Revista Mandala

Mindfulness: mente cheia ou mente vazia?

A prática está entre uma e outra. Mas, muito mais que isso, significa o incrível estado da mente atenta e curiosa.

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Uma religião? Um ritual? Uma moda nova do new age? É tipo yoga, meditação? É uma medicina alternativa, uma modalidade de luta marcial ou uma técnica nova de atividade física? Veio do Oriente, não veio? Afinal, o que é mindfulness?

Em primeiro lugar, não é uma religião, nem uma modalidade de luta marcial. Não é nenhuma espécie de Tai Chi Chuan ou Seicho No Ie, muito menos tem a ver com rituais. Mindfulness, como prática de atenção plena, controle da respiração e processo de autodescobertas, pode se assemelhar a algumas experiências proporcionadas pela meditação e pelo yoga, é verdade. Mas não se confunda, pois mindfulness requer simplesmente consciência e percepção do mundo ao redor, não esvaziamento da mente ou posições e posturas. Para ajudar as pessoas a lidarem melhor com suas emoções e estarem mais atentas, essa técnica tem um programa específico e traz benefícios próprios.

Apesar de seu conceito ser encontrado em algumas religiões no que tange à importância da concentração, mindfulness é uma atividade totalmente desprovida de liturgia, dogma ou cunho religioso. Traduzindo a palavra para o português, temos algo como “atenção plena”. Mind significa mente, fulness significa plenitude. Ou seja, tem a ver com seu comprometimento mental e não só físico no momento presente. Se, ao mesmo tempo em que lê este texto, você o compreende e assimila o ato de leitura, reconhecendo as atividades mais sutis do ambiente, sua atenção está totalmente voltada para o aqui e o agora e você está praticando mindfulness sem saber.

Como conta Luiz Fernando Nicolodi, que é médico de família e instrutor da técnica em Curitiba, o estado que a prática propõe já faz parte de nossa vida cotidiana em vários momentos casuais, como quando contemplamos uma paisagem. “A gente está andando na praia, vê o pôr-do-sol e entra num estado de união com o cenário, percebe o mar, o sol, o som, sente a areia da praia, percebe o seu corpo e sente que está tudo livre”, ele exemplifica. “Isso é um estado de mindfulness”.

alone-21279_1280Além disso, ele revela que, diferente do que muitos acreditam, mindfulness vem sendo estudada ao longo de décadas em centros de pesquisa. Esse processo começou, principalmente, nos Estados Unidos, onde várias universidade passaram a estudar a técnica e apontar seus efeitos. Depois, na Inglaterra, mindfulness foi observada do ponto de vista da neurociência. “Basicamente comprovou-se que quem pratica consegue alterar a neuroplasticidade do corpo, alterar a arquitetura cerebral, desativar uma série de cascatas emocionais de estresse”, o médico relata. “Ou seja, a mente, o pensamento, a forma de lidar com o fenômenos, influenciando o corpo físico”.

Mindfulness e meditação não são necessariamente a mesma prática

Em estado meditativo, o praticante é capaz de se atentar ao presente da mesma forma como propõe o estado de mindfulness. No entanto, embora semelhantes, as práticas se distinguem. De acordo com Luiz, mindfulness é meditação, pois foi desenvolvido tradicionalmente, ao longo de milhares de anos, a partir da prática meditativa, já conhecida cientificamente por alterar o cérebro e a fisiologia do corpo, diminuindo o estresse. Dizer o contrário, no entanto, nem sempre está correto. “Esta é uma discussão longa, mas, resumidamente, mindfulness é um estado mental, uma técnica, enquanto meditação é um termo amplo que abrange muitos tipos de técnicas diferentes de treinamento da mente”.

Luiz conta ainda que a técnica é uma abordagem de prevenção e promoção de saúde que pode ser definida de várias formas. “A gente pode dizer que mindfulness é um estado psicológico, um estado da mente”, ele diz. “E pode dizer que se trata de uma técnica que vem sendo realizada ao longo das décadas e que está relacionada a protocolos na área de saúde e intervenção de práticas”. Mas o que isso quer dizer? Luiz responde: “Se você for pegar o conceito de estado psicológico, mindfulness é um estado que está presente e disponível a qualquer pessoa, em qualquer momento”.

