Revista Mandala

Posto, logo existo: por trás da superexposição nas redes sociais

Especialistas da psicanálise, da astrologia e da filosofia respondem: de quantos likes precisamos para conhecer a felicidade?

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Vá até as redes sociais que você costuma usar e analise as suas últimas postagens. O que tem lá? Tente sentir qual o verdadeiro impulso que o motivou a escrever aquelas frases ou postar aquelas fotos. Por que era importante compartilhar aquilo com os outros naquele momento?

Pense bem. O que você estava querendo dizer, de fato, ao publicar uma foto com seu prato preferido, ou aquela em que está bem vestido e cercado de pessoas felizes em um ambiente bacana? Qual a real intenção em manifestar suas indignações, incertezas e declarações de afeto publicamente?

Segundo o psicanalista Eduardo Buatim Nion, de Curitiba, as pessoas buscam aceitação e amor das imagens que criam delas mesmas. “Protegidas neste eu fictício e virtual, elas podem ser o super herói, o filantropo, o melhor cidadão, um abdome, a vitima do sistema ou de uma relação, afinal, ser vitima também é se colocar como o melhor diante dos malfeitores”, explica Nion.

Aquele que oculta a sua verdadeira identidade atrás de uma imagem ideal é denominado “sujeito factoide”, um indivíduo que não é tão espetacular quanto parece.

Nas redes sociais, esses personagens valentes ou vitimizados são encontrados aos montes, porém qual o problema de expor o melhor – ou o pior – de cada um a centenas de pessoas na internet? Nion explica que a superexposição revela uma faceta narcísica, da qual decorre também o moralismo impulsivo. “A superexposição não se dá pela via do compartilhar o ser, do dividir que dá lugar ao outro, ao encontro, e sim para uma superexposição sustentada no aparecer, da imagem ideal.

E como toda imagem ideal, precisa do coro, do olhar do outro, do reconhecimento para se fazer valer, como um ator no palco que necessita dos aplausos para sustentar seu lugar. Dai basta um clique, um like, um comentário para dar forma e sustentação dessa imagem, tal como um ator encenando, solitário rodeado de olhares”, ilustra o psicanalista.

Para os astrólogos Sérgio Seixas e Lygia Franklin, do Rio de Janeiro, aquele que oculta a sua verdadeira identidade atrás de uma imagem ideal é denominado “sujeito factoide”, um indivíduo que se apóia na superficialidade para esconder o seu íntimo, que não é tão espetacular quanto parece. A imagem que se mostra é aquela que se gostaria de ser e revela que, por trás dela, pode haver alguém em sofrimento.

Ao nos comunicamos com o mundo através de nossas imagens ideais, os receptores, por estarem distantes, não conseguem perceber realmente como somos, o nosso verdadeiro estado psíquico. Presencialmente, segundo a astróloga, a nossa energia nos denuncia e mostra que não somos são tão maravilhosos assim.

“Então, atrás dos posts, a minha autoimagem está salvaguardada. Eu me mostro uma pessoa afetiva, feliz, tenho belos pensamentos, eu me autoedito. Mas quem está se relacionando com quem realmente? Aí a solidão está instalada”, analisa Lygia.

Embora tenhamos provas de aceitação através dos comentários e curtidas recebidos em nossos posts, ela se dá em um contexto superficial e de distanciamento entre os indivíduos. “As redes sociais podem, por um lado, aproximar as pessoas, mas vejo muitas vezes um terreno fértil para relações do tipo amigos-endorfina, que nos dá um prazer momentâneo, ou podemos chamar de relação de auto-ajuda, que são aquelas relações cheias de um conforto instantâneo e sedutor, mas que na verdade têm uma estrutura de esconde-esconde”, coloca Lygia.

Ego insatisfeito

Segundo o psicanalista, as relações virtuais têm encontrado expressão nas redes sociais para dar uma solução ao eterno desencontro do ser humano. “E não estou falando do campo das companhias. O que me refiro aqui é de um desencontro inerentemente humano, porém com nós mesmos. O virtual tenta dar uma saída a esta angústia primordial e própria do humano: a da perene cisão entre o que somos e o eu ideal”, explica.

O psicanalista destaca ainda que a imagem ideal proporciona uma falsa ideia de um eu inteiro e busca preencher a verdade sobre nós mesmos. “De que nosso ser é, em parte, muitos, de que somos em suma, ou em grande parte, uma contradição, que o que desejamos nem sempre é o que queremos, que o desejo é sempre maior que o limite de nosso corpo, que entre o que falamos e sentimos, sempre nos escapa algo… algo que não compreendemos, principalmente sobre nós mesmos”, esclarece.

