Revista Mandala
Foto: Flávia Gobato

O tempo passa diferente na aldeia Imbiruçu

Duas fotógrafas brasileiras registraram o dia, a noite e a sabedoria ancestral do povo da etnia Pataxó, em Minas Gerais.

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A história de luta e enfrentamento dos povos indígenas, verdadeiros herdeiros deste país, tem sido marcada por muitos desafios. Trata-se de uma busca por existir, pelo direito de ser. Com a demarcação das terras quilombolas, por exemplo, e com a imposição cultural e social de grupos estrangeiros no território brasileiro, originalmente ocupado por esses povos, o processo de ser e se expressar com autonomia pode ser mais complicado do que parece.

Por outro lado, ao existirem, muitos povos resistem. Com sua ancestralidade, sua sabedoria e sua perspectiva. Alguns povos, por exemplo, contam os turnos do dia e da noite de um modo particular. É o caso dos pataxós, um povo simpático que vive na aldeia Imbiruçu, próxima à cidade de Carmésia, no interior de Mina Gerais. Sua forma de enxergar o mundo e seu senso de comunidade foi o que inspirou as fotojornalistas Amanda Sereno e Flávia Gobato a realizarem um ensaio registrando seus dias e suas noites. Foram mais de 2.000 fotografias, das quais elas selecionaram 36 para comporem o trabalho final.

Foto: Amanda Sereno

Para as fotógrafas, é preciso haver mais representatividade dos povos indígenas na imprensa brasileira, além de informações que valorizem seu estilo de vida. “Falta visibilidade de cultura, de culinária, de sabedoria xamânica, de plantas medicinais, de boa convivência… Falta visibilidade em tudo”, afirma Flávia. “Infelizmente, quem não buscar saber uma parte da real história desse povo por vontade própria, nunca irá sair do senso comum”.

Da manhã à quebrada da madrugada: um tempo diferente

A forma como os Pataxós da aldeia Imbiruçu acompanham os turnos do dia e da noite é singular. Eles possuem horários como a quebrada do meio-dia, que é do meio-dia à uma da tarde, e a quebrada da madrugada, no meio da noite.

Foto: Amanda Sereno

Por isso, as fotógrafas chamam a atenção para um dos principais focos do ensaio: retratar a delicada e poderosa relação de afeto entre os indígenas da mesma forma como procuram registrar o senso de comunidade do povo (presentes, como Flávia relata, nos gestos mais sutis do cotidiano, como sua denominação dos turnos).

“Essa denominação demonstra que os indígenas têm uma intimidade com a passagem do tempo“, diz Flávia. “Isto é, os períodos do dia não são vistos como grandes blocos, mas sim como uma sequência sensível de fases de um ciclo“.

Os Pataxós dormem cedo, acordam ainda mais cedo, e passam o dia envolvidos com atividades na aldeia e também funções externas. Além disso, as crianças no processo de alfabetização aprendem na escola indígena que existe na aldeia o idioma nativo do seu povo, chamado Patxohã. Um dos pontos fortes da cultura entre os Pataxós, ainda, é a tradição oral, que se estende ao longo de gerações em um processo de contar e ouvir histórias que tantos lutam para que não se acabe.

Foto: Flávia Gobato

Por outro lado, seu estilo de vida está permeado também pela modernidade, por hábitos contemporâneos e por ferramentas de comunicação atuais, tornando a aldeia um verdadeiro arsenal de incrível miscigenação de tempos e costumes.

Amanda e Flávia contam, em especial, sobre a beleza e a tranquilidade de estarem em um lugar assim. Elas viajaram quatro vezes para a aldeia entre 2015 e 2016, a princípio com o intuito de conhecer as pessoas que lá vivem e registrar informalmente seu estilo de vida; depois, passaram a fotografar não apenas a forma como as crianças brincavam ou como as mulheres realizavam serviços domésticos, mas o brilho no olhar de cada morador da aldeia e, consequentemente, sua maneira peculiar de ver a vida.

As crianças são extremamente responsáveis e orgulhosas de sua cultura. Íntimas da lua, da terra, da água, dos animais, das plantas e do sol.

As crianças, por exemplo, fizeram Flávia refletir sobre o quanto as pessoas podem ir além do que se propõem todos os dias. “Nelas, observei o quanto o ser humano se limita”, ela conta. “São extremamente responsáveis e orgulhosas de sua cultura. Íntimas da lua, da terra, da água, dos animais, das plantas e do sol. A sabedoria delas, com tão poucos anos, me mostrou que o ser humano é incrível e capaz de tudo”.

