Revista Mandala

O que é o Sagrado Masculino e como ele pode torná-lo um homem melhor

Patriarcado, papeis sociais, orientações de sexo e gênero: o Sagrado Masculino está acima das denominações e a seu favor.

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Patriarcado, papeis sociais, orientações de sexo e gênero – entenda como o Sagrado Masculino está acima das denominações e a favor do seu desenvolvimento como ser humano, especialmente se você for um homem.

A concepção do Sagrado Masculino busca auxiliar os homens a encontrarem a divindade dentro de si e fazer bom uso de sua natureza masculina, conciliando-a com o Sagrado Feminino de forma bondosa e consciente. Apesar de sua origem pagã, sendo incentivado historicamente em crenças politeístas (em especial entre os celtas e os indígenas), os seus fundamentos acompanharam as mudanças do tempo e, nos dias de hoje, estão ao alcance dos praticantes de qualquer religião – ou de nenhuma. É claro que muito do que se diz e se espera hoje do “ser homem” está vinculado a dogmas e expectativas religiosas. No entanto, a descoberta da verdadeira masculinidade, em especial com a evolução do pensamento crítico com relação aos papeis do homem e da mulher na sociedade, está ligada essencialmente à natureza e ao espírito. Em outras palavras, o Sagrado Masculino traz à luz a ideia de um verdadeiro “ser homem”, que não tem nada a ver com religião ou papeis sociais, e sim com a relação mais simples e “primitiva” do ser, voltada para a harmonia e a maturidade.

Na cultura celta, o Deus Cornífero representa o Sagrado Masculino. (Arte: Susan Seddon-Boulet/Reprodução).
Na cultura celta, o Deus Cornífero representa o conhecimento e a força do Sagrado Masculino. (Arte: Susan Seddon-Boulet/Reprodução).

Como aponta Natan Brith, que há sete anos estuda profundamente sobre o tema, esse seria um movimento de correntes filosóficas que buscam desenvolver o autoconhecimento do homem a partir da observação de seus arquétipos. “O Sagrado Masculino existe desde as épocas remotas de nossa história”, ele conta. “E através de estudos antropológicos, mitológicos e teosóficos conseguimos analisar as diferentes formas que o homem se relacionou consigo mesmo como ser masculino e sua conexão com o Sagrado”.

Mas como funciona essa descoberta?

É preciso se sentar em alguma posição específica, cantar algo em uma língua diferente, meditar durante horas em busca do Homem Interior? Isso depende. A metodologia varia, mas o processo é muito mais simples e natural do que pode parecer. Natan, que durante alguns anos aplicou a técnica em um Círculo de Homens, onde guiava meditações e organizava debates sobre a imagem do masculino e as vivências pessoais de cada participante, conta que o primeiro passo é entender que, como seres da natureza, todos vivem em comunhão com os ciclos da Terra. Ele classificou esses ciclos como macrociclos, mesociclos e microciclos, todos parte do processo de conhecimento diante do Sagrado.

“Os macrociclos estão relacionados ao ciclo de nossa vida – nascimento, infância, adolescência, vida adulta, velhice e morte”, ele explica. “Os mesociclos estão relacionados ao movimento solar e da Terra, às estações do ano, ao ápice e ao declínio de energia do Sol. E os microciclos, relacionados ao movimento da Lua, ou seja, os meses”.

A partir disso, ele conduzia os participantes às suas experiências de descoberta. Cada etapa desse processo é muito pessoal e tem relação com a singularidade de cada ser que a leva a sério. Vão desde a observação da infância, passando pelo desprendimento de mágoas e chagas que se coleciona no decorrer da fase inicial da vida, até a intervenção de um olhar crítico sobre os exercícios social, emocional, espiritual e sexual no mundo como um homem. “É essencial que o homem conheça seu corpo e se conecte com a sua energia sexual”, Natan diz.

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Mas os métodos podem variar, apesar de seguirem o mesmo eixo. Ahanti Camarano ministra experiências de aproximação com o Sagrado em um retiro que ele chama de “Guerreiro & Deusa”, onde os retirantes têm a oportunidade de investigar-se com relação aos seus masculinos e femininos. Ele e sua companheira, Tiffani Gyatso, utilizam técnicas de meditações ativas, com o objetivo de, primeiramente, despertar as energias primais, mais básicas do ser, e então propõem a descoberta da essência sexual de cada um. De acordo com Ahanti, que oferece os retiros desde 2005, existe uma linha cujas extremidades são o “masculino” e o “feminino”. No centro, há o ponto neutro.

