Revista Mandala
Foto: Katiusca Alves Demetino

Intervenção convida 150 cidades do mundo inteiro ao verdadeiro contato visual

Você está o tempo todo olhando para as pessoas, mas qual foi a última vez que olhou nos olhos de alguém?

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Quando eu cheguei, me deparei com um cenário de pessoas ligeiramente tensas. Almofadas, toalhas e tapetes habitadas por duplas de pessoas que, sentadas de frente umas para as outras, se olhavam fixamente. Era possível sentir a raridade daquele momento no ar, nos semblantes, na posição das pernas, no trepidar das mãos. Eu conseguia notar a vontade quase incontrolável de querer falar qualquer coisa, porque olhar para o olho de alguém e permanecer nessa tarefa parecia algo tão desconfortável quanto revelador.

Talvez um por causa do outro.

Os corpos estavam ali, se acostumando a isso gradativamente. E em um segundo que eu desviava a atenção para as pessoas que iam chegando, tímidas e um pouco confusas, as que antes também deram seus passos na trilha da racionalidade agora haviam se entregado a uma conexão fluida, inexplicável e instantânea.

Foto: Edmar Borges/Revista Mandala
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Bem, nem tão instantânea assim, na verdade. É que, participando logo em seguida da intervenção, sentando-me na frente de um completo desconhecido e olhando nos olhos dele por minutos a fio, eu percebi o que estava em jogo: leva tempo para entender, para confiar e para se despir.

Essa é a proposta do Entre Olhares, uma intervenção mundial que aconteceu neste sábado, 29, em Curitiba e outras capitais brasileiras, como João Pessoa, Porto Alegre e Brasília. Sentar-se diante de uma pessoa desconhecida e olhar dentro dos olhos dela durante um minuto inteiro, geralmente em total silêncio, pode ser mais desafiador do que parece. De acordo com Chico Oliveira, organizador do movimento na capital paranaense, a ideia é que, lidando com esses processos de entendimento do outro por meio do olhar, as pessoas se dispam de seus medos e desconfianças e se comuniquem não apenas pela internet. “A internet é uma maneira de se conectar”, ele observa. “Mas as pessoas às vezes se esquecem de que é possível se conectar com quem está do lado.”

Foto: Edmar Borges/Revista Mandala
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O Entre Olhares envolveu cerca de 150 cidades em mais de 40 países. Originalmente chamado de Eye Contact Experiment, o movimento busca chamar a atenção para as conexões humanas e o contato visual. Desde sua primeira edição, em 2010, na Austrália, a iniciativa possibilita que pessoas diferentes, com histórias, culturas e opiniões distintas, se olhem e reflitam sobre a promoção de uma sociedade mais harmoniosa e gentil.

Foto: Katiusca Alves Demetino

O desafio: despir a armadura

É só sentar e olhar. Mas “só olhar” pode ser complicado. Quem olha, busca ver. E ver talvez seja o cerne da intervenção: ver o outro jamais será tão constrangedor quanto ser visto por ele ou quanto ver a si mesmo. O que é mais difícil?

Foto: Edmar Borges/Revista Mandala
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Dar-se ao olhar alheio, ao reconhecimento de uma pessoa estranha que te segura com aqueles olhos que parecem tudo ver, significa despir-se de uma carcaça que vestimos todos os dias antes de sair de casa. Essa carcaça é o que, muitas vezes, dificulta as conexões entre as pessoas. Para Chico, não há dúvidas de que olhar no olho de alguém por um minuto inteiro pode proporcionar experiências extremamente reveladoras. Ele conta que, certa vez, duas pessoas casadas há muitos anos participaram da intervenção e, depois de alguns minutos de silêncio e contato, a esposa anunciou que nunca havia olhado para o seu marido antes.

