Revista Mandala
Trust, 2011. Tiffani Gyatso

Fome da alma

Minha alma está faminta. E há uma jornada pela frente para alimentá-la.

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Fome, minha alma tem fome. De migalhas, vou me alimentando apenas o suficiente para manter-me viva nessa busca e com a lembrança de algo maior. Às vezes sinto perseguir miragens… Eu duvido, algumas vezes, mas não paro – pois tenho fome.

Alimentar a alma é como o corpo – às vezes estamos nos alimentando com junk-food porque… É fácil e gostoso, mas não alimenta nada, engana! Hoje, na caminhada, virou um bom negócio oferecer fast-food para a alma. Muita gente se alimenta disso, porque é gostoso e pode se apresentar de formas maravilhosas que favorecem o conforto. Por alguma razão, meu ser tem certa alergia a comidas processadas, então hoje está realmente difícil me alimentar. Eu tenho em meu corpo um bom reservatório e tenho gerado alimento para a alma com a luz do sol, mas requer disciplina e treino. O treino é simplesmente estar atento à real motivação de cada ato e questionar a motivação dos atos alheios. Mas, às vezes, ah, como sinto falta de um bom chef!

Estudei diferentes religiões e filosofias, morei e estudei artes sacras na Índia e em outros países, e o que me alimenta hoje, sem sombra de dúvida, é a arte – ela é minha disciplina, meu treino, meu dharma. Mas nós ainda vamos falar sobre que tipo de arte alimenta a alma e alinha a sua espinha.

Na busca por mestres que combinassem a busca espiritual com a arte, fui parar na Índia, onde estudei Thangka, arte sacra tibetana, no Instituto Norbulingka. Nos três anos de estudo lá, o professor de Thangka me orientava e era nele que eu pousava meus olhos e ouvidos, com a boca aberta para ver se caía algum alimento.

O que me alimenta hoje, sem sombra de dúvida, é a arte – ela é minha disciplina, meu treino, meu dharma.
Nessa época na Índia, tive dois mestres inesperados, com características turbulentas, de caráter excêntrico e caótico. Passaram por mim como furacões.

Embora antigamente encontrar comida na floresta fosse uma tarefa árdua, era com a certeza de uma comida saudável e selvagem, além de que correr atrás da caça lhe tornava forte. Hoje comer é um evento social, é uma parada no meio da tarde para um café rapidinho e uma pizza à noite entregue em sua casa. Cômodo, mas sabe-se lá se é a melhor opção – não vejo de onde essa comida esta vindo de fato, diz ser processada e diz ter realçadores de sabor embutidos no alimento, nem sei pronunciar seus nomes, diz lá “sabor artificial idêntico ao de laranja” – o que é isso?

"Trust", 2011, obra de Tiffani Gyatso.
“Trust”, 2011,  Tiffani Gyatso.

Vimos, então, que ganhamos comodidade e perdemos um tanto a qualidade. Continuando a comparar o alimento do corpo com o alimento da alma, a história não é diferente hoje. Muito frequentemente vou em busca de ensinamentos online de gurus em várias partes do mundo, escutei por horas os ensinamentos do Mooji, Papaji, Osho, Sadhguru, Lama Samten, S.S o Dalai Lama e muitos outros, alguns nem me lembro o nome – muitos. Maravilhoso poder ter esse acesso! Mas eu ainda sei que nada substitui a presença do mestre no momento de seu ensinamento.

Tantos e tão fácil, pois não nos envolvemos, não estamos lá, não fizemos nada por merecer, não expomos nosso olhar de medo e fome, não somos relampejados pelo olhar do mestre, não passamos seus testes, não fomos rejeitados, não trilhamos milhares de quilômetros para ouvir aquilo – ou seja, ouvimos com pouca fome.

A jornada até os pés do mestre é a lapidação dos nossos sentidos, que possibilitam o entendimento das suas palavras – estar diante dos ensinamentos de um mestre requer maturidade do aprendiz, de escutar (seja pela internet ou frente a frente), de saber ouvir e pôr em pratica – e a jornada, os sacrifícios, a mudança de sair da sua zona de conforto para ir até a esquina ou ir a outro país, seja onde o mestre estiver, essa jornada nos lapida e essa parte estamos dispensando com o fast-easy-master-access.

Pois, sim, esquecemos de pôr em pratica. Porque estamos cansados de saber o que faz bem para o corpo e o que faz bem para alma – não nos façamos de bobos, nós sabemos. E por que não mudamos?

Podemos, sim, usar os benefícios da tecnologia com todas as suas consequências, para o que quisermos, se temos nossa motivação clara, cristalina, definida. Em todos os tempos, antigamente ou hoje e no futuro, o ser humano deveria aprender por si só a ter um bom senso – sorte se vier de uma família que o eduque dessa forma, mas às vezes, uma péssima educação nos faz justamente buscar um bom senso na vida, buscar um rompimento com o sofrimento da ignorância. Então, não há desculpas, use o seu bom senso se você quiser.

Use a internet, use o fast-food, use sua família desregulada… Para te levarem ao seu propósito. Não descarte nada, use tudo para o seu beneficio. Como? Cultivando o bom senso e mantendo sua motivação clara. Com isso bem polido, siga avante nos próximos patamares… O processo criativo e intuitivo do artista. A arte, quando aplicada no seu dia-a-dia, é a doutrina que você mesmo cria de acordo com sua verdade e a qual se materializa para dar forma à realidade que você vive. Arte, é mais do que um produto – é uma perspectiva, é o processo, a solidão imposta, a fome analisada, a busca, a lapidação, o encontro e, finalmente, o compartilhar generoso e satisfeito.see the hidden truth

A arte, quando aplicada no seu dia-a-dia, é a doutrina que você mesmo cria de acordo com sua verdade.

Meus artigos serão sobre o que chamo de o “caminho do artista peregrino”, como integrar a busca da verdade, viver os seus princípios e usar a arte em suas diversas manifestações como veículo ao encontro do verdadeiro mestre – aquele dentro de você.

 

Tiffani Gyatso

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