“Para cada pessoa, existe um ponto que é ‘natural’ ao longo dessa escala, que depende de fatores genéticos, experiências em tenra infância, e assim por diante”, ele descreve. “E qual a importância de localizar a sua essência sexual? É que o conjunto de práticas meditativas adequadas para o masculino ou para o feminino são completamente diferentes, em um caso ou em outro”.

Abaixo, confira algumas fotos registradas durante encontros ministrados por Tiffani e Ahanti no Retiro Tao Tien. As imagens são de arquivo pessoal e foram tiradas em diferentes ocasiões e edições do retiro:

Segundo Ahanti, o que está em jogo nessa experiência é uma possibilidade de amadurecimento e encontro totalmente desvinculada de religiões, que se volta para a evolução pessoal. “Trato o conceito (do “sagrado”) como a recuperação, um reencontro mesmo, desta conexão perdida com nossas próprias raízes”, conta. “No que se refere ao masculino, este reencontro significa recuperar valores do masculino que se perderam historicamente desde a Revolução Industrial, quando o crescimento das funções burocráticas e administrativas e o trabalho na fábrica afastou os pais de seus filhos homens e removeu o aprendizado natural”.

Cuidado com os enganos

Há um desafio muito grande em guiar qualquer pessoa em um processo como esse, bem como de permanecer em sua decisão de busca depois que o retiro ou o círculo de debate terminam. Tanto Ahanti quanto Natan alertam para os possíveis enganos (e desenganos) que podem advir de uma procura muito sistemática. “Não existe uma regra, um molde ou uma verdade absoluta de como trabalhar com o Sagrado Masculino”, Natan esclarece. “A conexão com o sagrado não está em nenhum curso, em nenhum sacerdote, está dentro de vocês. Vai de cada um querer, buscar, estudar e meditar para encontrar essa conexão verdadeira”.

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Para Natan, os perigos das buscas muito fervorosas e imediatistas têm a ver com o tempo em que estamos vivendo, uma era, segundo ele, “em que as pessoas esperam que os gurus e os sacerdotes deem todas as respostas para seus questionamentos internos, assim, de forma pronta e instantânea sem nenhum esforço ou trabalho”. Mas ele está certo de que não é assim que funciona. “Pelo contrário”, diz. “O Sagrado Masculino causa mais questionamentos do que dá respostas. É necessário que cada um busque essas respostas dentro de si”.

Ahanti adverte para o mesmo cuidado quando fala sobre onde realmente teremos que passar no teste depois do aprendizado no retiro. “O teste é sempre nas situações da vida real, situações concretas. É muito fácil ser íntegro e ‘sagrado’ num workshop. Mas o teste verdadeiro é como o indivíduo se conduz no mundo, com seu trabalho, seus desafios pessoais, e sua vida íntima”.

Patriarcado, homossexualidade e o equilíbrio na visão do Sagrado Masculino

Somos homem e mulher. Pelo menos de acordo com a concepção do equilíbrio que o Sagrado propõe. É que, voltando àquela escala apresentada por Ahanti (cujas extremidades são masculino e feminino), cada um habita um ponto de convergência pessoal no seu interior, formado por características polares. “Em geral, 80% dos homens têm uma essência sexual masculina, 10%, feminina, e outros 10%, neutra”, Ahanti conta.

A harmonia e o equilíbrio entre e os Sagrados Masculino e Feminino são fundamentais para o desenvolvimento espiritual nesse campo. (Arte: Autoria Desconhecida).
A harmonia e o equilíbrio entre e os Sagrados Masculino e Feminino são fundamentais para o desenvolvimento espiritual nesse campo. (Arte: Autoria Desconhecida).