Enquanto a constante insatisfação se configura como um mistério intrínseco do humano, a construção da imagem ideal encontra explicação em diferentes contextos. Um deles está relacionado à ruptura de um regime fechado que, até pouco tempo atrás, cerceava o indivíduo ao ditar que ele poderia assumir apenas uma identidade. “Hoje a gente vive o melhor dos mundos no sentido de que nós somos homens, somos mulheres, somos masculino, somos feminino, temos todos os sexos e o que conta é aquilo que majoritariamente nos convoca”, explica Seixas.

Se hoje há maior abertura para cada um ser o que bem entende, a internet é uma forte aliada na construção e afirmação, muitas vezes distorcida, da identidade. “Hoje, mais do que nunca, somos bombardeamos por nós mesmos, por escolhas nossas de vivermos muitas horas na frente de uma tela. A cultura ocidental desconhece um pouco, por exemplo, o dano em relação ao fígado e, por conta disso, em relação ao sistema imunológico.

O ocidental não relaciona que aquilo que entra nos olhos pode enaltecer ou ferir o fígado, o órgão da criatividade, de recriar a vida, de recomeçar uma existência, como também é o órgão da ira, da frustração…”, conta Seixas. Para o astrólogo, se por um lado o sistema nervoso nos leva ao estresse e à ansiedade crônica, por outro o sexo é uma ferramenta de alívio. “Então, isso vai chegando ao tal ponto, na busca de um prazer rápido e momentâneo, que o desejo e o corpo passam a ser um instrumento de construção desse sujeito factoide”, explica.

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Sexualidade espetaculosa

Junto com as sedutoras ferramentas cibernéticas que facilitam mostrar nossa imagem para centenas de pessoas, surge a possibilidade de mostrar ao mundo o nosso “eu ideal” que pode se apresentar como um indivíduo feliz, bem-sucedido, amado entre tantas outras identidades. “Todo ser humano em algum momento de sua vida já se apaixonou, seja por um objeto amoroso ou, como muitos, pelo trabalho. E como nos apresentamos diante de nosso alvo de investimento amoroso? Mostrando o melhor de nós mesmos e vendendo uma imagem ideal”, explica Nion.

Porém, a diferença entre a imagem ideal do indivíduo na internet e fora dela é que, segundo o psicanalista, no campo da realidade ela passa a se desmontar gradativamente. “Na rotina cotidiana, vamos, ainda que num tempo breve, pagar um certo preço subjetivo, um preço emocional para sustentar ao outro essa imagem hipervalorizada de nós mesmos.

Pouco a pouco, as peças intimas vão se mostrando mais soltas, vai se liberando gradativamente deste peso e, consequentemente, o amante vai tendo que lidar com estas solturas. Pede-se a nós, enquanto relação, certo trabalho psiquico para suportar o real. E este é o ponto crucial, o processo não ocorre apenas externamente, mas inclusive internamente”, explica.

Para Seixas, o que sobressai nas relações não é o afeto, o amor e nem a intimidade. “O que está em jogo não é a construção de mim mesmo através da relação e sim uma atração compulsória dessa sexualidade espetaculosa que encontra um campo fértil para seres ansiosos, ávidos para gritar, ávidos para ejacular potência para fora”, explica.

Lygia conta que vivemos em uma época bela e necessária, porém uma perigosa era de desrepressão. “Mais do que nunca precisamos de um sujeito estruturado para lidar com toda essa liberdade, liberdade de ser, de descobrimento, de questionamento, de descobrimento do outro, porque senão em vez de liberdade a gente vai ter cada vez mais é confusão”, diz.

“Se hoje temos a condição de bancar essa pluralidade, por outro lado é uma ferramenta espetaculosa que faz com esse sujeito factoide, que é um sujeito carnavalesco – uma das características desse homem atual que está sambando porém a ficha não caindo – é usar a sexualidade para afirmar um desejo que forja a aparência de um rosto, a aparência de um sujeito, a aparência de um eu”, finaliza Seixas.

Intenção romântica

Para o filósofo Aaron Ben-Ze’ev, um dos maiores especialistas do mundo no estudo das emoções e autor de livros como  In The Name of Love (Oxford University Press, 2008) e Love Online: Emotions on the Internet  (Cambridge University Press, 2004), a principal função romântica do espaço cibernético é proporcionar o encontro do novo parceiro amoroso.

Com tantas pessoas disponíveis, essa tarefa se torna fácil, diz ele, entretanto, há um preço: é preciso se expor para que os outros lhe desejem. “Se você não fala nada sobre você, as pessoas podem achar que você esconde alguns aspectos negativos; assim, a autorrevelação é predominante na internet.

É tentador fazer isto achando, erroneamente, que quanto mais você revelar sobre si mesmo, mais as pessoas vão lhe desejar”, explica ao repórter da Revista Mandala Edmar Borges. Confira a seguir a entrevista na íntegra.

