Revista Mandala
Imagem: reprodução

Por que você deveria meditar sem nenhum motivo especial

A meditação pode até torná-lo alguém melhor, mas não sendo usada como ponte entre o presente e um futuro idealizado.

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meditate mediumEste artigo foi escrito em inglês por Charlie Amber na plataforma Medium. Para acessar o texto original, intitulado Why You Should Meditate For No Reason, clique aqui.

Eu vi outro artigo esta manhã com um título do tipo “como meditação faz você mais impressionante”. Foi escrito no costumeiro estilo exagerado de retórica que, às vezes, me faz sentir vergonha de ser da minha geração. Eu passei quase dez anos lendo sobre a meditação ao mesmo tempo em que praticava, e gostaria de esclarecer o que é meditação e por que você não deve ser enganado por artigos como o que mencionei.

Ok, uma longa história curta: a sociedade moderna se desenvolveu renascendo das cinzas da sociedade feudal e religiosa. Uma nova classe secular de gerentes financeiros emergiu para tomar o lugar dos antigos administradores de igrejas e estados. As prioridades da sociedade moderna, especialmente no Ocidente, são o individualismo, o materialismo e a produtividade, ao contrário da piedade, do coletivismo e da submissão à hierarquia social. Os problemas particulares de nossa era não são exclusivamente problemas humanos antigos, mas também bugs específicos de uma geração que emergiu do software de um vida moderna hiper-acelerada. Esses problemas são tão atomizados quanto a própria sociedade e impactam a todos de forma ligeiramente diferente. Independentemente disso, eles afetam qualquer pessoa que não vive em uma caverna, e talvez até mesmo alguns que vivem.

Todas as sociedades na história humana encontraram métodos espirituais para lidar com as dificuldades de seu tempo, alguns mais excêntricos do que outros. A vida é dura, e é ainda mais dura quando não damos um jeito de inventar algum tipo de estrutura de significado e valor. Isso poderia significar valores puritanos estritos de uma tempo passado, ou valores progressistas similarmente puritanos (embora mais abertos) do século XX. Os problemas atuais são urgentes. Vivemos num mundo cada vez mais virtual, onde a intimidade, a espiritualidade e o trabalho são todos filtrados através de uma lente puramente material/digital. Isso nos faz mais alienados do que nunca. E, como nas épocas humanas passadas, as classes superiores não são salvas dessa alienação. Todo mundo pode provar um pouco. A realidade da vida, todos os seus sofrimentos e confusões, não podem ser abafados pela Grande Marcha Para o Progresso (social, material, tecnológico ou de outro tipo) mais do que Lutero ou Calvin foram capazes de fazer com que todos fossem para o céu. A busca da felicidade não nos fará felizes da mesma maneira que Newton era incapaz de inventar a antigravidade.

Entrando no palco pelo lado oposto: a meditação. A meditação surgiu no Ocidente no início do século XX, quando pequenos grupos de esoteristas, acadêmicos e outros esquisitos começaram a viajar para o Oriente e absorver as tradições culturais que mais gostavam. A meditação tornou-se mais comum nos anos 50 e 60 com figuras como DT Suzuki e Alan Watts, que entenderam que a consciência imaterial oriental (especificamente no Zen) era uma estrutura de anti-pensamento que poderia combater diretamente os problemas de uma modernidade sobrecarregada e irreal. O problema dessas figuras populares, porém, era que elas conversavam muito sobre o Zen sem meditar. Suzuki quase nunca falou sobre Zazen, e Watts não vê a prática como algo particularmente importante.

Recentemente, reli o grande mestre zen Dogen, que durante todo o ano de 1200 foi capaz de articular como estar sentado em Zazen todos os dias nos ajuda a transcender o materialismo e o idealismo e a existir na pureza de cada momento. Ele nos lembra que as pequenas tarefas diárias da vida são tudo o que temos; elas não são passos para grandes realizações. Acho esses textos brilhantemente oportunos hoje, quando cada atividade parece ser pretendida como um trampolim para outra coisa. Esse constante desejo de estar em outro lugar ou em algum momento além do agora é o que define nossa ansiedade coletiva e a sensação de falta de propósito. Nós retiramos da vida o significado de cada momento e ainda ficamos confusos sobre o motivo de ela parecer tão vaga!

A meditação pode torná-lo mais “impressionante”, mas não se você usá-la como uma ponte entre você agora e o você que impressiona. Ela pode ajudá-lo a obter auto-realização, ter uma ótima ideia para um livro, aprender a amar, fazer um monte de dinheiro, pensar em sua nova motivação ou seja lá o que for. Mas este não é o propósito da prática meditativa. Se nos aproximarmos da meditação orientados pela perspectiva dessa era obsessiva por dinheiro e cancerígena, iremos falhar sempre. A chave é ser paciente consigo mesmo ao compreender a nuance de por que a meditação é “útil”.

E assim, bom leitor, imploro: meditem por meditar. Façam isso todos os dias. Como um bom trabalhador, faça sem qualquer expectativa de recompensa. Pense nisso como caridade para si mesmo. Permaneça consistente e confiante em si mesmo. Deixe-se cometer erros. Deixe ser desconfortável ou mesmo doloroso às vezes. Deixe tudo passar além de você. Apenas certifique-se de que está praticando todos os dias e mantendo suas expectativas tão baixas quanto possível. Não acredito no hype, porque o hype irá impedi-lo de transcender completamente à mesquinhez da vida material. Este é o valor da meditação, e é difícil de explicar para você até que você se sente e o faça por um tempo. É muito simples. Apenas faça!

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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