Mindfulness pode ser aplicado a vários momentos do dia e, inclusive, evitar acidentes decorrentes da falta de atenção.
Mindfulness pode ser aplicado a vários momentos do dia e, inclusive, evitar acidentes decorrentes da falta de atenção.

Aplicador da técnica e também estudioso da área, Luiz explica que, entre as qualidade do estado de mindfulness, estão a atenção plena no instante, o que quer dizer que a pessoa está no presente, e uma diminuição dos julgamentos ou ausência total deles diante da experiência daquele momento. “A pessoa está no presente, com atenção e sem julgamento, de uma forma curiosa, numa atitude de aceitação e receptividade”, ele descreve.

Uma noite de mindfulness: o primeiro contato com a prática

O programa de aprendizado da técnica é feito em grupos e dura oito semanas, durante as quais são realizados encontros e conduzidas algumas atividades de percepção e autodescoberta. Eu estive em um desses encontros, no Instituto Educacional De Bem com a Vida, em Curitiba, e acompanhei um pouco desse processo de reconhecimento da prática em uma turma recém-iniciada.

Um dos efeitos mais importantes que logo notei é o despertar da curiosidade. Por meio dos exercícios propostos e conduzidos por Luiz, as habilidades de análise e observação são estimuladas para que os participantes sintam-se curiosos a respeito dos seus corpos e do ambiente. É como regressar ao estado da infância, onde tudo é novo e cada detalhe significa uma descoberta incrível. Já percebeu que a criança está sempre atenta a tudo, de olho nas experiências que surgem, assimilando cada informação com dedicação?

Eu percebi que isso é mindfulness.

boy-909552_1280No decorrer das atividades, as pessoas eram convidadas a falar sobre suas percepções pessoais naquele exato momento. Sentadas em círculo, elas contavam sobre os motivos de estarem ali, as sensações, as descobertas. Descreviam como era impressionante prestar atenção nos membros do corpo, na existência dos ossos, do sangue correndo nas veias, dentre outros fenômenos involuntários e aparentemente banais que parecem mágica quando nos dedicamos a senti-los.

Silvana Simon, que já concluiu seu treinamento e hoje usufrui dos benefícios, conta que desde então anseia diariamente pelo momento em que poderá se sentar em silêncio e meditar. “O curso foi apenas um gatilho para uma maravilhosa jornada que me aguardava”, ela conta. E acrescenta: “mas que dependia totalmente de mim e da minha disciplina”.

A curiosidade e o interesse pela descoberta incentivam a investigação do corpo e da mente.

Estresse e ansiedade: os grandes vilões da era contemporânea

Como qualquer aprendizado, o estado de mindfulness pede dedicação e interesse. No entanto, como alerta Luiz, é preciso tomar cuidado para que não seja estimulado um sentimento de autocobrança, que vai gerar justamente o estresse do qual a pessoa procura se livrar. Pois eu percebi, acompanhando o grupo em seu primeiro encontro, que estresse e ansiedade eram as duas grandes queixas mais recorrentes na maioria dos depoimentos.

Luiz confirma que estas são as demandas que mais levam as pessoas a procurarem o programa. “No momento contemporâneo, (as pessoas) estão muito aceleradas, com muitas tarefas, muitas responsabilidades, demandas de vários níveis”, ele diz. “Existe um acúmulo de funções e o tempo ficou pressionado. A gente precisa dar conta de muitos papeis que desempenhamos, como profissional, pai de família, mãe de família, no relacionamento afetivo… As pessoas têm uma sobrecarga por muitas atividades e uma das expressões disso é a ansiedade”.

Realizar mais de uma tarefa ao mesmo tempo pode reduzir a capacidade de atenção plena, além de gerar estresse decorrente da gestão de mais de várias atividades simultâneas.
Realizar mais de uma tarefa ao mesmo tempo pode reduzir a capacidade de atenção plena, além de gerar estresse decorrente da gestão de mais de várias atividades simultâneas.

