Revista Mandala
Coletânea de trabalhos de arte encontrados na Internet

O que o mundo real me ensinou sobre espiritualidade depois que o retiro acabou

Encarnar um ser espiritualizado é tentador, mas logo chega a hora de subir ao palco com seu único personagem: você de verdade.

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As obras que acompanharão sua leitura são do ilustrador polonês © Janusz Jurek.

Em 2014, no auge de uma crise depressiva digna de registro shakespeariano, resolvi por livre e espontânea necessidade provar minha resistência física e emocional em uma viagem autossustentável por dois estados brasileiros. Sem dinheiro, sem companhia, sem obrigações: como dizem os ciganos, o céu foi meu teto, a terra foi meu lar e a liberdade se tornou minha religião.

Em três meses, aprendi mais do que nos três anos anteriores. Nessa brincadeira, fiz um bocado de coisa que nunca tinha feito. Entre Minas e São Paulo, acampei na beira da Fernão Dias e passei a noite ouvindo o motor dos caminhões, mal alimentado por uma sopa preparada numa fogueira fracassada. Dormi sob a marquise de um posto de gasolina onde também era um ponto de prostituição bem movimentado. Cruzei com histórias que nem sei descrever, mas as pessoas simplesmente me viam com a mochila e vinham me contar. Fui abrigado por parentes e amigos da família que não via há 15 anos, descobri segredos de estado sobre o passado de pessoas que amo, causei conflitos aqui e ali sem querer.

E isso não foi nada. Morei em um albergue público, em um retiro ecumênico e até na casa de gente que eu nunca tinha visto antes. Ainda assim, não foi nada. Tive a experiência de, pela primeira vez na vida, dar a devida atenção para algumas coisas. Uma delas foi a espiritualidade.

Mas isso não foi nada.

(Reprodução/Janusz Jurek)
(Reprodução/Janusz Jurek)

De origem católica, mas sem nunca ter sido praticante a não ser por obrigação ritualística, essa questão nunca tinha me ocorrido dessa forma antes. Eu já havia investido meu tempo em alguns embates teológicos, claro, mas absolutamente nada comparado aos questionamentos que eu tive que enfrentar na situação de um andarilho desabrigado.

E, como muitos, mergulhei.

(Reprodução/Janusz Jurek)
(Reprodução/Janusz Jurek)

Alguns anos se passaram e eu posso dizer que, de um ponto de vista espiritual, já fui muito mais engajado. Não medito tanto quanto naquela época de vislumbre, não oro mais todos os dias, tenho dificuldades para aliviar minha ansiedade ruminante na madrugada. Ou seja, sou só mais uma pessoa buscando lidar com sua mente, dominá-la em vez de servi-la.

Você deve estar pensando que uma viagem como a que eu fiz deveria ter me ajudado com isso, não é? Faz sentido pensar assim. E ajudou, ajudou muito. Mas o que ajudou mesmo foi ter que vê-la se tornar apenas uma memória. Porque, no fim do dia, espiritualidade tem mais a ver com o mundo real do que com nossos retiros e nossas peregrinações.

Quer dizer, o mundo real é uma bolha. Mas o retiro e a peregrinação também são. As viagens, os perrengues, as situações que testam nossa paciência, nosso espírito, nosso caráter: tudo isso são apenas situações. Podem acontecer no alto do Himalaia, no deserto do Atacama ou na sua cozinha: SI-TU-A-ÇÕ-ES. O que você faz com elas?

(Reprodução/Janusz Jurek)
(Reprodução/Janusz Jurek)

É fácil estar bem em um retiro. É fácil meditar no templo. O difícil mesmo é meditar na aspereza do mundo, concentrar-se no que é feio para dissecá-lo a ponto de encontrar o bonito. E é por isso que depois de viver o que eu vivi naqueles 90 dias, depois de percorrer 2.500km de caronas, conhecer mais de 150 pessoas e trabalhar no lugar mais sagrado e surpreendente que já conheci, o importante mesmo foram todas as coisas, algumas realmente absurdas, que vieram quando eu decidi parar.

Minha vida recomeçou com tudo. Não tem sido fácil sempre.

Aí sim, depois de ser cordialmente apresentado à espiritualidade, tive que começar a entendê-la melhor. Ainda estou fazendo isso. E, do modo como vejo, a busquei tanto que me esqueci de notar onde ela realmente fica. Porque não me parece, afinal, que espiritualidade seja essa máscara que você coloca em cima da antiga depois de uma experiência profunda de conexão. A experiência transforma, mas não deve ser usada para assumirmos o papel de um personagem inédito, mais bonito, mais supremo.

Pelo contrário: espiritualidade é assumir sua mesquinhez, sua chaga mais difícil, o que você tem que as pessoas não aguentam mais. É aceitar o papel de personagem secundário, de vilão e de figurante. Espiritualidade requer que você coloque à prova sua habilidade de ir dissecando os personagens, um por um, até começar a arrancar a própria pele, os órgãos, rasgar os músculos, escavar os ossos e chegar ao cerne da composição, ao feio, grotesco e rudimentar ser que você é no escuro, quando ninguém está olhando.

(Reprodução/Janusz Jurek)
(Reprodução/Janusz Jurek)

Isso, sim, é tudo. Isso é algo. A coragem de ser quem você é, estar quem você está.

Quando esse personagem renegado subir ao palco, quando você permitir que ele fale alto e seja a estrela, aí sim você estará começando a entender o motivo de ele te incomodar. E quando entender isso, vai saber exatamente como tirá-lo do show, caso ele próprio não se canse primeiro. A sugestão é: exponha-o.

Assim, dando à tapa sua cara, suas máscaras e seus personagens, vivendo-os sob os holofotes e entendendo do que eles são feitos, você vai mergulhar na lama e reconhecer de perto como o cheiro é bom e a textura é viscosa. Sabe o que sobra, não é?

(Reprodução/Janusz Jurek)
(Reprodução/Janusz Jurek)

O espírito sobra.

Não é o mantra, não é o terço e não são os búzios. Não sobram métodos, não sobram caminhos, não sobram sacerdotes. Não fica o dogma, não fica a catequese, não fica o ritual. Não fica a roupa que você veste, não fica a oração que você faz. Não fica o caminho que você percorreu, mas onde você chegou com ele. E algo me diz que muitos de nós temos chegado no mesmo lugar, apesar de tudo.

Porque ali, nos bastidores de nosso espetáculo diário, foi onde o espírito sempre esteve. Você nunca notou? O que eu quero dizer é que, na minha opinião, não se chega ao espírito atravessando um portal mágico, porque não existe mágica. É apenas atuação. Lembre-se de uma coisa sempre que puder: a espiritualidade não mora na regra, ela mora na sua particularidade.

(Reprodução/Janusz Jurek)
(Reprodução/Janusz Jurek)

Às vezes, a caneta que eu estava usando agora mesmo desaparece. Eu passo horas procurando-a na bagunça da mesa. Onde a deixei? Onde a enfiei? Onde fui com ela? Eu não saí daqui! Aí eu deixo pra lá, vou tomar um ar, dar uma volta, suspirar na janela, assistir um seriado, me apaixonar por alguém que nunca conheci, fazer um retiro por aí. Então, quando me dou conta, a caneta estava atrás da minha orelha esse tempo todo.

Desatento desse jeito, até hoje me pergunto como sobrevivi àquela viagem.

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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