Revista Mandala
Foto: Edel Rodriguez/Reprodução.

O ano em que um executivo de Nova Iorque aprendeu a abrir mão

O quanto sua vida pode mudar depois de um ano sabático?

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Esse artigo foi publicado originalmente em The New York Times por Karan Bajaj

Crescendo no Himalaia indiano, vi um fluxo constante de profissionais – médicos, engenheiros, advogados – deixarem suas carreiras e viverem em ashrams e cavernas perto da minha aldeia. Eu nunca entendi totalmente seus motivos. Mas, 20 anos depois, eu tive o mesmo forte desejo de passar um longo tempo em silêncio e encontrar um verdadeiro centro da quietude dentro de mim após a morte prematura de minha mãe em decorrência do câncer.

Minha esposa e eu tínhamos sido contemplados com a oportunidade de ficar um tempo fora de nossos trabalhos para escrever romances. Nós vínhamos equilibrando a escrita com nossos cargos corporativos por uma década inteira e sentíamos que estávamos aquém da excelência em ambas as atividades. Então, a começar no final de 2012, decidimos passar um ano inteiro fora dos nossos trabalhos e sair para um ano sabático, espiritual e criativo.

Na época, eu estava trabalhando com as marcas Capri Sun e Kool-Aid como um diretor para a Kraft Foods em Nova York, e minha gerente respondeu ao meu pedido inicial de um ano sabático não remunerado com um silêncio confuso. Eventualmente, eu a convenci – acho que porque eu fui tão específico quanto aos meus objetivos sabático quanto como eu era com minhas metas no trabalho. Ao invés de simplesmente alegar que eu precisava de um ano para “me encontrar”, eu expliquei que eu queria fazer o treinamento para me tornar um professor de ioga com duração de seis semanas, passar um mês em meditação silenciosa, escrever por três e assim por diante, tudo isso era emocionalmente urgente para mim e me ajudaria a voltar mais centrado e eficaz.

Paradoxalmente, porém, começamos nossa nova proposta de vida deixando de lado (conscientemente) todos os nossos objetivos. Formado em engenharia, eu sempre gostei de números, e ao longo dos anos eu usei meu lado esquerdo do cérebro, me baseando em sistemas analíticos para fazer a maioria das decisões no trabalho. Mesmo na escrita de ficção, eu costumo ser fortemente metódico, esquematizando os personagens e as trajetórias da história em detalhes microscópicos ao longo de meses antes de escrever a primeira palavra. Eu queria experimentar um vislumbre da transcendência na minha escrita, fazer dela mais intuitiva.

Fomos da Europa à Índia pela estrada ao longo de três meses, sem planos e sem reservas, decidindo a cada dia o que fazer a seguir. No papel, esta era uma ideia romântica; na realidade, significou um monte de noites dormindo em estacionamentos de ônibus e estações de trem, e andando por quilômetros com nossas mochilas pesadas, já que nós passávamos por pequenas cidades sem transporte público nos fins de semana, em lugares como a Bulgária e a Turquia.

Comprometemo-nos a passar o ano em acomodações simples e escolher os modos mais baratos de transporte. Nos últimos dois anos, eu vinha sentindo que tinha perdido a simplicidade da minha vida. Muitas de minhas conversas giravam em torno de comida orgânica, reservas de jantar e espetáculos da Off Broadway. Queríamos começar a nossa jornada retirando-nos do ruidoso material supérfluo.

Ao chegar na Índia, nós aprendemos ioga em um ashram no meio da floresta, ao sul, e meditação nos Himalaias. Eu estava mais agitado que calmo neste período, principalmente porque eu lutava com a perda de minha independência, enquanto vivia no relógio apertado do ashram. Você tinha que acordar às 5:00, logo que a campainha tocava pela manhã; você seria marcado como “ausente” do curso de formação do professor de ioga se você se atrasasse mais de cinco minutos para a aula. Você não podia falar durante as refeições; e cada minuto do dia era rigidamente programado.

Fiquei surpreendido com o quão desconfortável foi para mim ser mais uma vez um iniciante. Durante seis meses, eu não era diretor em uma grande empresa em Nova York. Eu era apenas alguém que mal tinha praticado yoga e meditação antes na vida e que estava sendo repreendido pelos gurus por ser inflexível e inquieto. Lentamente, eu encontrei uma certa quietude na rotina diária do ashram, e eu suspeito que tinha tanto a ver com a dissolução gradual dos meus conceitos e rótulos sobre mim como com a prática na esteira.

Passamos os últimos três meses do ano sabático escrevendo nossos romances em uma pequena aldeia portuguesa. Meditei e fiz ioga todos os dias, e, pela primeira vez, escrevi sem contornos, estruturas e trajetórias de personagens detalhados, tentando apenas tornar-me um meio para meus personagens contarem suas próprias histórias. Como em grande parte do ano sabático, eu estava fora da minha zona de conforto, mas profundamente grato.

Para a surpresa de Kraft, eu retornei ao meu trabalho um ano depois que saí. Pensei que eu seria uma pessoa mais calma depois de passar grande parte do ano praticando yoga e meditação, mas eu sempre ficava aquém das minhas expectativas ao lidar com as situações habituais do estresse no trabalho.

Ainda assim, desde o meu retorno, eu tenho sido muito menos rígido do que antes. Talvez como resultado de perder o controle durante grande parte daquele ano, encontro-me mais aberto para experimentar ideias inspiradoras e espontâneas, sejam minhas ou dos outros, em vez da linearidade, de uma necessidade de retorno por investimentos estratégicos. Pouco tempo depois do meu regresso, por exemplo, eu aprovei uma campanha de publicidade que não tinha nada a ver com o que eu tinha planejado, e ela foi melhor do que qualquer coisa feita por mim antes.

Eu também me tornei mais aberto para planos de carreira. Nem todo mundo está em uma linha reta de diretor para presidente para C.E.O. No passado, em meu trabalho, eu mantive para mim mesmo o meu profundo interesse pela meditação e pela escrita para que não fossem vistos como distrações de minha carreira. Agora eu os vejo como um fluxo integrado de aprendizagem constante.

Eu pensava que não conseguiria mais promoções porque eu tinha tirado um ano de folga. Em vez disso, a minha carreira deu uma acelerada depois do ano sabático, e rapidamente eu cheguei a uma posição melhor na Kraft. Então eu saí da Kraft e me tornei diretor de marketing em uma start-up. No entanto, tenho memórias dentro de mim, me lembro de dormir no chão do ashram e de cair dos suportes de cabeça, memórias arraigadas o suficiente para nunca mais levar os títulos tão a sério.

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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