Ele explica, contudo, que mindfulness não tem a ver com cobrança, embora exija certa disciplina. “Uma pessoa que segue o programa e depois continua fazendo os exercícios propostos vai cada vez mais sentir os benefícios”, ele diz. Mas reforça: “mindfulness trata de focar a mente no momento presente de uma forma sem ser duro consigo. Aprendendo a aceitar um pouco mais você, você vai desativando esse processo de ansiedade, do ‘o que eu tenho que fazer amanhã?’, ‘quais as demanda que não consegui fazer?’, esse julgamento exagerado que a gente tem internamente. Para combater a ansiedade, então, é muito efetivo”.

Para Silvana, não há dúvidas disso. Ela conta que estava em busca de uma maneira de se sentir melhor há muito tempo quando encontrou a técnica e se curou de um quadro de depressão, além de recuperar sua saúde física. “Os benefícios têm sido inúmeros desde então e, por incrível que pareça, eles ganham contornos mais fortes a cada dia”, ela relata. “comecei a me dedicar à prática diária de meditação e passei a buscar aplicar o mindfulness em atividades triviais do meu dia, desde o ato de me alimentar ao de lavar a louça. Comecei a aplicar essa gentileza para comigo mesma nas práticas e elas foram se tornando cada vez mais agradáveis”.

Mas, afinal, é um tipo de medicina?

“A medicina perdeu, ao longo de muito tempo, a habilidade de olhar o estado mental da pessoa, a parte emocional, e o quanto isso influencia na saúde e no bem-estar da pessoa”, diz Luiz, que é médico atuante tanto na área da medicina convencional quanto na alternativa. Ele acredita no que chama de medicina integrativa, que reconhece o avanço da tecnologia e seu papel incontestável na promoção de saúde, mas que também não rejeita perspectivas integrativas, como a medicina oriental, homeopatia, acupuntura, dentre outras.

“O avanço da tecnologia, por exemplo, na questão de investigação, exame de imagem, exame de sangue, que consegue detectar precocemente alterações que sugerem doenças, facilitam em diagnósticos, facilitam em acompanhamento de situações clínicas… Tudo isso é bem vindo”, ele esclarece. “No entanto, a gente precisa reconhecer que a medicina ocidental, a medicina muito baseada em doença e tratamento, que é o que a gente aprende nas faculdades, consegue dar conta apenas de uma parte das manifestações de desequilíbrio da pessoa, manifestações mais orgânicas, maiores, para as quais ela é extremamente efetiva”.

Luiz propõe a união entre as vertentes da medicina em busca de um olhar que se atente de forma integrada para a parte emocional (psique) e para a parte do corpo (soma).
Luiz propõe a união entre as vertentes da medicina em busca de um olhar que se atente de forma integrada para a parte emocional (psique) e para a parte do corpo (soma).

Durante muito tempo, as práticas relacionadas aos campos sutis da experiência humana foram injustamente vinculadas a religião e misticismo, em especial pela ciência e pela medicina. Porém, como aponta Luiz, o próprio meio científico tem apresentado resultados e evidências dos benefícios de algumas dessas práticas, dentre elas mindfulness. O instrutor, que realizou sua formação na técnica pelo Mente Aberta – Centro Brasileiro de Mindfulness e Promoção da Saúde, menciona livros tradicionais de medicina que, investigando sobre o tratamentos de depressão e ansiedade, indicam mindfulness como opção terapêutica.

Não é por acaso que a técnica ajudou tanto Silvana. Depois de curar-se da depressão, com a ajuda das práticas de mindfulness, ela passou a ver a vida de uma forma mais atenta e satisfatória. “Eu recomendo a todas as pessoas, porque essa prática é um caminho seguro para nos conectarmos ao momento presente, a nós mesmos e à nossa verdadeira essência”, descreve. “Era um caos viver no meu corpo. Agora, sinto-me melhor a cada dia”.

Edmar Borges

Um latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, graduando em Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto e vindo do interior de Minas Gerais. Você também me encontra no Obvious Lounge e no Medium Brasil.

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