Revista Mandala

Precisamos falar sobre as crianças

As crianças são o futuro de nossa espécie. Mas quem são elas, como se comportam e de que maneira suas manifestações desenham a sociedade que está por vir?

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Uma das máximas mais reproduzidas em tempos de preocupação social e ecológica com o nosso planeta é a de que as crianças são o futuro de nossa espécie. Mas quem são elas, como elas se comportam e de que maneira suas manifestações desenham a sociedade que está por vir?

Aos olhos de uma criança, o mundo é particular. Na infância, são criadas e recebidas as primeiras percepções sociais, pessoais e familiares. Mas não apenas por isso, devemos nos atentar ao fato de que cada ser se distingue do outro independente da idade. E, nesse cenário, os ambientes de convivência da criança surgem como grande potencializadores de sua formação. A escola é um deles.

De acordo com a pedagoga Cida Satto, a escola é o lugar onde devem ser promovidas diariamente reflexões e ações com o objetivo de priorizar os direitos das crianças e suas especificidades. “Ela (a escola) consegue fazer isso quando respeita as diferenças de seus alunos, possibilita que possam se expressar, conhece suas histórias de vida e levam em consideração suas experiências e saberes”, afirma Satto, que é Doutora em Educação pelo Programa de Estudos Pós-graduados da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

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Mas a escola não é a única responsável pelo desenvolvimento infantil, seja intelectual ou de outras naturezas. O ambiente familiar também é fundamental nesse processo e deve contribuir para que os pequenos se expressem e se manifestem com liberdade e bom senso. “Muitas vezes a família impossibilita que isso ocorra, uma vez que não propicia relações e interações sociais significativas nas experiências educativas”, Satto aponta, e acrescenta que é preciso respeitar o indivíduo como ser humano, não importa a idade, e permitir que uma criança seja criança.

“As crianças, de forma geral, apresentam mais comportamentos de agitação, ansiedade e desatenção”, ela descreve, com base em suas descobertas e percepções no trabalho e nos estudos na área de Psicologia da Educação. “Muitas delas têm pouco tempo para brincar, assim como pouco espaço e estímulo, priorizando outras atividades ou sendo adultizadas a partir de modos de se comportar, vestir e sentir”.

Aí está uma grande questão da Educação moderna: considerando que os pequenos têm suas próprias características e perspectivas de mundo, por que muitos ainda insistem em compará-los com “gente grande”?

A cobrança do adultocentrismo e o debate de gênero

Quem nunca teve que responder à pergunta “o que você quer ser quando crescer”? Dentre tantos questionamento pelos quais as crianças passam sobre seu futuro, a projeção profissional parece ser a mais recorrente. Os pais estão preocupados com a estabilidade financeira dos filhos, os professores esperam que eles falem pelo menos dois idiomas e os vizinhos procuram as medalhas e os troféus nas estantes. Nada de errado em se preparar para o futuro, mas existe alguma garantia de que todas essas expectativas acumuladas logo na infância serão suprimidas?

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Não. Pelo menos foi o que revelou uma pesquisa realizada pelo LinkedIn em 2012 que levantou as dez profissões mais almejadas pelas crianças e se elas de fato foram exercidas na idade adulta. Engenharia e medicina encabeçam a lista, intermediadas pelo sonho de ser piloto de avião ou de helicóptero. Mas de acordo com os dados divulgados, apenas 8,9% dos 8 mil profissionais entrevistados caminharam até o fim rumo à sonhada profissão.

A expectativa de que a criança se comporte como um adulto tem sido cada vez mais incorporada na sociedade. Em realities infantis o espectador se vê diante de crianças rigorosamente cobradas e às vezes protagonistas de diálogos excêntricos em níveis adultos. Para Satto, isso pode ser significativamente prejudicial pois a infância deve ser entendida não só como uma preparação para a fase adulta, mas também como uma fase em si mesma. “Essas comparações cobram e exigem das crianças comportamentos e atitudes que não dizem respeito à faixa etária em que se encontram”, ela afirma.