Para Natan, essa é uma questão especialmente interessante. Sua maior motivação no percurso de busca do Sagrado Masculino, ele conta, foi o fato de ser gay e ter tido sua masculinidade questionada durante toda a vida. Desde que começou a se aprofundar nos estudos e nas práticas meditativas, percebeu que o padrão social de masculinidade vem essencialmente de uma doutrina cristã cujo pilar é o patriarcado. “O patriarcado é um sistema cruel aos homens por fazer com que neguem e oprimam parte de si mesmos”, ele afirma. “Somos seres polarizados, não somos 100% masculinos e 100% femininos. O Sagrado Masculino e Feminino são uma coisa só, pois um existe dentro do outro e em separado”.

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O Deus Azul, ou Deus Queer, é uma entidade recentemente adotada entre os pagãos. Ele não representa apenas o masculino ou feminino, mas uma face “andrógena” do ser humano (Arte: Paul Sucker).

No que diz respeito às práticas de descoberta do Sagrado Masculino por parte de homens gays, Natan observa que não importa o gênero. De acordo com ele, os seres humanos são demasiado complexos para serem classificados pelos seus órgãos sexuais. “A conexão com o sagrado não se limita ao sexo”, declara. E deixa um recado: “Sua sexualidade é apenas uma parte pequena do que você é, não se permitam serem rotulados por isso, não tenham medo de explorar os aspectos arquetípicos que vocês possuem achando que ser masculino é ser hétero, porque não é isso. Se abram para a conexão verdadeira com múltiplas faces do Deus que descobrirão quão múltiplo vocês são”.

A composição multifacetada do Sagrado, bem como as várias perspectivas sobre esse caminho, são descritas de forma semelhante por Ahanti. “Isso independe absolutamente da orientação sexual de cada um: um homem pode ser heterossexual e ter uma essência sexual feminina, bem como pode ser homossexual e ter uma essência masculina”, explica. “Todas as combinações são possíveis”. Ele lembra, ainda, do Yin-Yang ao falar sobre a polaridade da essência sexual: “Todo ser humano tem dentro de si mesmo ambas as características daquilo que podemos chamar de masculino e feminino. Nesse sentido, amadurecer espiritualmente significa, entre outras coisas, ser capaz de ganhar fluência no feminino e no masculino, emulando-os da forma mais adequada à situação em questão”.

Equilíbrio, portanto, seria uma das respostas. Encontrá-lo é o desafio. Para os que desejam se aventurar nessa jornada, é preciso vontade. E tempo também, disponibilidade para o conhecimento. Natan recomenda o estudo, Ahanti menciona a investigação sobre a natureza da sua “essência sexual”. Seja como for, ambos deixam bem claro que o processo é pessoal, que um guia é apenas isso: um guia. O descobridor é você.

Mas, depois de ler tudo isso, por que eu, homem, deveria me preocupar?

Caro leitor, por favor, não se preocupe. Você não deve se preocupar com nada em sua vida. O Sagrado Masculino é uma busca justamente pelo contrário: superando, abraçando e entendendo características do seu masculino, a relação com o mundo ao seu redor se tornará mais consciente e despreocupada. Mas é claro que, antes, é necessário ficar atento: para alcançar qualquer progresso, é preciso investir nele de peito aberto. Desmistifique seus conceitos de homem e mulher, abra-se para o vazio. O homem, como ser social no mundo da matéria, é dotado de “privilégios” que, muitas vezes, podem prejudicar os outros e a si mesmo. Portanto, abra mão disso. Pode parecer uma tarefa muito difícil. Afinal, como lembra Natan, somos criados em uma sociedade machista. Mas o seu eu verdadeiro é melhor que isso.

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Inclusive, Natan aconselha que todo homem procure conhecer sobre o Sagrado Feminino da mesma forma como procura o Sagrado Masculino. “Isso é fundamental para ele aprender a valorizar a imagem do feminino, aprender a lidar melhor com as mulheres e respeitar os ciclos e as necessidades femininas. Da mesma forma, as mulheres precisam conhecer o Sagrado Masculino, tanto para criarem seus filhos dentro de um ideal diferente de masculinidade, livre dos conceitos retrógrados do patriarcado, e aprender sobre como lidar com os homens e com o masculino que há dentro delas mesmas”.

