Revista Mandala

Por que não estamos falando sobre a relação entre o consumo de carne e as mudanças climáticas?

A indústria pecuária tem mesmo se esforçado muito para esconder os benefícios da dieta vegetariana em um mundo ecologicamente colapsado.

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Este artigo é uma tradução. Ele foi escrito originalmente por Judith Friendlander no site The Conversation e pode ser lido na íntegra e em inglês aqui.

Reduzir a emissão de carbono por meio de uma alimentação que utilize menos carne vermelha raramente chama a atenção. Esta estratégia foi recomendada pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, pelos escritos dos epidemiologistas na The Lancet e por uma série de outros pesquisadores e organizações altamente conceituados. Mas parece que não queremos mexer na nossa comida, então melhor não reconhecer o impacto da nossa dieta ocidental.

Nosso próprio Departamento Australiano de Estatísticas não parece considerar a análise do consumo de alimentos como uma prioridade – os dados levantados sobre o consumo mais recentes datam de 1998 e 1999. O último National Nutrition Survey foi realizado em 1995-1996. Como as agências governamentais podem deliberar, opinar e agir em políticas alimentares quando nem sequer medem o básico do assunto?

Uma análise preliminar dos principais jornais australianos indica que as pautas “carnívoras” surgem, principalmente, em editorias de gastronomia e cultura. (Parte da minha pesquisa tem a ver com o modo como a mídia lida com esta questão.) Um estudo sobre as publicações do The Sydney Morning Herald, do The Australian, do The Daily Telegraph, do The Herald-Sun e do The Financial Review entre junho de 2007 e junho de 2012, no qual foram observados mais de 14.700 artigos referentes às palavras-chave “carne” ou “gado”, revelou que em menos de 0,01% deles se falava sobre os impactos do consumo de carne ou da criação de gado nas mudanças climáticas ou na emissão dos gases que provocam o efeito estufa.

A relação entre alimentação e cuidado com o meio ambiente foi transformada em um debate polarizado entre quem come carne e quem é vegetariano.

Uma análise aprofundada da mídia estadunidense indicou que, entre setembro de 2005 e janeiro de 2008, 16 dos maiores jornais de circulação dos Estados Unidos negligenciaram o sistema alimentar como um dos contribuintes mais importantes para as mudanças climáticas globais.

Mas sabemos que a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura informou que a indicação da Livestock’s Long Shadow de que a carne e os produtos lácteos são os alimentos que carregam o maior fardo ambiental. Eles representam aproximadamente metade das emissões de gases de efeito estufa geradas por alimentos e 18% das emissões globais.

O Relatório Nacional de Inventário do Departamento Australiano de Mudanças Climáticas de 2009 revelou que o setor agrícola produz a maioria das emissões de óxido nitroso e nitrogênio da Austrália, sendo que a agricultura foi responsável por 15,5% das emissões líquidas entre 2008 e 2009. A fermentação entérica, principalmente de gado e ovelha, contribuiu com 64,4% das emissões agrícolas. O gerenciamento de estrume contribuiu com 3,9%.

Em todo o mundo, a manutenção de gado e a produção de carne também foram identificadas como principais contribuintes para o consumo excessivo de água, alto uso de fósforo (outro problema urgente e negligenciado), degradação da terra (ameaçando a produção de alimentos essenciais) e perda de biodiversidade.

Diversas conseqüências para a saúde humana, como doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer, estão associadas a dietas com alto consumo de carne. McMichael, em texto para o The Lancet (2007), relatou: “Uma diminuição significativa do consumo de carne em países de primeiro mundo deve beneficiar a saúde da população, principalmente pela redução do risco de doença isquêmica do coração (especialmente relacionada à gordura saturada), de quadros de obesidade, de desenvolvimento do câncer colorretal e, talvez, alguns outros tipos de câncer”. As preocupações éticas sobre o tratamento dos animais também fazem parte do debate sobre o consumo de carne.

O relatório acima do The Lancet propõe uma estratégia internacional de equilíbrio e convergência para reduzir o consumo médio de produtos de origem animal. Nesse sentido, os países com consumo elevado reduzem o hábito, permitindo que os países de baixo consumo possam ter mais alimentos à base de carne. Os autores do The Lancet propõem o consumo de 90g de carne por dia como um alvo global de trabalho, sendo que “não mais de 50g seriam provenientes de carne vermelha de ruminantes”.

A indústria e os lóbis têm muito poder de controle econômico e político, e promovem campanhas pesadas de consumo e comercialização de carne.

Os números ABS de consumo de 1998 e 1999 sugerem que o consumo médio de carne é de 304g por dia, dos quais pelo menos 126g são de carne bovina e de cordeiro. A Pesquisa Nacional de Nutrição de 1995 e 1996 registrou que homens e mulheres ingerem uma média diária de 158g de carne, dos quais 114g eram de cordeiro, de boi, de porco ou vitela. Se incluirmos as aves, os homens consumiam em média 200g e as mulheres 116g.

A boa notícia é que sua refeição não vai sofrer de nenhuma forma quando você começar a reduzir o consumo de carne. O vegetarianismo não vai ser abraçado por todo mundo, mas podemos aprender a desfrutar de outros alimentos proteicos e alcançar um nível de consumo de carne que ofereça benefícios de equidade, de saúde e de cuidado com o meio ambiente. Existem várias formas de fazer isso.

Opções tecnológica para alívio estrutural na alimentação, na criação e no gerenciamento de animais que controlem as emissões de N2O e CH4 feitas pela indústria da carne e pela pecuária diminuem o problema dos gases de efeito estufa, reduzindo sua emissão em 15% a 20%. Mas estas inovações dificilmente resolverão o problema da maneira como é necessário que ele seja resolvido. Há um argumento muito forte com relação ao problema do efeito estufa que fala justamente na redução da emissão dos gases poluentes por parte da produção de carne.

Com uma evidência tão clara do vínculo entre o alto consumo de carne vermelha e os impactos no meio ambiente e na saúde humana, é importante perguntar por que essa questão não é uma prioridade até hoje.

Há uma série de possíveis respostas para essa pergunta, e elas podem ajudar a esclarecer as coisas. Primeiro, a relação entre alimentação e cuidado com o meio ambiente foi transformada em um debate polarizado entre quem come carne e quem é vegetariano, como se houvesse apenas duas opções de dieta disponíveis no mundo. Embora o vegetarianismo abrace preocupações éticas importantes e nobres, também de cunho ambiental, existe um caminho intermediário.

Em segundo lugar, a indústria e os grupos influentes (lóbis) tradicionalmente têm muito poder de controle econômico e político. Eles promovem campanhas pesadas de consumo e comercialização de carne que miram nossas inseguranças, tentando convencer-nos de que nosso desenvolvimento cerebral está ligado à ingestão de carne. Associações religiosas e culturais também fazem isso, mas nem o cordeiro de sacrifício foi entregue todos os dias.

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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