Revista Mandala
11 Hands  —  Pencil, Paper, and Digital (Yasmeen)

Fazer arte no meio tempo de nossas vidas e de nossos vários questionamentos internos

Ponderações da artista e ativista Yasmeen sobre a arte, o momento e a voz interior.

Compartilhar

yasmeenEste artigo é uma tradução. Ele foi escrito por Yasmeen na plataforma Medium e pode ser consultado originalmente em inglês aqui. As obras que acompanham o texto também são de © Yasmeen.

Sempre que eu me sinto estagnada em algum  questionamento, há 3 lugares onde procuro sabedoria:

Amigos

Livros

Na Internet

Dessa vez, eu estava me perguntando, dia após dia, geralmente no trem ou no chuveiro, como encontrar tempo para fazer arte enquanto, simultaneamente, eu trabalhava em tempo integral, estava terminando um programa de pós-graduação, mantendo um nível razoável de engajamento cívico e indo para a terapia duas vezes por semana.

Eu consultei os amigos primeiro.

Eu fiz essa pergunta a alguns bons amigos e de maneiras diferentes, e as respostas que recebi foram mais vagas e do que concretas e praticáveis:

“Isso tudo vem com o tempo”

“Fazer arte é difícil”

“Você faz o que quiser com o tempo que tem” (Estranhamente semelhante à sabedoria do Gandalf, não?)

Essas respostas eram tão minimalistas quanto inúteis. Elas pareciam se esquivar do núcleo da questão, desse sentimento de ser puxado como um elástico entre as expectativas daqueles que nos rodeiam, da narrativa duradoura que eles constroem dentro de nós e da nossa débil bússola interna.

Depois de algumas conversas que me levaram para o mesmo lugar onde eu estava a princípio, peguei vários livros: Art & Fear, de David Bayles e Ted Orland, e The War of Art e Do The Work, de Steven Pressfield.

De toda a sabedoria que encontrei em Art & Fear, uma frase ressoou e disse muito sobre a minha experiência pessoal:

Desistir é fundamentalmente diferente de parar. O último acontece o tempo todo. Desistir acontece uma vez. Desistir significa não começar de novo – e a arte é, totalmente, sobre começar de novo.

Bayles e Orland também capturam a dificuldade em discutir o processo criativo, algo sobre o que eu não obtivera nenhuma conclusão a partir das minhas conversas:

Não há um vocabulário certo para descrever as formas como os artistas se tornam artistas, um manual para os artistas aprenderem a ser quem são (mesmo que eles não possam deixar de ser quem são). Temos uma linguagem que aponta para como aprendemos a pintar, mas não para como aprendemos a pintar nossas pinturas. Como você descreve o ____ [o leitor pode colocar a palavra aqui] que muda quando o ofício fermenta a arte?

Wins and Losses — Pencil, Paper, Charcoal, and Digital (Yasmeen)
Wins and Losses — Pencil, Paper, Charcoal, and Digital (Yasmeen)

A estratégia de Pressfield é única. Ele objetifica o problema. Ele o chama de “Resistência”. Ele fala sobre estratégias para enfrentar a Resistência. Nas páginas finais, senti que encontrei algumas respostas, mas também mais perguntas. De onde vem a “Resistência”? E por que atendemos quando ela chama?

Por fim, eu procurei online. Gregory Scheckler escreve maravilhosamente sobre este assunto, oferecendo pensamentos e passos de ação. Como faz Heather Harvilesky. E Simon Reade.

Depois de toda essa caça, o que eu percebi foi:

A obsessão pela questão “como faço para ganhar tempo para a arte?” tem muito pouco a ver com quanto tempo livre está disponível para nós. Na verdade, não tem nada a ver com isso. Começar com esta pergunta é como construir uma casa de cartas, colocando um cartão no meio do ar, onde poderia ter estado se tivesse havido uma fundação. Sempre cairá.

Nós temos que voltar.

Antes de perguntar como podemos fazer mais tempo para a arte, temos que perguntar como chegamos a um lugar onde precisamos encontrar tempo para a arte. O que eu realmente estava perguntando aos meus amigos era: “Como eu cheguei aqui? O que aconteceu? Como eu volto para quem eu sou? ”

Quando li de novo Art & Fear, essa passagem fez mais sentido:

O desejo de fazer arte começa cedo. Entre os mais jovens isso é encorajado (ou, pelo menos, colocado como algo inofensivo), mas o impulso para uma educação “séria” logo exige transformar os sonhos e as fantasias em pesados tributos… No entanto, o desejo persiste para alguns e, mais cedo ou mais tarde, será notado. E por um bom motivo: o seu desejo de fazer arte – arte bonita, significativa ou emotiva – é parte integrante do seu senso de quem você é. Vida e Arte, uma vez entrelaçados, podem rapidamente tornar-se inseparáveis; aos noventa anos, Frank Lloyd Wright ainda estava desenhando, Imogen Cunningham ainda fotografava, Stravinsky ainda compunha e Picasso continuava pintando.

O que nos dá a vontade de perseguir a arte quando não existe uma validação externa (na verdade, muitas vezes é bem difícil seguir diante dos obstáculos) é a força da nossa crença de que precisamos fazer arte, de que ela alimenta nosso bem-estar e nossa alegria e que nós somos merecedores de tal bem-estar e tal alegria.

Isso não é exagero. Não tem como ser.

Fazer arte tem tudo a ver com a forma como nos experimentamos diariamente; se nos encontramos capazes e dignos de satisfazer nossas próprias necessidades. Isso inclui necessidades que são caracterizadas como fúteis, sem importância e não essenciais por pais, professores, amigos e colegas.

Então, pergunte a si mesmo: “O que está acontecendo dentro da minha cabeça quando eu arrumo tempo para fazer arte?” Tente prestar atenção às vozes que surgem. A quem elas pertencem? De onde elas saíram?

Estas são vozes difíceis de “ouvir” porque, muitas vezes, veem a nós na forma de sentimentos fugazes; uma sacudida no nosso osso esterno, uma vaga sensação de frustração, um pescoço tenso quando nos sentamos para trabalhar. Mas acessá-las é tão primordial quanto as impressões digitais são para um detetive.

Se você está no começo desta longa viagem, pode ser que você não ouça tudo de uma vez. Tudo bem também. Mantenha a questão em sua mente e a revisite por alguns dias. Quanto mais você a escuta, mais silenciosos todos se tornam.

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

Comentar

Assine nossa news!

Copy Protected by Chetan's WP-Copyprotect.