Revista Mandala
Tara Vermelha no templo de Viamao. Pintura de Tiffani Gyatso

O dia em que eu me sentei ao lado de uma dakini no ônibus

Diferente de quem evita contato, esses seres envolvem, encaram e nos atravessam. Um deles me arrebatou outro dia.

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O que são esses seres que esbarram em nós, nos dão olhares relampejantes, nos cortam a alma ao meio e se infiltram em nossa membrana conduzindo tremores internos?

Às vezes em um segundo, às vezes em um encontro; encontros de coincidências inexplicáveis, situações desconcertantes que muitas vezes – todas as vezes – evitamos: afinal, como explicar? Para que isso não aconteça, não trocamos olhares com estranhos, evitamos lugares escuros, nos calamos dentro de nós mesmos para não chamar a atenção de alguém desconhecido intrometendo-se em nossa vida como se fosse uma estrada de terra a ser pisada aos pés descalços irreverentes. Os tibetanos têm um nome para esses “seres”: dakini.

Representação artística de Dakini (Imagem: Reprodução/www.theyoginiproject.org)
Representação artística de Dakini (Imagem: Reprodução/The Yogini Project)

Escute esse nome sendo pronunciado por um tibetano no pico do mundo ao avistar uma tempestade chegando com formações de nuvens escuras. Escute dakini ou o outro termo, khandro, para esses seres que se esbarram, às vezes de aparência horrenda, às vezes de aparência irresistivelmente sensual: é uma energia que toma o aspecto da sabedoria selvagem das mulheres.

Quando essa energia se manifesta nelas, não é sempre consciente. A personalidade é posta de lado e a dakini expressa, dança e fala. A energia da sabedoria selvagem do feminino está em todos, inclusive nos homens. Não é uma “entidade”, mas algo que desperta quando tocamos esse canto oculto do nosso próprio ser.

Na arte, no momento de criação, eu tento muitas vezes me conectar com essa sabedoria de dakini, muitas vezes inconveniente, irreverente, selvagem, destemida, provocadora, pois é ela que questiona, quebra tabus, vê além, pula, abre, revela e guarda. Enquanto nos protegemos do mundo, enquanto nos protegemos dos nossos medos e inseguranças ilusórias, criamos muralhas – e quanto mais estreita forem essas paredes, menos um ser é capaz de revelar.

Exposta no hall do Monastério de Sera, Tibet (Imagem: reprodução)
Exposta no hall do Monastério de Sera, Tibet (Imagem: reprodução)

Um encontro com dakini no ônibus

Novembro do ano passado, quando estive em Londres fazendo o workshop de Geometria Islâmica no Prince School, pensei nas dakinis: como se revelariam? Seria eu capaz de ver? Para os olhos de Buda, tudo é luz, tudo já é iluminado e parte do mesmo. Minha tentativa é “sair do caminho”, tirar os véus e ver, realmente ver.

Eis que no último dia, voltando ao aeroporto (muito mais carregada na volta, com livros, tinta e o resto… que toda mulher sabe!) peguei um ônibus ao metrô mais próximo. Pedi ao motorista do famoso ônibus vermelho de dois andares para me avisar chegando no ponto. Eis que uma mulher pelos seus 50 anos, negra, vestida elegantemente, se ofereceu para avisar-me. Arrastei minha mala e me coloquei ao lado dela, de pé.

Ela ficou me olhando, com olhos sérios e investigadores e sem intimidação nenhuma – ela olhava do jeito que bem entendia. Então decidiu me perguntar de onde eu era. Respondi. Pouquíssimo ‘small talk’ e ela logo sussurra algo para mim. Olhos arregalados, profundos, sérios. Eu digo que não ouvi e ela pede para que eu me abaixe e me aproxime dela. Ela me sussurra ao pé do ouvido:

Se você morrer hoje, quem é a primeira pessoa que vai saber?

Imagem: reprodução
Imagem: reprodução

Ergo minha coluna e respondo com uma risada nervosa, a tempo de pensar um zilhão de coisas do tipo “ela vai me matar, ela vai lançar um feitiço com esse olhar que desnuda qualquer um, ela tá me tirando… ou ela viu meu futuro? Sabia… é hoje que meu avião vai cair. No mar. Pesadelo.”

Ai, credo! Então lembrei de uma coisa que Dzongzar Rinpoche disse: “dakinis são inconvenientes…”

Mudei meu olhar. Finalmente respondi:

— Se eu morrer… Não sei quem vai saber primeiro. Deus…? — testei.

Ela pede para que eu me aproxime de novo de seus grandes lábios, voz rouca, descrição de Nina Simone (oh my god):

Se você morrer hoje, quem vai ficar com seus bens?

Putz, pensei, ela tá vendo meu anel? WTF? Ela quer me matar e pegar? Shiu!

— Eu… eu não sei. Acho que isso não importa, não é mesmo? E você? — Falei.

— Eu? — ela continuou sem pausa no seu olhar, me prendendo completamente na sua intensidade — Eu tenho medo. Tenho medo que meus filhos estejam só esperando eu morrer para pegar minhas coisas.

Concluí, em seu olhar raro, que ela era mulher que sentia demais e aquele corpo dela carregava uma alma que mal lhe cabia. Algo na postura dela dizia isso. Confiei nesse feeling, e provoquei:

— Mas se você morrer, não importa quem vai ficar com seus bens, não é?

— De fato… Importa se eles vão me amar em vida ou não — olhar no olhar, a diva não pisca e continua: — Mas sabe o que é mais importante? Você sabe? Você sabe mesmo? É saber quem você é!

A voz gospel… Ritmizada, pesada, grave. Eu entrei em sua dança e perguntei, fitando com meus olhos também no “modo intenso”:

— E você? Você sabe quem você é?

Pausa. Olhos nos olhos, respira junto e com a lentidão e peso que só uma certeza move, ela confirma com sua voz já descrita:

— Oooooh sim, com certeza eu sei.

Sua parada, moça! Tenha um bom dia.

Dakinis na parada de ônibus. Thank you!

Tara Vermelha no templo de Viamao. Pintura de Tiffani Gyatso
Tara Vermelha no templo de Viamao. Pintura de Tiffani Gyatso

Tiffani Gyatso

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