Revista Mandala

O valor do dinheiro e os valores humanos: entrevista exclusiva com Charles Eisenstein

Nesta primeira parte, o escritor falou sobre Economia Sagrada e contou o que estigma das segundas-feiras tem a dizer sobre o comportamento das pessoas.

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Giovana, que pinta quadros, quer ir no show de uma amiga, mas seu filho de um ano não pode ficar em casa sozinho. Alberto, que adora crianças e leva muito jeito com elas, precisa de um quadro para sua casa. Quando Giovana e Alberto souberem de suas necessidades e ficarem a par de suas aptidões, ambos terão seus “problemas” resolvidos.

Este é um simples exemplo, em pequena escala, do que o filósofo e orador estadunidense Charles Eisenstein chama de Economia Sagrada. Em seu livro Sacred Economics: Money, Gift and Society in the Age of Transition (sem edição brasileira, em tradução livre seria “Economia Sagrada: Dinheiro, Dom e Sociedade na Era da Transição”), ele questiona o uso do dinheiro como uma moeda tão poderosa, que rege tantas atitudes e caminhos na vida das pessoas. A dúvida é: se temos talentos, facilidades particulares, se somos bons em tantas coisas, por que ainda usamos um pedaço de papel para viver em comunidade?

Charles in Living Without Economic Growth (2012)
Charles em Living Without Economic Growth (2012)

Charles acredita que é possível construir grupos em que seus membros ofereçam serviços com os quais são mais familiarizados e nos quais têm mais aptidão, sem precisar barganhar, mas co-experimentar a vivência da gestão e do compartilhamento.

Afinal, nem todos podem dizer que fazem aquilo que acreditam terem nascido para fazer, que se dedicam ao que realmente gostam. Ou que estão usando o dinheiro de uma forma saudável, que estão satisfeitos com suas obrigações, que o sistema monetário mundial parece justo. É inevitável perceber que há algo errado no modo como o dinheiro molda a vida da maioria das pessoas. Mas como isso tudo acontece? É possível fazer diferente? Como o próprio Charles questiona, “que coisas maravilhosas você faria com a sua vida se a segurança financeira não fosse um problema?”

Para entender melhor como a Economia Sagrada funciona e como esse olhar pode ser aplicado à vida diária, nós conversamos com Charles sobre seus estudos e observações. Em entrevista exclusiva à Revista Mandala, o escritor falou sobre o papel do dinheiro na vida das pessoas e como comunidades locais, por exemplo, podem adquirir autossuficiência econômica com base na valorização dos talentos de seus membros. Além disso, ele revelou o que o estigma das segundas-feiras têm a dizer sobre o comportamento das pessoas e comentou, ainda, sobre o movimento degrowth, que busca recuperar a capacidade das pessoas de serem autossuficientes e verdadeiramente valorizadas sem a decisiva intervenção da economia global.

E para que você não perca nada, estamos dividindo a entrevista em duas partes. Confira abaixo o que Charles disse sobre a riqueza que circula no mundo, a importância da alegria e da criatividade no campo profissional e como o dinheiro pode ser utilizado de forma consciente:

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Revista Mandala: Como seria como viver em um mundo onde os nossos talentos fossem nossa moeda de troca e o que pode ser feito para que este mundo se torna cada vez mais real?

Charles Eisenstein: Eu não diria que os talentos seriam “moedas”. No mundo para o qual eu trabalho, cada pessoa se sente livre para se dedicar a seus talentos em direção a algo significativo e bonito, sem medo da insegurança econômica. Hoje não é assim. Hoje, se você dedicar seus talentos para, digamos, a derrubada das florestas, você provavelmente será economicamente suportado, mas se você dedicar seus talentos para proteger as florestas tropicais, você não vai fazer muito dinheiro. Ou se você está cuidando de pessoas necessitadas, talvez os seus filhos ou seus pais idosos. Precisamos de um sistema que alinhe o dinheiro, isto é, o valor, com valores.

