Revista Mandala

O que o Budismo tem a dizer sobre seu relacionamento

Relacionar-se vai além de estar junto. Mas tem tudo a ver com estar presente.

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Com o dinamismo das formas de contato, a baixa da busca por uma vida conjugal nos moldes tradicionais e as exigências da rotina de trabalho e de dedicação individual, manter um relacionamento pode ter se tornado o último objetivo para muita gente. Afinal, o estado da solidão tem sido cada vez mais naturalizado, vinculado a uma independência afetivo-sexual. Muitos não precisam mais de outro/a para se satisfazer, o que pode ser indício de uma evolução sentimental coletiva dos seres humanos, já que a necessidade do/a outro/a para qualquer tipo de satisfação pessoal é tão perigosa e frustrante.

O mundo está aí para nos dizer. Corações partidos, rompimentos trágicos, o fim do mundo numa lembrança sem mais sentido. É em decorrência de uma série de desilusões que muitas pessoas preferem ficar solteiras. Mas será que isso tem a ver com aquela premissa de “o amor machuca” ou com uma ideia de amor totalmente fora do eixo?

Amor genuíno e amor romântico: a diferença pode significar tudo

Em entrevista para O Lugar, Jetsunma Tenzin Palmo, monja do budismo tibetano, fala sobre a diferença entre o apego e o amor verdadeiro. Segundo ela, as pessoas têm se confundido com relação a essas definições porque estão, na maior parte do tempo, olhando para o relacionamento sob uma perspectiva do romantismo, que machuca e cria expectativa. “Quanto mais nos agarramos, mais temos medo de perder”, ela diz.

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Esse romantismo foi histórica e socialmente criado. E, de acordo com o monge Genshô, que supervisiona o portal zen-budista Daissen, isso não vem de hoje, como muitos acreditam. “Basta ler os mitos gregos, como de Orfeu e Eurídice, e de outras culturas, para ver o romantismo como fenômeno antigo”, ele conta. Sobre o apego, que é gerado por esse amor romântico, Genshô diz que ele seria “o amor que se manifesta como posse, como propriedade do outro, então mais amor a si mesmo do que amor na acepção altruísta e elevada da palavra”.

No cinema, na música, na literatura: o amor romântico coordena, em muitas expressões de arte, o sentido de se criá-la. A frustração de um término, a traição, o abandono… Como lembra o monge Maurício Hondaku, ministro do Dharma da Ordem Shinshu Otani, na Escola Budista da Terra Pura, “o conceito corrente de amor é aquele apegado, sofrido, aquele contido nos cancioneiros neo-clássicos portugueses”. Maurício deixa bem claro que, na verdade, esse “tipo de amor” é uma paixão rotulada como algo diferente.

Mas ele alerta para a não existência de “tipos” de amor no budismo. “Buda nunca falou sobre amor. Não se acha essa palavra nos sutras budistas”, ele conta. “Buda sempre se referiu a um sentimento chamado metta, em pali, ou maitri, em sânscrito, que é a associação amor-compaixão”.

couple-kissing-1149677_1920A compaixão, que no Budismo representa uma expressão evolutiva do ser, é justamente a que Tenzin Palmo se refere em sua entrevista quando fala sobre o amor genuíno, ou seja, aquele que independe das ofertas do outro, das barganhas afetivas, para se manter. Maurício explica que esse “amor-compaixão” ou “amor genuíno” é aquele que deseja a felicidade do/a outro/a mesmo que ele/a não retribua o sentimento. “Um amor livre de apego, que leva em consideração o bem-estar e a felicidade do outro como sendo mais importante que a própria”, ele diz. “Um amor que se morre por ele, mas que é muito difícil de se encontrar e de se sentir”.

Relacionar-se é sentir, não investir

Ao mesmo tempo em que um relacionamento, seja matrimonial ou não, é incapaz de determinar o nível de felicidade de uma pessoa ou seu valor social e pessoal, pode ser um compromisso interessante a se assumir, talvez por ser um dos mais complexos dentre os vários que selamos todos os dias. A experiência de viver em conjunto, em presença e compartilhamento com outra pessoa, é vista por muitos como uma oportunidade de crescimento e aprendizado. De qualquer forma, estamos nos relacionando o tempo todo, gostando disso ou não. Mas no campo afetivo-sexual, como podemos tornar nossa relação melhor a partir do momento em que decidimos investir nela?

