Revista Mandala

Meditação e a esteira do hedonismo

Neste texto, Charlie Ambler debate o que nos conecta ao ser alguém e o que nos confunde no tornar-se alguém.

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printmediumEste artigo foi traduzido pela Revista Mandala. Escrito originalmente por Charlie Ambler na plataforma Medium, ele está disponível para acesso em inglês em Meditation & the Hedonic Treadmill.

Eu poderia ter acrescentado, como cogitei mentalmente fazer, que algumas pessoas encontraram satisfação em ser. Ser. Outras, acabaram sendo tomadas pelo tornar-se. Ser tem todos os descansos. Tornar-se é uma tarefa muito desafortunada, sempre confusa. ToJrnando-se, as pessoas sempre têm que dar explicações ou se justificar para as pessoas que são.

Saul Bellow em Henderson, O Rei da Chuva.

O que é felicidade e por que a perseguimos tão fervorosamente? Para colocar esta questão em perspectiva, vamos considerar a ideia da esteira hedônica. Esse conceito é definido simplesmente como “a tendência observada nos seres humanos de retornarem rapidamente a um nível relativamente estável de felicidade apesar dos grandes eventos positivos ou negativos ou das mudanças da vida”. As implicações disso são enormes. Por mais que pareçam agir da maneira mais óbvia, por que não aprendemos com eles? Porque com a nossa maior força (adaptação) vem a nossa maior fraqueza (insaciabilidade).

A transformação da mente que ocorre durante a prática de meditação confirma essa ideia de que a felicidade é estática. Uma das nossas maiores forças como seres humanos é que nos adaptamos. O custo desta flexibilidade é que às vezes perdemos de vista nossa própria capacidade de adaptação. Nós nos convencemos de que precisamos de mais e mais disso ou daquilo para sermos felizes, quando na realidade nós já possuímos a chave para a questão. A chave é simplesmente existir.

O que, então, otimiza a felicidade? Não projetando no futuro as coisas mais surpreendentes, ou brilho e glamour. O que otimiza a felicidade e traz o contentamento é ter certeza que seu hardware está funcionando corretamente. Exercício, meditação, aprendizagem, amor, boa conversa, alimentos saudáveis, sono, trabalho significativo: esses são os elementos que compõem uma existência otimizada para contentamento, em vez do apego.

Por que eu escolhi essas atividades em particular? Elas vêm de dentro e dependem de uma integração de nossa humanidade essencial com o mundo em geral. Elas nos conectam em vez de nos separar. Elas nos fazem lembrar da teia de inter-relações sutis que compõe o mundo. As atividades que nos tornam miseráveis são atividades as quais nós damos todo o nosso contentamento –  sobrecarga no trabalho, apego, vício, riqueza, fama – em troca de um futuro melhor. Aqueles que fazem isso acabam descobrindo que esse futuro nunca chega, apenas mais adaptação ao que já se tem. Trocamos o controle de nós mesmos por essas formas de sentir que adquirimos o mundo, mas o mundo não pode ser adquirido. Quando voltamos a atividades que estão fundamentalmente ligadas à existência significativa, encontramos o que estamos procurando. Parte disso vem de não procurar com tanto ímpeto. Quem é o animal de estimação: o cão raivoso ou o cachorrinho abobado?

Nesse sentido, quanto menos você precisa, mais você tem. Se a nossa força está na adaptação, não devemos ver isso como uma oportunidade para pilhar os prazeres mundanos por tudo o que eles valem. Em vez disso, devemos vê-lo como um sinal de alerta. Se alguém se liga à aquisição e ao apego, nunca haverá o suficiente. A mente pode tentar convencer-se de outra forma, porque esse é o seu trabalho – se adaptar. Nosso poder como seres humanos se manifesta na nossa capacidade de transcender isso, sair da esteira e fazer uma viagem real.

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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