mario e Orteniz conversam com Jaqueline e Sarah sobre a exposição e as técnicas de sonhos lúcidos. (Foto: Edmar Borges)

O artista: entre aqui e lá

Além de tímido, Orteniz Pazzini não ambiciona nenhum tipo de reconhecimento técnico ou conceitual do seu trabalho, que foi feito com materiais de improviso e deixados no porão de sua casa durante muito tempo. São obras surpreendentes, marcadas por movimento (Mundo em transformação), rupturas estéticas (Cavalaria árabe) e também por uma enigmática melancolia (A benção). Inclusive, você já conheceu algumas delas e um pouco da história de Orteniz aqui na Revista Mandala, quando o entrevistamos. Mas não é para que digam se seus quadros são isso ou aquilo que ele os pinta. É para aliviar suas tensões, extravasar e registrar aqueles lugares e momentos que ele conhece enquanto o corpo dorme.

Ele não se importa de ficar na plateia, próximo dos familiares. Na verdade, prefere assim. Mas não por arrogância. Pelo contrário: Orteniz tem receptividade no olhar. E a humildade com que reage à sua própria criação faz dele um criador excepcional. Afinal, poder estar entre este mundo e aquele é uma dádiva conferida também aos mais silenciosos. Esta não é a ironia da genialidade?

Mundo em transformação e Peregrinação são pinturas bem diferentes, ambas trazendo à tela paisagens que Orteniz visitou em seus sonhos. (Foto: Edmar Borges)
Mundo em transformação e Peregrinação são pinturas bem diferentes, ambas trazendo à tela paisagens que Orteniz visitou em seus sonhos. (Foto: Edmar Borges)

É claro, no entanto, que dons vêm acompanhados de alguns impasses obrigatórios. Orteniz não visita apenas lugares bonitos, relaxantes e iluminados. Durante seu sono, ele conta que também tem os temidos pesadelos, nos quais vaga por terras assustadoras, difíceis, com muito sofrimento. “O pesadelo trava”, ele diz. “Às vezes eu estou consciente, mas não consigo voltar. Acontece quando você está em um lugar e quer sair, mas não chegou a hora ainda”.

A exposição Transcendendo na Estrela: visões lúcidas de Orteniz Pazzini pode ser conferida na PUCPR, que se localiza na Rua Imaculada Conceição, 1155, no bairro Prado Velho. Confira abaixo mais imagens do evento de inauguração:

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(Foto: Edmar Borges)
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(Foto: Edmar Borges)
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(Foto: Edmar Borges)
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(Foto: Edmar Borges)
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(Foto: Edmar Borges)
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(Foto: Edmar Borges)
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Exploring the World of Lucid Dreaming é um dos livros recomendados por Mario para quem quer descobrir mais a respeito do assunto. (Foto: Edmar Borges)
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Da esquerda para a direita: Armando, Vania, Orteniz e Ivens Fontoura, Curador da Casa Estrela. (Foto: Edmar Borges)

 

Edmar Borges

Um latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, graduando em Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto e vindo do interior de Minas Gerais. Você também me encontra no Obvious Lounge e no Medium Brasil.

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