Talvez o primeiro passo seja não investir, pois essa ação cria uma ideia de retorno, de recompensa, que advém do frágil e imprevisível amor romantizado. Um relacionamento, seja a dois ou entre mais pessoas, não deveria ser comparado a uma empresa, mas a uma etapa de um ciclo, que deve ser observada. Com atenção. Isso é diferente de obcecar-se por uma ideia.

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“O Buda falou que a atenção plena era a chave para a Iluminação. Isso se resume a nunca sucumbir à rotina da vida, sempre parar e ver todos os detalhes da vida, nas pessoas, nos relacionamentos”, Maurício explica. “Quando prestamos atenção em nós e no outro, desenvolvemos automaticamente uma compaixão genuína que nos leva a metta. Então, mais do que nos conhecer, que é quase impossível, temos que prestar atenção e sempre nos colocar nos sapatos alheios para entender o que o outro sente e porque sente”.

Um ciclo em vez de uma condição eterna

“Buda explicou que a vida é cíclica, mutante e por natureza insatisfatória”, o monge Genshô recorda. “Nos relacionamentos, as pessoas costumam projetar o que desejam do outro, o que querem da relação. Como as pessoas estão continuamente mudando, é natural que se sintam frustradas em relação ao que imaginaram”.

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Genshô acredita que o segredo para uma relação mais plena e feliz é a aceitação do que o/a outro/a realmente é. Segundo ele, as fantasias que imaginamos e criamos sobre outras pessoas provavelmente nasceram no egoísmo.

Para o monge Maurício, que é da vertente Jodo Shinshu, o budismo vê os relacionamentos associados a carmas, que podem ser “bons” ou “maus”. “O relacionamento entre duas ou mais pessoas está diretamente ligado aos laços cármicos que os juntaram e os mantém juntos”, ele afirma. “Um dia esses laços podem acabar, esse carma pode se extinguir e os relacionamentos acabam. Buda dizia que tudo é mutável, tudo se transforma, logo, relacionamentos também!”

Quer dizer, tudo e todos mudam. Com o tempo, as pessoas envolvidas num relacionamento podem descobrir interesses que divergem. Maurício, que é casado há 22 anos, conta que há duas décadas nem passava pela sua cabeça que ele seria um monge, e assim como sua esposa se adaptou às escolhas dele, ele se adaptou às mudanças dela, pois ambos não são mais os mesmos depois de todo esse percurso. “Acho que essa capacidade de ver a mudança no outro e ainda dizer ‘ok, ainda está tudo bem, tudo continua alinhado’ é o que nos mantém juntos”, ele conta. “Mas um dia poderemos nos olhar e perceber que nossas mudanças afetaram nosso dia-a-dia a tal ponto que temos que seguir caminhos diferentes…”

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Alteridade e sinceridade podem ser a resposta

Uma união, uma relação de confiança e doação, também se baseia em “um dia de cada vez”. E essa conquista diária, essa nutrição carinhosa e constante, deve ser feita com sinceridade, na opinião de Maurício. “Saber se comunicar e ter o coração transparente é o que mantém duas ou mais pessoas dentro de um relacionamento. E isso funciona para amizades, namoros e casamentos”, ele esclarece. “Temos que entender essa mutação da vida e adaptar nossos relacionamentos, e isso só vai funcionar com diálogo franco e entendimento das ações”.

Já nas palavras de Genshô, que acredita que a paz vem muito mais fácil se não houver mentiras, um relacionamento só pode fluir com compaixão. “Abdicar do egoísmo é o melhor caminho para a felicidade”, ele conclui.

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Leia também Os pactos de namoro e as (in)fidelidades, um artigo sobre alguns questionamentos que podem surgir ao se iniciar uma relação de namoro.

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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