Amanda também conta que se apaixonou profundamente pelos pequenos índios e sua imensa sabedoria. Os adultos, por sua vez, a impressionaram com seu conhecimento e uma notável praticidade para lidar com as mais variadas situações, uma singela e fundamental capacidade de observar antes de agir. Um lugar especial, com certeza. “As noites na aldeia são memoráveis”, diz Amanda, que se encantou pelo céu estrelado como poucas vezes ela já havia visto na vida e pelo som dos “bichinhos” que sempre segue pela madrugada até o dia raiar.

Foto: Amanda Sereno

Desafios da experiência de inserção

O trabalho, apresentado como material para formação no curso de Jornalismo das fotógrafas, foi feito com muito cuidado e atenção. Como Amanda relata, a ideia era um projeto que a fizesse crescer como pessoa, além de profissional. “E eu estava disposta a enfrentar as dificuldades que surgissem no caminho para realizá-lo”, ela conta. “Foi um período de muito aprendizado técnico, teórico e espiritual”.

Sua lembrança mais intensa, segundo ela, aconteceu na terceira viagem. “Assim que chegamos, lá pelas sete da noite de um dia de semana, o cacique estava convidando alguns moradores para ir ao centro cultural da aldeia”, ela relembra. “Ele nos convidou com pressa, a gente largou a mochila e estávamos só pegando as máquinas fotográficas para seguir com ele, mas fomos interrompidas. O cacique Romildo disse que não era para levar a máquina, porque era muito particular e sagrado”.

Então, ela conta que seguiram sem os equipamentos e chegaram a uma oca iluminada exclusivamente pelas estrelas. Tratava-se de uma reunião especial. “Era um ritual de agradecimento e foi uma das experiências mais fortes que já vivi”, Amanda diz, emocionada. “Eu só agradecia por eles terem me permitido participar de algo sagrado e tão particular. Foi um sentimento inexplicável”.

Foto: Flávia Gobato

Deixar-se participar de uma cultura alheia, no entanto, é um processo repleto de desafios e recompensas. A partir da base teórica das fotógrafas no campo da Antropologia, elas puderam caminhar de forma fluida por esses caminhos de inserção e transformá-los em experiências de troca. “Aprendi muito sobre até onde eu posso ir”, conta Amanda. “Sempre me questionava se estava sendo invasiva ou desrespeitosa, mas é complexo definir esse limite, é muito subjetivo. Entretanto, há coisas que não se pode controlar nessa vivência. Quando você nota, já criou laços emocionais e afetivos com indivíduos do grupo, justamente porque antes de ser fotógrafa, sou pessoa, sou humana”.

Para Flávia, a companhia de outra pessoa “de fora” significou muito para a assimilação final das vivências e dos aprendizados. Ela conta que era durante a noite, na barraca, que as duas podiam conversar sobre tudo o que haviam visto, ouvido e sentido durante o dia: todas as belezas, os encantos e os momentos difíceis que testemunhavam diariamente na aldeia.

Tudo isso, afinal, rendeu o incrível ensaio de 36 imagens que a Revista Mandala traz para você com exclusividade. Confira a seguir, na íntegra, “Da manhã à quebrada da madrugada: ensaio fotográfico sobre a passagem do tempo na aldeia Imbiruçu“:

Foto: Amanda Sereno
Foto: Amanda Sereno
Foto: Amanda Sereno
Foto: Amanda Sereno
Foto: Flávia Gobato
Foto: Flávia Gobato
Foto: Amanda Sereno
Foto: Flávia Gobato
Foto: Amanda Sereno
Foto: Flávia Gobato
Foto: Amanda Sereno
Foto: Amanda Sereno
Foto: Amanda Sereno
Foto: Amanda Sereno
Foto: Amanda Sereno
Foto: Flávia Gobato
Foto: Amanda Sereno
Foto: Flávia Gobato
Foto: Flávia Gobato
Foto: Amanda Sereno
Foto: Amanda Sereno
Foto: Amanda Sereno
Foto: Amanda Sereno
Foto: Amanda Sereno
Foto: Flávia Gobato
Foto: Flávia Gobato
Foto: Amanda Sereno
Foto: Flávia Gobato
Foto: Amanda Sereno
Foto: Amanda Sereno
Foto: Flávia Gobato
Foto: Flávia Gobato
Foto: Flávia Gobato
Foto: Amanda Sereno
Foto: Amanda Sereno
Foto: Flávia Gobato

Todas as imagens aqui apresentadas são de © Amanda Sereno ou © Flávia Gobato.

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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