Um passo para isso é uma renda básica universal. Há riqueza suficiente no mundo para dar a cada pessoa uma renda que atenda às suas necessidades básicas. Em seguida, estaríamos livres para dedicar nosso tempo e nossos talentos para o que realmente serve ao mundo, o que é belo e significativo para nós. A Renda Universal Básica confia na natureza humana, está confiante de que todos nós temos um desejo de fazer um trabalho útil e contribuir para algo além de nós mesmos. Pense nisso: que coisas maravilhosas você faria com sua vida se a segurança financeira não fosse um problema?

Claro que, para um país como o Brasil, implementar uma renda básica universal agora é difícil, dadas as “realidades” orçamentais. Seria necessária uma reordenação maciça das prioridades da sociedade. Isso também envolveria se livrar do jugo do sistema financeiro baseado em dívida global, que pressiona o Brasil para converter sua riqueza em exportações para gerar relações internacionais e pagar as dívidas. O país fica despojado de sua riqueza, que acaba nas mãos de bancos globais. E se a riqueza fosse totalmente distribuída de forma sustentável para o benefício do povo?

Precisamos de um sistema que alinhe o dinheiro, isto é, o valor, com valores.

Você menciona o fato de as pessoas manterem certos estigmas que persistem e criam sentimentos desconfortáveis. Um deles é sobre a “demonização” das segundas-feiras. Mas não deveria ser assim. O que está acontecendo de errado, na sua opinião, e como a sociedade se comporta com relação a esses alvos já habituais do ódio, do tédio e do medo de cada dia?

Nós vivemos em um sistema em que, normalmente, o trabalho é algo desagradável, algo que preferiríamos não estar fazendo, exceto pela parte em que somos pagos para isso. Então, é claro que tememos a segunda-feira e estamos ansiosos para o fim de semana, quando temos um ou dois dias para viver para nós mesmos e não para o nosso trabalho. Mas por que deve funcionar assim? Por que não deveríamos encarnar a alegria da criatividade em vez disso?

A razão não é uma lacuna pessoal. Sim, talvez você possa mudar a sua atitude, mas o que eu quero mudar é um sistema que exige que a maioria das pessoas passem a vida fazendo um trabalho tedioso, que não as agrada. Não tem que ser assim. Mesmo o trabalho agrícola não se torna opressivo quando não é dia após dia feito como um trabalho monótono, mas é, em uma pequena escala, como uma fazenda ecológica. Cada aspecto de nosso sistema pode mudar. Atualmente, os princípios de design industrial ou princípios de gestão de negócios em geral não incluem minimizar o tédio ou a degradação. Isso vai mudar com uma mudança de valores em torno do trabalho, especialmente se mudar o sistema para um no qual as pessoas não são forçadas a trabalhos opressivos apenas para sobreviver, em um sistema que desvia riqueza para o consumo irracional e o enriquecimento das elites globais.

Um ideal que eu sigo é o princípio da não-acumulação. Eu não aspiro ganhar mais dinheiro do que eu preciso.

Ao abordar este tema tão profundamente e falando sobre o dinheiro como um objeto sem vida, inútil e impotente (quando não damos tudo a ele, claro), eu imagino que o seu relacionamento com estes processos monetários sejam ajustados à sua maneira de pensar. Como você lida com seu dinheiro?

Eu uso o dinheiro simplesmente como a maioria das pessoas em nossa sociedade. Estou muito feliz no que eu faço, no que eu amo, e dinheiro vem como um resultado, pelo menos o suficiente para viver tranquilamente. Um ideal que eu sigo é o princípio da não-acumulação. Eu não aspiro ganhar mais dinheiro do que eu preciso, e mesmo se eu às vezes recebo um monte de dinheiro, eu não o mantenho como poupança ou na forma de investimentos. Eu o gasto em serviços que envolvem as pessoas e em lugares que me interessam. Além disso, dadas as enormes perturbações que vamos enfrentar nos próximos anos, os investimentos são um desperdício de dinheiro. A grande crise, e suas ações e títulos e contas de poupança, pode tornar-se sem valor, meros dados em computadores.

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No curta Sacred Economics, dirigido por Ian MacKenzie, Charles explica o efeito de compartilhar o que se tem, quando se tem mais do que se precisa, em uma comunidade. “Mais do que você precisa” (MORE THAN YOU NEED) é dividido, semeado e gera frutos para o grupo.

Confira aqui a segunda parte da entrevista com Charles Eisenstein!

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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