Revista Mandala

Muito mais do que reciclar, supraciclagem é uma forma de ressignificar

A palavra é ainda um pouco desconhecida, mas entender seu significado é transformador para você e para o meio ambiente.

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Pense num museu de ressignificados, onde cada peça e cada item expõe as histórias do seu próprio passado travestidas nas novas formas, cores e utilidades do presente. Difícil de entender como algo desse tipo seria?

É mais simples do que você pensa. E também mais impressionante. Esse lugar poderia ser, por exemplo, uma casa construída e decorada a partir do uso da chamada supraciclagem, técnica de reutilização de materiais descartados que transforma e ressignifica muitas daquelas coisas para as quais você achou que fosse a hora de dar adeus.

lights-lamps-design-recyclingUm up na moda antiga

Tudo começou há pouco mais de vinte anos, com o surgimento do termo upcycling. Na década de 1990, o ambientalista alemão Reine Pilz foi uma das primeiras pessoas a usar essa palavra, o que deu base para que o arquiteto William McDonough, oito anos depois, lapidasse o conceito e o divulgasse.

No icônico livro Cradle to Cradle: Rethinking the way we make things (“Do Berço ao Berço: Repensando a forma como fazemos as coisas”), McDonough falou sobre essa prática que vai além de reciclar, que propõe uma ressignificação dos materiais em seus estados originais. A obra tornou-se clássica por apresentar, pela primeira vez na literatura ambiental, o upcycling e o redesign como maneiras eficazes de salvar o planeta do consumo exacerbado.

A nova moda tornou-se, então, reaproveitar. Mas com arte e, claro, um olhar sensato. Chrystianne Leite, jornalista que tem o upcycling como hobby há mais de dez anos, conta que é possível reaproveitar praticamente tudo, mas o olhar precisa estar exercitado para enxergar o potencial de cada peça. Além disso, o design é importantíssimo no processo de trasnformação de um objeto em outro. “Não basta que a peça supraciclada seja útil, ela também tem que ter um design atraente”, afirma Chrystianne. “Muitas ONGs trabalham com supraciclagem, mas esquecem de trabalhar a estética dos produtos”.

bicycle-1209845_1280Existe diferença entre supraciclar e reciclar

Chrystianne e o marido começaram a supraciclar por incentivo do seu filho mais novo. Hoje, o conceito de reaproveitamento e cuidado faz parte não só da casa, mas da vida da família. Para ela, supraciclagem modifica para sempre a forma como se vê os objetos do cotidiano. E isso só tem a contribuir para o bolso e para o planeta Terra.

“Quando você transforma um escorredor de macarrão de alumínio velho em uma cúpula de luminária, por exemplo, você está deixando de jogar esse objeto no lixo”, ela lembra, e enfatiza que também está evitando enviá-lo para uma usina de reciclagem, que, apesar de recomendável, “gasta mais material e mais energia para transformá-lo em outro produto comercializável”.

Decoração da sala da casa de Chrystianne feita a partir de material supraciclado (Foto: Upcyle Brasil/Reprodução)
Decoração da sala da casa de Chrystianne feita a partir de material supraciclado (Foto: Upcyle Brasil/Reprodução)

Isso porque supraciclagem não é o mesmo que reciclagem. Apesar de ambas as técnicas abordarem a importância de recriar o que já existe, o upcycling é, ecologicamente falando, mais benéfico que a reciclagem. Ele não requer gastos com água ou energia elétrica, nem depende de recursos químicos e biológicos. Para supraciclar, basta pegar o material de descarte e reutilizá-lo de outra forma, simples como vestir sem medo uma uma calça desbotada.

Até joias podem ser feitas com supraciclagem. O conceito de ressignificação pode ser aplicado a uma variedade enorme de materiais, desde retalhos e garrafas até aquelas fitas VHS antigas que você está tentando jogar fora há uma década.

O microfone, a madeira e o metal foram supraciclados por Chrystianne e sua família (Foto: Upcyle Brasil/Reprodução)
O microfone, a madeira e o metal foram supraciclados por Chrystianne e sua família (Foto: Upcyle Brasil/Reprodução)

Exemplos de supraciclagem na vida de Chrystianne são os armários de sua cozinha e do seu banheiro, feitos de janelas que ela e a família encontraram em caçambas ou jogadas nas ruas. Para ela, a sensação de ressignificar o que foi abandonado é ótima. Ela relata que é “muito gostoso saber que aquela madeira, que a natureza levou tanto tempo pra produzir não vai virar entulho em algum lixão”.

Armário supraciclado a partir de janelas descartadas (Foto: Upcyle Brasil/Reprodução)
Armário supraciclado a partir de janelas descartadas (Foto: Upcyle Brasil/Reprodução)

O upcycling no mundo e nas relações

Claro, no entanto, que existem desafios. O próprio conceito de supraciclagem é ainda muito recente. Ele está na arquitetura, na decoração, na construção civil, nas roupas, nos acessórios e até na fabricação de equipamentos, mas ainda em fase de divulgação no mundo todo.

Bancada "improvisada" na casa de Chrystianne, feita a partir de supraciclagem (Foto: Upcyle Brasil/Reprodução)
Bancada “improvisada” na casa de Chrystianne, feita a partir de supraciclagem (Foto: Upcyle Brasil/Reprodução)

Por isso, Chrystianne observa que há uma grande falta de lojas especializadas em objetos supraciclados e também de oficinas que ensinam a técnica. Além disso, ela acredita que deveria haver mais espaço para o upcycling ser encarado como arte, onde esses objetos pudessem ser expostos. De qualquer forma, mostra que é possível supraciclar em casa e com qualquer objeto, basta um pouco de criatividade e dedicação.

O princípio é muito simples e quase intuitivo: prolongar a vida útil dos objetos. Assim, você economiza espaço no planeta e se surpreende com as incríveis descobertas do mundo da ressignificação de materiais.

Para além disso, no entanto, a supraciclagem tem muito a dizer sobre a forma como nos relacionamos não só com os objetos, mas com as pessoas que passam pela nossa vida. Como você tem lidado com a durabilidade das relações? Como tem cuidado de quem está ao seu redor? Qual a sua capacidade de reinventar significados e utilidades para suas emoções?

pexels-photo-129936Lembre-se que tudo é impermanente, em especial os significados. É possível dar um novo sentido a qualquer coisa, a qualquer momento. Como disse Lavoisier, um dos nomes mais importantes da química, “na natureza, nada se perde, nada se cria: tudo se transforma”.

Edmar Borges

Um latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, graduando em Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto e vindo do interior de Minas Gerais. Você também me encontra no Obvious Lounge e no Medium Brasil.

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