O retiro oferecido por Ahanti e Tiffany não se chama “Guerreiro & Deusa” à toa. A busca vem na forma de um reencontro com o que há de mais natural dentro do ser. “Essa descoberta do guerreiro interior está diretamente relacionada à investigação sobre a natureza de sua essência sexual e, caso esta seja masculina, no desenho de um conjunto de práticas customizadas para a situação individual de cada um, para que o masculino sagrado possa ser recuperado e reintegrado à sua vida cotidiana”, Ahanti descreve.

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Portanto, não há com o que se preocupar. O convite que o Sagrado Masculino faz para o leitor, seja lá qual for sua orientação de sexo e gênero, é para a reunião dentro da Unidade, algo que é despertado com harmonia e paciência, trazendo benefícios imensuráveis para o cotidiano.

“É muito bom ver cada dia mais homens despertando para um pensar diferente a respeito da masculinidade e sobre si mesmos”, Natan comenta. “E o principal foco disso é gerar uma mudança na maneira de pensar e agir dos homens, não os colocando abaixo e nem acima do feminino, mas como iguais”.

Edmar Borges

Um latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, graduando em Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto e vindo do interior de Minas Gerais. Você também me encontra no Obvious Lounge e no Medium Brasil.

comentários

  • Muito legal o texto. Mas é impressionate como o machismo dá rasteiras na gente inclusive quando nosso objetivo é desconstruir ele…

    Em um dos parágrafos finais, onde se fala que o homem deve conhecer/buscar o sagrado feminino para aprender a respeitar as mulheres e as mulheres devem buscar o sagrado masculino… inclusive para *criar seus filhos segundo uma nova lógica*. Ou seja, partimos do principio de que é apenas responsabilidade da mulher criar os filhos. :-/
    Enquanto a gente não quebrar a ideia de que casa e filhos são responsabilidade da mulher e que o homem só *ajuda*, não teremos igualdade.

    Os homens também devem conhecer o sagrado feminino para educarem suas filhas segundo essa ideia, não é? fica o cutucão.
    Beijo

    • Oi, Luka! Ótima colocação, obrigado! Realmente, precisamos não só abandonar como combater esse conceito de que a mulher é responsável pela criação das crianças. Eu mesmo (autor do texto, Edmar) e meus irmãos fomos criados exclusivamente pelo meu pai na maior parte da vida. Não alteramos o texto neste sentido pois foi uma colocação da fonte consultada, e optamos por manter o trecho na íntegra para não acabar cortando informações tão importantes quanto esse combate. De qualquer forma, reiteramos a veracidade do seu comentário. Abraço!

  • Muito interessante. Estava a procura deste conceito de Sagrado Masculino, já que minha esposa está estudando o Sagrado Feminino.
    Mas… como sou humorista gráfico (faço charges), não pude deixar de rir do nome do “nosso” deus, o CORNÍFERO! Pô!
    Hehehehehehehehehehehe!

  • Gostei muito desse post. Truxe muita luz para um tema que tenho debatido muito em minhas reflexões, do meu lugar como homem perante a nova sociedade que está emergindo. Gostaria de saber mais sobre esse retiro.
    Aho!

    • Olá, Fabricio! Obrigado pela sua visita e que bom que gostou! O retiro ministrado por Tiffani e Ahanti acontece sazonalmente no Retiro Tao Tien, no sul de Minas Gerais. Acredito que você possa encontrar mais informações buscando sobre o retiro na internet. Abraço!

  • Legal essa discussao sobre sexualidade nas leituras de sagrado feminino e masculino, mas como você trabalha a ideia do sagrado masculino com as pessoas transgeneras?

    • Olá! De acordo com uma vertente muito recente do paganismo (que contempla as práticas dos Sagrados), o Deus Azul seria a representação dos arquétipos transgêneros por se tratar de uma entidade formada pelo reflexo da Mãe sem necessariamente ser feminina. Em todo o caso, como informaram Ahanti e Nathan em entrevista, esse exercícios do Sagrado dizem respeito a uma familiarização com todos os arquétipos, sejam eles masculinos ou femininos, independente da sexualidade, por exemplo. Ou seja, somos todos/as homem e mulher a partir dessa concepção, de forma que basta nos concentrarmos em “chamar” o nosso feminino ou o nosso masculino de acordo com a ocasião em que estamos inseridos, e assim não entram em conflito nossas representações pessoais e identidades de gênero.

      Espero ter sanado a sua dúvida! Grande abraço.

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