Revista Mandala

Mar, amar e se acalmar: as colagens poéticas de Ana Clara Oliveira

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Qual o poder da arte? Enquanto é criada, enquanto é vista, enquanto flui no mundo como material de expressão. O que a arte pode causar antes e depois de pronta? As manifestações artísticas, em todo o seu potencial subjetivo e no decorrer da história, costumam traduzir sentimentos, sensações e percepções de seus autores. Mas como a fascinação relacionada a uma pintura, por exemplo, perdura por séculos depois de concluída?

“O poder da arte é lindo porque é pra quem faz e pra quem recebe”, comenta Ana Clara Oliveira, que mescla colagens e poesias em séries desenvolvidas com inspiração em suas buscas, seus anseios e a fase da vida pela qual está passando no momento da criação. “Quando vemos ou ouvimos algo que nos toca ou nos desperta algum sentimento, emoção, vontade… Isso basta para a arte nos transformar!”

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Inspiração nas flores, no mar, nas cores, no amar

No caso da jornalista, cuja intimidade com a arte vem de uma relação despretensiosa e relaxante, transformação é uma palavra que significa tudo: tudo o que a motiva, a protege e a espera. Para transformar-se ela retomou um prazer esquecido de escrever e recortar. Transformando-se ela extraiu desse prazer, com paciência e amor, imagens leves, delicadas, sinceras, mas também intensas, vibrantes, destemidas. Isso porque seus processos criativos têm tudo a ver com o que ela está vivenciando no momento em que cria sua arte. Na sua primeira série, passava por um “momento de intensas mudanças, final de diversos ciclos, amadurecimento, busca por independência e por mim mesma”, ela conta. “A fase conturbada fez com que eu encontrasse saída e alívio na arte”.

 

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Sutis e poderosas, as colagens de Ana Clara, que atualmente mora no interior de Minas, reverberam justamente uma sensação de conforto finalmente encontrado depois de ver, ouvir e conhecer bastante. Como ela diz, criar foi para ela como colocar para fora tudo o que a consumiu durante muito tempo, e assim ela pôde seguir em frente com determinação e carinho por si mesma. Ela sempre foi fascinada por colagens e sua forma de produzir mostra que, muitas vezes, a arte é mais possível do que parece. “Cacei imagens nas revistas de casa e acabei encontrando muita inspiração por lá”, revela. “Daí comecei a inventar e reinventar, com fotos minhas e imagens encontradas na internet. Muitas vezes, o poema e o estado de espírito já me davam uma boa ideia do que buscar”.

Além disso, Ana Clara conta que usar fotos de si mesma nesse processo “tornou tudo ainda mais auto representativo, e eu sinto que tudo que faço ligado à arte, nada mais é do que exteriorizar tudo que sinto”. Sua inspiração vem de todos os lugares e caminha para dentro dela: vem da água, das cores, dos tons vibrantes e alegres, construindo imagens fortes e complexas, ambientes leves e fluidos, que representam o seu interior.

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A poesia é uma ótima companhia

As imagens, por mais poderosas e representativas que fossem, não deram conta do turbilhão que buscava emancipação e luz dentro de Ana Clara. Por isso, a artista também se aventurou numa jornada que há muito tempo não trilhava: a da escrita. Ela conta que sempre gostou de escrever e isso funcionava para ela como uma forma de exercer sua criatividade e criar seu próprio mundo. No entanto, se afastou desse hábito por muito tempo, a ponto de achar que esse laço tinha se rompido para sempre. Mas não era bem assim.

“Voltei a escrever há pouco tempo, porque já não aguentava mais o caos dentro de mim, foi uma forma de extravasar e clarear os sentimentos e pensamentos”, Ana Clara conta. “E foi ótimo! Me sinto mais leve por me sentir mais próxima da arte de uma forma geral, consigo novamente colocar no papel, em forma de poema ou colagem, tudo que sinto, vivo, quero, desejo”.

Ana Clara acaba de concluir sua segunda série, dessa vez sobre o corpo.
Ana Clara acaba de concluir sua segunda série, dessa vez sobre o corpo.

Outra descoberta interessante de Ana Clara foi sobre a natureza da inspiração. “Por um tempo, cheguei a achar que apenas os sentimentos confusos e tristes me inspirariam, mas hoje vejo que todo sentimento me move e me inspira. A arte desperta a melhor parte de mim e me ajuda a encontrar aquilo que realmente sou e/ou quero ser, em meu íntimo mais profundo. É como se fosse uma forma de conversar comigo mesma.”

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Ana Clara chegou a construir um livro com sua primeira série de trabalhos. Ela fez cópias de forma independente e as distribuiu para seus amigos, muito embora conte que não sente necessidade de mostrar sua arte, tão sua, e que esse tenha sido um caso especial. “Foi algo tão importante para a construção da mulher que sou e me tornei que senti imensa necessidade de compartilhar com todos que de alguma forma estiveram presentes em minha vida ou que pensei que pudessem ser tocados de alguma forma pelo que escrevi”.

Talvez aí habite o poder transformador da arte. Quando contemplamos um trabalho alheio, na verdade o tornamos menos alheio. Talvez assumamos a carapuça do autor, talvez nos visualizemos no sentimento que ele conseguiu (como ele conseguiu?) traduzir em imagem, som ou palavra. Quando nos sentimos representados e quando podemos representar… Talvez seja por isso que a admiração perdure mesmo depois de tanto tempo de criação de uma obra: porque há sempre alguém para ser tocado por aquilo que nos tocou a princípio.

Veja mais do trabalho de Ana Clara:

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Edmar Borges

Um latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, graduando em Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto e vindo do interior de Minas Gerais. Você também me encontra no Obvious Lounge e no Medium Brasil.

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