Foto: Edmar Borges/Revista Mandala
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A dificuldade no processo parece vir carregada de um receio enraizado, talvez impulsionado pela pressa da rotina, incentivado pelo descaso ao redor ou simplesmente favorecido pela falta de hábito de olhar nos olhos. A ideia de se dispôr a essa experiência de troca em um instante do qual tudo pode surgir chega a dar medo, como eu ouvi das pessoas que estavam presentes na intervenção.

Foto: Edmar Borges/Revista Mandala
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Conhecida por ser uma cidade de pessoas apáticas, no entanto, as conexões aconteceram aos montes em Curitiba. Algumas pessoas passavam horas sentadas, apenas se conectando. De acordo com que o fluxo girava, alguns simplesmente não se moviam. Na maioria dos casos, as duplas acabavam por conversar e os semblantes traziam de gargalhadas a olhos arregalados de espanto. Elas estavam se confidenciando. Alguns se abraçavam depois da experiência. Mais do que nunca, a Praça Santos Andrade, no Centro da cidade, se tornou um lugar onde se formavam casais, amigos, companheiros do programa de mais tarde, seguidores no Instagram… Seja como for, ali todo mundo se entendeu de alguma forma.

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A recompensa: é mais fácil caminhar sem o peso da armadura

A performer mundialmente reconhecida, Marina Abramović, pode ser considerada uma percussora desse conceito. A artista sérvia, que iniciou sua carreira nos anos 70 e hoje é vista como uma das artistas mais polêmicas da história das artes de performance, viveu uma história intensa com o também artista Ulay, com quem realizou várias obras e performances de forma simbiótica durante mais de uma década de parceria criativa. Instável e poderoso, como descreviam fontes da época, o relacionamento deles acabou em um performance na Muralha da China, onde se separaram definitivamente depois de se despedirem e seguirem lados opostos do monumento.

Em 2010, no MoMA (Nova Iorque), Marina realizou “The Artist Is Present“, onde ela se sentava em uma cadeira por várias horas e pessoas desconhecidas se acomodavam diante dela para uma sessão de contato visual sem tempo limite de duração. A performance durou três meses e inspirou o museu a realizar uma retrospectiva, que consistia no mesmo processo, mas agora com duração máxima de um minuto por pessoa.

Uma dessas pessoas foi Ulay.

Ao reencontrar seu antigo parceiro depois de tantos anos, Marina levou ao extremo a definição da presença do artista na obra. O olhar pode significar poder, troca, desejo, entrega. “Isso é muito profundo”, diz Chico. “Só experimentando para saber de verdade o que é. As pessoas se sentam ali e precisam lidar com sentimento de rejeição, por exemplo. Quando elas se sentam e ninguém surge para se sentar com elas, como elas se sentem? Rejeitadas. E isso é comum aqui, porque às vezes você precisa ficar um tempo sentado sozinho até que alguém venha ao seu encontro. A ideia é lidar com isso”.

Foto: Edmar Borges/Revista Mandala
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Ao se despir da armadura, a vulnerabilidade da exposição torna a presença mais leve. Isso porque, desapegando-se da ideia de que outra pessoa venha até você, é possível experimentar-se, entender suas próprias queixas e seus anseios individuais. Deixando ir a necessidade de oferecer algo que a outra pessoa vá gostar de ver, a mente e o corpo parecem se ajeitar de forma mais harmoniosa com o espaço. Ninguém ali se conhece, ninguém sabe o que vai encontrar. É uma exposição de histórias humanas, penduradas em varais de corpos de todos os tipos com olhares que se atravessam e se falam.

Foto: Katiusca Alves Demetino

Sem a carcaça, os membros se movimentam com mais flexibilidade. O olhar se torna uma ponte de acesso que não envolve tanto medo e desconfiança quanto no começo da experiência. E dos olhos, também a boca, as mãos, as pernas, tudo vai ganhando vigor, como um contágio interno no corpo que aciona um instinto puro e às vezes esquecido: o de comunicar-se.

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Edmar Borges

Um latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, graduando em Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto e vindo do interior de Minas Gerais. Você também me encontra no Obvious Lounge e no Medium Brasil.

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