No campo de gênero, o debate sobre o adultocentrismo e a expectativa social e familiar se abrange. O pesquisador Adriano Senkevics, que realizou durante seu mestrado uma pesquisa sobre a desigualdade de gênero na Educação brasileira, aponta mais uma característica das escolhas feitas pelas crianças quando projetam seu futuro. De acordo com ele, “pais e mães tratam o sexo da criança como uma linha condutora para a escolha das cores do enxoval, dos seus nomes, dos brinquedos, etc. E assim as crianças são socializadas, de maneira diferente, de acordo com os referenciais de gênero, presentes na sociedade como um todo, que informam os familiares como meninas e meninos devem supostamente ser tratados”.

Senkevics é Mestre em Educação pela Universidade de São Paulo (USP) e acompanhou crianças de uma escola da periferia paulistana durante sua pesquisa de mestrado. A desigualdade de gêneros que ele observa poderia estar diretamente relacionada com as profissões desejadas pelas crianças, visto que, como ele notou, as meninas são mais cobradas nos afazeres domésticos e nas responsabilidades que os meninos. Ele observou que meninas geralmente querem ser veterinárias, professoras ou médicas, enquanto os meninos preferem profissões como policial, bombeiro, motorista de caminhão e jogador de futebol. Para ele, essa diferenciação é bastante observável no campo acadêmico por meio de pesquisas, mas esse é um assunto ainda pouco investigado. Por terem menos opções de entretenimento e participarem diariamente dos afazeres domésticos, as meninas seriam motivadas pelo desejo de emancipação, ao ponto em que meninos tenderiam a procurar profissões onde pudessem continuar se divertindo.

As infâncias: olhar para as crianças é olhar para cima

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Muitas crianças que pertencem a camadas mais privilegiadas da sociedade têm sua infância encurtada em função de atividades capacitativas, tais quais balé, idiomas, música, etc, como aponta Satto. As crianças com menos condições financeiras, por sua vez, também correm o risco de perder a infância porque começam a trabalhar mais cedo. Por isso a pedagoga e professora afirma que há urgência em se falar sobre infâncias, no plural, e não sobre uma infância que se universaliza e se aplica a todas as crianças da mesma maneira.

 

Portanto, mais importante que saber como as crianças serão quando adultas é descobrir quem elas são agora, enquanto membros da cidadania e agentes particulares do mundo. Filhos, sobrinhos, amigos. Que pertencem à construção da nossa história como humanidade. E que também, infelizmente, sofrem com os danos que herdam dos adultos de hoje e do passado, como revelou a Unicef em novembro ao divulgar que 690 milhões de crianças habitam as regiões que serão mais afetadas pelas mudanças climáticas do aquecimento global. Na internet, nas ruas e nas casas, porém, elas ainda brilham. Todos os dias são divulgados vídeos de comportamentos surpreendentes de crianças cada vez mais novas, falando sobre o preconceito, o vegetarianismo e o senso de ecologia. E inclusive nesse âmbito precisamos saber preservá-las e nos adaptar à imersão da tecnologia na formação dos pequenos grandes edificadores do futuro.

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A reflexão sobre o universo infantil não deve ser abandonada nunca. Não se pode padronizar a infância nem inventá-la de acordo com o que for mais conveniente para a sociedade em vigor. E Satto questiona: “Se a infância for uma invenção, é possível que ela desapareça, extinta por nós?”

Não é sobre as crianças que precisamos falar, afinal. É sobre quem as tem visto crescer.

Edmar Borges

Jornalista latino-americano sem dinheiro no banco nem parentes importantes, ilustrador vindo do interior de Minas Gerais. Acredita que um dia a tecnologia e a espiritualidade vão ter uma linda prole. Você também me encontra em omxxnamashivaya.tumblr.com

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