Aaron Ben-Ze´ev
Aaron Ben-Ze´ev

Revista Mandala – Em sua primeira pesquisa, você fala sobre as áreas centrais do relacionamento amoroso online. Assim como a internet incentiva esse novo comportamento amoroso, pode ela também transformar relações pessoais de outras naturezas?

A internet facilita o conhecimento de outras pessoas, porém ela não muda a natureza das experiências emocionais. Entretanto, o uso da internet pode alterar a forma que interagimos com outras pessoas, mas não necessariamente inventar novos tipos de emoções.

Revista Mandala – Algumas pessoas tendem a mascar a si próprias no processo de conquista romântica, mas também em outras situações, como no trabalho ou na escola. Na internet, isto se torna mais fácil já que condicionamos o ponto de vista do outro. Qual a relação disto com a construção de uma pseudo-identidade?

Juntamente com a grande autorrevelação na internet, também é dominante o engano. As pessoas podem facilmente fornecer informações enganosas sobre si próprias. Para evitar isso, é altamente recomendado conhecê-la pessoalmente logo nos primeiros estágios de um relacionamento, para obter uma impressão direta da outra pessoa.

Revista Mandala – Geralmente, um indivíduo posta algo esperando obter “curtidas”, assim como ele ama esperando ser amado. Ele monitora freneticamente a recepção de seu post, mas isto pode ser frustrante. Quais poderiam ser as consequências do insucesso virtual?

Fracassos virtuais são devastadores como fracassos convencionais, entretanto, os insucessos são mais comuns na rede. Como o número de tentativas de se começar um novo relacionamento amoroso é maior  na internet, um indivíduo pode se acostumar com estes fracassos como sendo parte de nossas vidas e assim aceitá-los de uma forma menos negativa.

Revista Mandala – Você diz que existem semelhanças entre cybering e o uso de drogas. Em quais aspectos? Quais são eles?

Cybering é similar, em alguns aspectos significativos, com o uso de drogas. Ambos proporcionam fácil acesso ao prazer, que é frequentemente baseado em realidades virtuais. Em ambos os casos, os resultados tentadores podem tornar as pessoas perigosamente viciadas no método; as pessoas querem mais e mais, porém a satisfação é limitada e se torna mais custosa para se conquistar. Um desejo não satisfeito por drogas assim como o cybering pode causar grande aflição.

Assim que um indivíduo embarcar em um relacionamento amoroso ou no uso de drogas, a situação frequentemente pode tomar seu próprio rumo quase que involuntariamente. Enquanto que as drogas artificialmente estimulam regiões de prazer no cérebro, conversas online artificialmente estimulam regiões de prazer na mente. Estimulação artificial pode parecer fácil e sem custo; porém, o preço pode ser alto em termos de nossa performance geral e, em particular, em termos do preço que pessoas perto de nós na nossa vida offline talvez tenham que pagar.

O barato que muitas pessoas obtêm de interações na rede rapidamente se esvai e é substituído por aspectos rotineiros e entediantes de nossa vida cotidiana. Além disso, assim como acontece com os entorpecentes, ficar drogado online pode requerer mais e mais doses de imaginação, que por sua vez pode aumentar cada vez mais a lacuna entre a realidade e o espaço cibernético.

O risco de ter um comportamento compulsivo usando a internet pode ser considerado até maior do que com drogas, já que com elas o perigo é evidente e conhecido, assim grande parte da população não as usa. A internet é utilizada por quase todos e seus riscos não são óbvios, portanto um pode falhar em tomar precauções contra a mesma.

Revista Mandala – O que você pensa sobre cybering? Quero dizer, você se sente positivo em relação as transformações sociais que isso provém?

Cybering é uma nova tecnologia que possui várias vantagens no campo romântico, assim como em outros campos. Entretanto, as vantagens do cybering são boas meramente por um curto período, o período dos estágios iniciais do relacionamento. Após isso, a combinação das comunicações convencional e online será de grande valor no desenvolvimento do relacionamento. Apesar do tempo ser uma mercadoria cara na sociedade cibernética, vale a pena ser investido no amor.

Quando o tempo é usado de forma significativa, é constitutivo para o profundo amor. Portanto, ele é crucial para uma redução considerável de comprometimentos amorosos. O timing (cronometragem do tempo, em tradução livre), que é geralmente algo necessário para tarefas passageiras, é de grande valor na hora de juntar duas pessoas, entretanto, o tempo, ao invés de timing, é mais essencial para manter e engrandecer um profundo amor.

De quantos likes você precisa para ser feliz?

Conheça a história de Scot Thomson e suas redes sociais. Shaun Higton dirige “What’s On Your Mind?”, curta de 3 minutos que explora as alegorias da vida virtual.

Maiana Antunes

Fundadora, jornalista e editora da Revista Mandala.

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